Por Maria Fernanda Marinho Vitório

“AmarElo: É tudo pra ontem” é um documentário produzido pela Netflix, em parceria com a gravadora musical Laboratório Fantasma, que aborda o célebre álbum AmarElo, vencedor do Grammy Latino, do cantor Emicida. A obra conta a história e o significado de cada uma de suas músicas, mas também é muito mais do que isso. Logo no início, Emicida levanta a ideia por trás de todo o seu trabalho enquanto coloca importantes fatos da história brasileira conversando com a história da música rap. Isso é feito com ilustrações que tornam o documentário um show de arte visual com conteúdo de peso para a conscientização do espectador de que o que ele está assistindo possui um significado maior, em que tudo gira em torno da ideia de resistência. 

Com a frase “Eu não sinto que eu vim, mas sinto que voltei, e que de alguma forma, meus sonhos e minhas lutas começaram muito tempo antes da minha chegada”, Emicida inicia a contextualização do cenário brasileiro e da cidade de São Paulo, que enriqueceu através da produção cafeeira pela mão de obra escrava preta. Esta que, depois da abolição do regime escravista, foi marginalizada e abandonada, de forma que viu as tentativas de branqueamento da população brasileira por meio do incentivo à imigração europeia, a demonização de religiões africanas e indígenas, e o apagamento da memória e de toda a contribuição não branca para o desenvolvimento do Brasil. O cantor também traz a forma como foi construída a periferia de São Paulo por meio de um violento processo de gentrificação, e em seguida, a chegada da cultura hip hop, nascida nos Estados Unidos e disseminada pelo mundo, ao Brasil.

O hip hop e as correntes musicais e visuais que nasceram dele, como o rap, o break e o grafite, foram levados ao centro de São Paulo pela população periférica que viu neles uma maneira de se expressar, e, através deles, construiu um movimento de conscientização acerca do racismo e da desigualdade social. Emicida conta que, mesmo com o descaso da indústria, o hip hop “vendeu milhões de cópias e se tornou o primeiro grande veículo que conecta as classes operárias às ideias dos intelectuais pretos brasileiros, e é vinculado a todas as conquistas da classe trabalhadora desde então”. Tudo isso é levantado de maneira bem dinâmica logo durante os três primeiros minutos de filme e é concluído com a ideia de que a música rap é muito mais do que uma denúncia, visto que também leva à emancipação de milhões de jovens que possuem o objetivo de reescrever a história do Brasil.

Somos levados ao Theatro Municipal de São Paulo para assistir ao espetáculo do AmarElo, ocorrido em novembro de 2019, no mês da consciência negra. Emicida deixa bem claro o significado de estar ocupando aquele espaço, no coração de São Paulo: “Essa é a nossa forma de dizer para todas as pessoas que têm uma origem igual à nossa, que esse lugar é deles”. Ele também diz que uma vez lhe perguntaram “Mas por que o Municipal?”, e ele respondeu: “Porque não tem uma viga, não tem uma ponte, não tem uma rua, não tem um escritório, não tem um prédio importante que não tenha tido uma mão negra trabalhando para estar de pé hoje”. Logo em seguida, o rapper explica que não se trata apenas de construção, ou seja, de tijolo e cimento, mas também da estilização trabalhada por Tebas, o “escravo que se revelou o primeiro arquiteto paulista”, como consta em um documento que é apresentado em uma das cenas. 

As músicas do AmarElo e seus significados são colocados ao longo do filme de maneira que se relacionam com a história que Emicida narra. Ele também aborda a Semana de Arte Moderna e seu grande nome Mário de Andrade, menciona Machado de Assis, conta um pouco da história do samba e cita Pixinguinha, os Batutas, Ismael Silva, Bide, Mestre Marçal, e muitos outros. O documentário também é uma homenagem a Wilson das Neves, baterista que foi inspiração para Emicida e é tantas vezes mencionado pelo cantor para contar histórias. 

O álbum conta com participação de Fabiana Cozza, Pastor Henrique Vieira, Pastoras do Rosário, Mc Tha, Marcos Valle, Thiago Ventura, Zeca Pagodinho, Tokyo Ska Paradise Orchestra, Drik Barbosa, Larissa Luz, Fernanda Montenegro, Dona Onete, Jé Santiago, Papillon, Majur, Pabllo Vittar e Ibeyi. Ativistas do Movimento Negro Unificado (MNU) estiveram na platéia e foram homenageados. A obra, tanto musical quanto cinematográfica, é extremamente rica e de uma força que cumpre o objetivo de levar todo o seu significado — não somente dentro das fronteiras nacionais, mas também internacionais, já que a Netflix possibilita que o filme esteja disponível em vários outros países. “AmarElo: É tudo pra ontem” é impecável em cada detalhe. Fica a indicação para se sentir deslumbrado e cheio de novos (ou reforçados) aprendizados e conhecimentos sobre uma parte mais do que relevante da história brasileira, além de conhecer músicas que levam a incansáveis experiências espaciais e trazem um sentimento de gratidão por estar ouvindo e conhecendo tudo aquilo. 

Imagem: Reprodução/Netflix

Publicado por Maria Fernanda Marinho Vitório


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