Por Ana Carolina Felix e Maria Fernanda Marinho Vitório

Caos, instabilidade e violência. Esse foi o contexto experienciado pelos afegãos desde a década de 70, durante a eclosão da chamada Guerra do Afeganistão de 1979, quando as duas maiores potências da Guerra Fria fizeram do país asiático mais um palco para seus conflitos geopolíticos. Foi com financiamento internacional que surgiram movimentos fundamentalistas nacionalistas que lutavam contra a autoridade estrangeira no país, sendo o grupo Talibã um dos principais deles. Desta forma, após a retirada das tropas soviéticas, o grupo extremista se organizou e instaurou uma versão própria da Sharia, – princípios de governança que um muçulmano deve seguir quando assume algum papel de liderança, de acordo com  Sheikh Muhammad al-Bukai,  Diretor dos Assuntos Islâmicos da União Nacional das Entidades Islâmicas do Brasil (UNI) – tomando o poder do Afeganistão já na segunda metade da década de 90. O controle e a influência do Talibã não foram perdidos ao longo do tempo, mesmo com a invasão militar dos Estados Unidos no país – uma reação após a série de ataques de 11 de setembro de 2001. O cenário, no entanto, mudou no início deste mês, passados 20 anos do atentado às Torres Gêmeas. Olhares do mundo todo se voltaram ao Afeganistão diante da enorme instabilidade política e medo que paira sobre o país. O Estado afegão foi colocado em xeque pelo grupo Talibã depois que o presidente norte-americano Joe Biden retirou as tropas estadunidenses do Afeganistão.

Surgido oficialmente na década de 1990, o Talibã é um grupo armado fundamentalista afegão que almeja o poder no país há décadas. Com o apoio dos Estados Unidos, eles foram os responsáveis pela derrota das tropas soviéticas que invadiram o Afeganistão durante a Guerra Fria, derrubando o governo comunista da época e assumindo o controle do país em 1994. A partir daí, o Talibã passou a impor sua visão extremista e deturpada do Islã e a instaurar o terror no Afeganistão para se manter no poder. Um exemplo disso são as inúmeras restrições que o grupo impõe sobre a população, principalmente às mulheres, que tiveram sua autonomia da vontade violada. Contra suas leis, o Talibã aplica penas que mantêm o clima extremo de medo, por exemplo, o apedrejamento e execução de cidadãos em praça pública. 

O Talibã teve o apoio dos Estados Unidos até o atentado das Torres Gêmeas, realizado pela Al Qaeda, em 11 de setembro de 2001. Ao apontarem o grupo como responsável pelo ataque, os norte-americanos declararam guerra e ocuparam o Afeganistão com suas tropas, a fim de encontrar e executar Osama Bin Laden e se manter no território para demonstrar poder e controle. Como já mencionado, apesar de não ter recuperado o poder enquanto o exército estadunidense estava presente, o Talibã não se rendeu, nem deixou de ser influente ou cessou a violência no país, tendo sido o responsável pelos tiros contra Malala Yousafzai em outubro de 2012, no Paquistão, por ter levantado sua voz em defesa da educação das garotas. Em face disso, importa dizer que, segundo a agência para refugiados da Organização das Nações Unidas (ONU), a maior parte das pessoas do Afeganistão que deixaram suas casas em razão do avanço do Talibã é composta por mulheres e crianças.

O atual cenário que está sendo noticiado em todos os veículos de informação se deu quando, após a ação do presidente estadunidense, o Talibã insurgiu-se muito rapidamente. Com sede de poder, o grupo, em poucos dias, tomou um terço do território afegão através de tamanha violência que está levando multidões a fugirem do país, enquanto países vizinhos estão fechando fronteiras para conter o enorme contingente de pessoas. O Afeganistão está na beira de uma guerra civil. 

Horas após a tomada de Cabul, a capital do país, o pavor, a previsão de retrocesso e de perda dos direitos fundamentais eclodiu na sensação de desespero em massa, que resultou na fuga de Ashraf Ghani, o presidente afegão, para o Tajiquistão. Ainda na manhã do último domingo, o chefe executivo admitiu a posse do grupo extremista na região, levando a população a buscar formas alternativas de migração para outras regiões cerca de horas depois. 

Na iminência de uma segunda era do controle repressivo do Talibã no Afeganistão, foram iniciadas discussões de cunho geopolítico pelo globo. O governo chinês, que já detinha acordos com o grupo, anunciou que pretende manter relações amistosas com o mesmo, enquanto a Rússia mantém reconhecimento do governo Talibã em aberto mediante as ações dos líderes. Por outro lado, a Organização das Nações Unidas, em face da situação atual do Afeganistão, através de seu secretário geral Antonio Guterres, pediu em pronunciamento nesta segunda-feira que todos os países se unam para “suprimir a ameaça terrorista mundial no Afeganistão”, além de reiterar em suas redes sociais que agora é hora para o cenário internacional se solidarizar com a situação atual do país. A ONU, até então, não havia prestado suporte efetivo para a emancipação política do Afeganistão, que, ainda com as tropas norte-americanas presentes, vivia uma crise humanitária que estaria prestes a explodir em uma guerra civil até que não fosse mais conveniente para os Estados Unidos manter seu exército em território afegão. 

Referências

  • “Entenda o que ocorre no Afeganistão e a volta do Talibã”. Publicado em EL PAÍS, em 18 de agosto de 2021
  • “Governo afegão desmorona após a chegada do Talibã a Cabul”. Publicado em EL PAÍS, em 15 de agosto de 2021.
  • “Como será a vida no Afeganistão sob controle do Talebã?”. Publicado em BBC Brasil, em 15 de agosto de 2021.
  • “Afeganistão: as imagens que mostram o caos e o desespero dos afegãos após a entrada do Talebã em Cabul”. Publicado em BBC Brasil, em 16 de agosto de 2021.
  • “‘Vamos matar quem não abandonar cultura ocidental’: combatentes do Talibã falam à BBC em meio a avanço no Afeganistão”. Publicado em G1, em 13 de agosto de 2021.
  • “ONU pede que mundo se una contra ‘ameaça terrorista’ no Afeganistão”. Publicado em UOL, em 16 de agosto de 2021.
  • “China e Rússia aproveitam saída dos EUA do Afeganistão e dialogam com Talibã”. Publicado no Ig, em 16 de agosto de 2021.
  • “A sharia não é lei islâmica”. Publicado em Carta Capital, em 17 de agosto de 2021.
  • “[T1/E6] L.F. Pondé e Mohamad Al Bukai”. Publicado em Off Lattes, em 22 de fevereiro de 2020.

Imagem: AFP

Publicado por Maria Fernanda Marinho Vitório


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