Por Leonardo Cipriano


Um artigo publicado recentemente na revista acadêmica The Review of Financial Studies, da Oxford University, expôs que, nos Estados Unidos, os gerentes brancos oferecem contratos de financiamento com taxas de juros mais altas a clientes negros (ou asiáticos, hispânicos ou de outra minoria racial) mesmo que estes tenham perfis socioeconômicos e financeiros similares.

Os pesquisadores Brent Ambrose, James Conklin e Luis Lopez mostraram que os juros para empréstimos imobiliários são maiores para clientes negros nos Estados Unidos, dado que o mesmo gerente branco oferece o empréstimo imobiliário com taxas entre 3% e 5% maiores a estes clientes.

A pesquisa contou com a análise de mais de 300 mil negociações de empréstimos originados por quase 125 mil gerentes demonstrando que o principal fator que determina o aumento das taxas é o racismo. Para realizar as comparações, os pesquisadores usaram o método ‘efeito fixo’, o qual permite comparar os empréstimos realizados pelo mesmo gerente.

“Testamos as disparidades de preços em contratos de hipotecas usando um novo conjunto de dados que nos permite observar a raça e etnia de ambas as partes do empréstimo. Descobrimos que as minorias pagam entre 3% e 5% a mais em taxas do que os brancos igualmente qualificados ao obter um empréstimo através do mesmo corretor branco”, explicaram os pesquisadores.

Ainda, de acordo com o artigo, gerentes brancos oferecem taxas menores a clientes brancos, quando comparado às taxas ofertadas aos clientes negros, hispânicos e asiáticos, ao passo que gerentes negros não fazem tal diferenciação independente das características raciais do cliente.

Apesar de nacionalmente ainda não termos dados tão robustos quanto os da Oxford University, podemos inferir que, se numa sociedade na qual 13% da população é negra e paga de 3% a 5% de juros a mais que brancos, apesar das particularidades, no Brasil, onde cerca de 54% da população é negra, o índice, proporcionalmente, deve ser tão alto ou ainda maior.

Fato é que essa situação é o retrato de uma sociedade racista. De acordo com Djamila Ribeiro, “numa sociedade como a brasileira, de herança escravocrata, pessoas negras vão experienciar racismo do lugar de quem é objeto dessa opressão, do lugar que restringe oportunidades por conta desse sistema de opressão. Pessoas brancas vão experienciar o lugar de quem se beneficia dessa mesma opressão. Logo, ambos os grupos podem e devem discutir essas questões, mas falarão de lugares distintos.”.

Assim sendo, mais este, como tantos outros artifícios, fazem a manutenção do racismo estrutural para diminuir o acesso e cercear o desenvolvimento da população negra no Brasil e, como visto, nos EUA – e até mesmo no mundo.

Infelizmente, a discriminação é uma realidade e tem impacto direto nas oportunidade das pessoas, sobretudo, das minorias. Os dados apresentados pelo artigo são, de certa forma, intragáveis, e com certeza, podem servir para a discussão de leis e políticas públicas e propagar a necessidade de consciência social e racial. 

Referências:

Pesquisa nos EUA mostra que gerente branco cobra juros maiores de minorias raciais. Publicado no Portal Geledés em 30/03/2021.

Does Borrower and Broker Race Affect the Cost of Mortgage Credit?. Publicado em The Review of Financial Studies em 02/2021.

Negros representam mais de 13% da população dos EUA e podem ser determinantes nas eleições. Publicado no G1 em 29/10/2020.

Imagem:
Freepik

Publicado por Leonardo Cipriano


Siga o JP3!

Instagram: @jornalpredio3

Facebook: fb.com/jornalpredio3


Mais notícias e mais informações:


Jornal Prédio 3 – JP3 é o periódico on-line dos alunos e dos antigos alunos da Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, organizado pelo Centro Acadêmico João Mendes Júnior e pela Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie (Alumni Direito Mackenzie). Participe e fique em casa!