Por Leonardo Cipriano

Me lembro da primeira vez em que ouvi a palavra fake. Ainda adolescente, lá por 2010, sem saber qual o significado da palavra, pedi aos meus amigos que me chamassem assim. Uma colega mais velha me perguntou se, por acaso, sabia a tradução, e me explicou que eu pedia para que me chamassem de falso. Na hora, envergonhado, pedi para que não fizessem assim, por óbvio, e mantive o apelido anterior.

Em meados de 2018, no período de eleições presidenciais, o termo voltou à tona com muita força: Fake News, em tradução literal, Notícias Falsas. O então candidato, Jair Messias Bolsonaro, era apontado como um grande vetor da disseminação de Fake News em sua campanha, fator importante na sua conquista da Presidência da República

No livro “A máquina do ódio: notas de uma repórter sobre fake news e violência digital”, a jornalista Patrícia Campos Mello, formada pela Universidade de São Paulo há mais de 25 anos, trata, de forma brilhante, do tema Fake News e suas reverberações na sociedade civil.

Na obra, a autora aborda e explicita a forma como as redes sociais têm servido de mola propulsora a líderes populistas pouco — ou nada — comprometidos com a veracidade das informações e as implicações das reiteradas campanhas de difamação, as quais têm a intenção de atuar como uma certa forma de censura. Versa ainda, acerca do cerceamento da liberdade de imprensa, o qual é amplamente reproduzido, inclusive, pelo presidente Jair Bolsonaro.

Não por acaso, o Deputado Federal e filho do Presidente da República, Eduardo Bolsonaro, foi condenado a indenizar Patrícia em R$30 mil por danos morais. Narrado também nas páginas desta obra, em maio de 2020, o deputado acusou falsamente a jornalista de tentar “seduzir” testemunhas para obter informações prejudiciais a Jair Bolsonaro com o único fim de prejudicar sua honra e reputação.

Publicado em 2020 pela Companhia das Letras, o livro é dividido em 4 capítulos. Em um deles, Patrícia expõe, inclusive, as repercussões que a busca pela informação de verdade acarretaram em sua vida pessoal, sendo alvo de diversos ataques violentos nas redes sociais. Apresenta, assim, a experiência pessoal de quem sofreu na pele as investidas do ‘gabinete do ódio’, bem como a violência contra jornalistas, fazendo comparativo entre o cenário nacional e mundial, expondo suas nuances e similaridades.

A autora conta um momento delicado, de repercussão de toda esta história, o qual me marcou pessoalmente. Seu filho, uma criança, pergunta a ela por que estão chamando a mãe de “vaca” em vídeos que repercutem nas redes sociais. Ela, por sua vez, não soube explicar ao filho toda a situação constrangedora.

Curioso pensar como a palavra “fake” se cruza com minha trajetória, e desde um passado recente, com a história de muitos brasileiros e brasileiras. Em 2010, ao notar o significado e peso da palavra, prontamente optei por retirar de meu cotidiano. Hoje, em 2021, nos deparamos com líderes e influenciadores que se valem de tal artifício para propagar o ódio. A honestidade de uma criança é, de fato, algo a se admirar.

De leitura fluida, envolvente e esclarecedora, cataloguei o livro com cinco estrelas. Sua compreensão, pela abordagem didática da autora, é fácil, difícil mesmo é a indigestão que é causada a cada virada de página.




Referência

“A máquina do ódio: notas de uma repórter sobre fake news e violência digital”, Patrícia Campos Mello (2020, Companhia das Letras)

Imagem:

Companhia das Letras

Publicado por Leonardo Cipriano


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