Por Rafael de Freitas Santos

Brasileiros têm a fama de não gostarem de filmes nacionais e supervalorizarem produções cinematográficas internacionais, o que o dramaturgo e escritor brasileiro Nelson Rodrigues chama de “complexo de vira lata”.  Entretanto, é impossível assistir a esse longa e não comparar com a situação que negros, pobres e periféricos vivem no seu dia a dia no Brasil e esclarecer qual o fundamento de se retratar situações semelhantes ao que ocorre nesta produção.

“M8 – Quando a morte socorre a vida” é um longa que está disponível na plataforma Netflix.  Da categoria Drama, possui um excelente elenco, marcado pela presença de pessoas negras e periféricas, e tenta retratar a vida de Maurício (interpretado pelo ator Juan Paiva) após ingressar na Faculdade de Medicina de uma renomada Universidade Federal no Rio de Janeiro. 

O enredo se dá, na maior parte do tempo, dentro do laboratório de anatomia da Universidade. Rodeado de colegas de sala brancos, Maurício se questiona o porquê de só haver cadáveres negros para o estudo da anatomia. O protagonista começa a ter alucinações e sonhos com o objeto de seu estudo – M8.

A narrativa se desenvolve com a presença de um protesto de mães negras que não sabem o paradeiro de seus filhos. Maurício se preocupa e tende a pensar que alguns daqueles corpos do laboratório possam ser dos filhos desaparecidos daquelas mulheres. Enquanto isso, se envolve com Suzana (interpretada pela atriz Giulia Gayoso), uma amiga branca e com Domingos (interpretado pelo ator Bruno Peixoto), um amigo gay, e tenta desvendar a origem do M8 (corpo do laboratório – interpretado pelo ator Raphael Logam), enquanto sofre preconceito por ser um estudante de medicina negro.

Sua mãe, Cida (interpretada pela atriz Mariana Nunes), tenta de todas as formas ajudar o filho que está cogitando desistir da faculdade. Maurício e, principalmente Cida, buscam forças espirituais no terreiro que frequentam, sendo que muitas vezes, a presença de M8 incomoda o protagonista, que se sente instigado a continuar a procura pela real identidade de M8.

Mariana Nunes e Juan Paiva em cena do filme “M8 – Quando a morte socorre a vida” — Foto: Divulgação/Vantoen Pereira JR

O longa retrata muito bem a questão do preconceito racial e do racismo. Nessa sentido, o professor Silvio Almeida ensina que o racismo “é uma forma sistemática de discriminação que tem a raça como fundamento, e que se manifesta por meio de práticas conscientes ou inconscientes que cuminam em desvantagens ou privilégios para indivíduos” (2018, p. 25). 

Com um roteiro e elenco bem estruturado, a produção expõe temas atuais de extrema relevância, assim como se coloca como um importante meio para se discutir pautas raciais e seus desdobramentos. Dirigido pelo cineasta negro Jeferson De, a produção se sustenta como um discurso infalível de que o pobre, negro e periférico está chegando ao universo acadêmico e que o preconceito racial e o racismo não pode ter voz, e o que deve predominar no seio da sociedade é o respeito com o próximo.

Referências bibliográficas

ALMEIDA, Silvio. O que é racismo estrutural? – Belo Horizonte: Letramento, 2018.

MATOS, Thaís. Em “M8 – Quando a morte socorre a vida”, Jeferson De mostra racismo escancarado: “fala sobre maioria dos brasileiros”. G1, 2020. Disponível em: <https://glo.bo/3uFCvyR&gt;. Acesso em 10 abr 2021.

Publicado por Rafael de Freitas Santos


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