Je Ne Suis Pas Un Bonhomme de Neige

por Juliana Toledo Bueno

Nevava. Não, não nevava. Sempre neva. Neva dia e noite, sem parar, e não é neve, é enfeite. Estou em um globo de neve com neve falsa. Sou um boneco de neve na Avenida Paulista, localizada em São Paulo, Brasil, o país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza. Minha existência é uma contradição. Ou uma farsa. Mas vamos aos poucos.

Em primeiro lugar, muito prazer, ou quase. Gosto de dizer que me chamo Mr. Snowman, já que é aquilo que está escrito logo atrás de mim no cenário do globo. Aqui, a espuma branca circula constantemente, dando a impressão de que está nevando e de que sou realmente um boneco de neve. Bem, eu não sou exatamente isso, apenas aparento ser. “Je ne suis pas un bonhomme de neige”, estaria escrito se meu globo fosse uma obra de Magritte. “Isso não é um cachimbo”, como “Eu Não Sou Um Boneco de Neve”, apenas uma representação gráfica dele. O que sou ainda não sei dizer, embora ache que um mero enfeite, temporário e descartável. Gosto de me perguntar se ao menos fui caro.

Não acho que tenha sido uma boa apresentação, já que não trouxe muitas certezas, apenas minhas inquietudes. Ocorre que já não aguento mais essa vida de aparências, preciso encontrar um sentido na minha vida e não tenho quem me ajude. Nem ao menos fabricaram um Noel para posar ao meu lado. Todos adoram o bom velhinho e possivelmente nós nos daríamos bem, sem falar que ele valorizaria muito minha existência. Não devo ter sido tão caro, afinal. 

O calor é grande e o sol brilha quase todos os dias, com exceção de quando está chovendo. Milhares de pessoas passam por mim e muitos tiram fotografias. Devo estar em diversos retratos, mas não entendo porque  alguém tiraria foto de um boneco de neve que não é de neve, com um nariz de cenoura que não é de cenoura e com um nome em um idioma que nem é o seu. Pior é quando os pais obrigam os filhos a tirarem as fotos, pois aí temos também a criança com um sorriso que não é sorriso. Na verdade, pior ainda é quando as pessoas acreditam no próprio sorriso, que some assim que publicam a foto. 

Fato é que, para mim, isso não faz a menor diferença. De qualquer maneira, felizes ou não, eu não vejo as fotos, não sei nem como é meu globo pela frente. Fico ao lado do MASP, que é logo ali, na mesma calçada, apenas seguindo em frente, como explica sempre aos perdidos o guarda que passa o dia na porta mais próxima a mim. Gosto de ouvir as conversas das pessoas que voltam do museu. Já aprendi muito assim. Estou sempre atualizado das promoções e das maiores fofocas! A Jéssica vai ser pedida em casamento, inclusive! Isso não é incrível? A aliança foi comprada aqui na frente e foi muito cara. Será que eu também fui caro?

Apesar de o movimento já estar menor, lá vem uma criança tirar foto comigo. Está com a mãe. Não conheço a marca de suas roupas. É uma criança adorável e ela está me olhando. Colocou a mão no globo e está fitando meus olhos. Como ela é linda! E esse gorrinho de Papai Noel na cabeça, como fica charmoso! 

– Filha, não encosta no enfeite! É muito caro e se estragar a mamãe não consegue pagar outro para o shopping! Toma cuidado. 

O enfeite sou eu. Eu sou caro!

– Eu não vou estragar, mamãe. Será que ele não se sente sozinho aí dentro?

Eu também não sei. Quando não se sabe o que querer, não sabemos bem o que sentimos, mas agora sei que estou feliz. Essa menina é um amor! Tão carinhosa e me olhando com tanta paixão! Eu me sinto especial com esse olhar. Ela está feliz em me ver e está abraçando o globo para eu não me sentir sozinho! Nunca sonhei que alguém agiria assim comigo. 

– Esse é o enfeite mais fofinho do mundo, mamãe! 

É exatamente isso que eu sou. O enfeite mais fofinho do mundo! Je ne suis pas un bonhomme de neige! Também não sou uma obra surrealista ou um motivo de reflexão! Não sou um Mr. Snowman. Eu sou o enfeite mais fofinho do mundo e faço essa criança feliz. Isso, para mim, já é suficiente. Fui importante para ela, assim como ela foi importante para mim. Quem precisa do bom velhinho? Meu valor está nos olhos dessa mocinha. 

Publicado por Fernanda Aparecida Lopes Balthazar


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