Por Enricco Gabriel

Estado Novo, agosto de 1942. Ainda estrangulada pelo regime fascista de Getúlio Vargas, a república brasileira sofreria outra série de brutais ataques: entre os dias 15 e 19 daquele mês, mais de seiscentas vidas foram ceifadas pelos torpedos do submarino alemão U-507, capitaneado por Harro Schacht, na costa do nordeste. 

Ora um pêndulo que transitava com neutralidade entre nações aliadas e eixistas, tornara-se o Brasil inimigo mortal destas últimas, com quem simpatizava ideologicamente, após sua aquiescência, em julho de 1940, do que fora deliberado na Conferência de Havana — e que, atualmente, está consagrado, com leves alterações, no art. 28 da Carta da Organização dos Estados Americanos: “Todo atentado de Estado não-americano contra a integridade ou a inviolabilidade do território, contra a soberania ou a independência política de um Estado americano, será considerado ato de agressão contra os Estados que firmam esta declaração”. 

Pois bem. Em dezembro de 1941, a base naval norte-americana de Pearl Harbor foi atacada por bombardeiros japoneses. Honrando sua palavra, o Brasil rompeu, pouco mais de um mês depois, as relações com o Eixo, composto por Alemanha, Itália e Japão. Não bastasse isto, tornava-se cristalina a crescente influência estadunidense no país, política, econômica e culturalmente. As investidas nazistas contra embarcações tupiniquins, que começaram em fevereiro de 1942 e que culminaram nos atentados de agosto do mesmo ano, então, serviram de retaliação à sinalização brasileira em favor dos Aliados.

Tão logo pôde a opinião pública se recuperar minimamente do estado de choque imposto pela covardia alemã, deu-se início ao clamor por respostas — nacional e internacionalmente. A pressão norte-americana, simultânea ao forte apelo popular ilustrado pelas numerosas manifestações que lotavam as ruas e pelas uníssonas manchetes que estampavam os jornais, surtiu efeito. Em 22 de agosto de 1942, o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial.

Com o “estado de beligerância” declarado à Alemanha nazista e à Itália fascista, era de vital importância promover treinamentos aos combatentes brasileiros. A visita do então presidente dos Estados Unidos, Franklin D. Roosevelt, à base de Natal, no Rio Grande do Norte, foi a deixa para que Vargas propusesse o ingresso do Brasil na linha de frente do conflito global. 

A partir da anuência do mandachuva americano, criou-se a Força Expedicionária Brasileira (FEB), grupo militar aeroterrestre composto por pouco mais de vinte e cinco mil soldados, inclusive mulheres. A missão dos expedicionários definitivamente não era simples: reclamar, ao lado dos Aliados, o território italiano dominado pelas forças nazifascistas de Adolf Hitler e de Benito Mussolini.

A ideia inicial contemplava a formação de três divisões de infantaria pela FEB, com um total de setenta e cinco mil combatentes a serem enviados à Europa. Foi formada a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE), que se preparava da forma que era possível, haja vista o atraso na entrega de materiais de treinamento por parte dos Estados Unidos. Essa demora, aliada à urgência do envio das tropas à Itália, impossibilitou a formação das outras divisões e limitou o contingente a um terço do esperado. 

Ao final de 1943, desembarcou no teatro de operações, na Itália, uma comissão do Brasil. Dentre seus tripulantes, estava o então general João Baptista Mascarenhas de Morais, comandante da 1ª DIE da FEB e, posteriormente, o último marechal brasileiro. Por conta dos atrasos e da deficiência nos treinamentos, o primeiro escalão da Força Expedicionária Brasileira chegou às terras italianas apenas em 16 de julho de 1944. 

Reprodução: Arquivo Nacional

O período de quase dois anos entre a declaração de guerra e o desembarque das tropas brasileiras na Itália foi ridicularizado pela população do Brasil e pela mídia nacional. Dizia-se, popularmente, que era “mais fácil uma cobra fumar” do que os brasileiros irem à luta. Essa galhofa foi a inspiração para o símbolo da FEB, uma cobra fumando cachimbo, que serviu como provocação dos expedicionários aos críticos.

Já na Europa, a 1ª DIE foi alçada ao comando do exército americano, que, após esforços do comando da FEB, finalmente distribuiu todo o material de treinamento aos brasileiros. A grande missão dos soldados do Brasil era ultrapassar a quase intransponível Linha Gótica, sistema defensivo alemão de mais de 320 km de extensão montado na cordilheira dos Apeninos, no norte da Itália, e que protegia a Bolonha, cidade que, à época, representava o coração eixista.

Provou-se forte obstáculo, para os Aliados, o rigoroso inverno da região — a dificuldade foi especialmente alta para os expedicionários, porque eles não estavam acostumados a, e tampouco preparados para, batalhar em áreas montanhosas ou em ambientes que pudessem chegar a temperaturas de até –18 °C. Mesmo frente a tantas adversidades, a bravura dos soldados brasileiros e o brilhantismo de seus comandantes os fizeram conquistar diversas localizações nevrálgicas do Eixo: Camaiore, Monte Prano, La Serra, Castelnuovo, Soprassasso, Montese, Zocca, Collechio-Fornovo, Morro della Torraccia e, é claro, Monte Castello.

A lendária Batalha de Monte Castello foi a maior e mais importante vitória nacional na Segunda Guerra Mundial. Em cerca de três meses, seis ataques brasileiros às tropas alemãs foram efetuados. A grande vantagem dos nazistas sobre os pracinhas, principalmente no que tange à visibilidade da região e aos equipamentos de proteção contra o frio intenso, inviabilizou as quatro investidas iniciais. Em 21 de fevereiro de 1945, a FEB enfim derrotou as forças alemãs, ocupou o cume da montanha e prestou grande assistência no encaminhamento do conflito global a seu tão esperado fim.

Ao final da campanha, foram mortos cerca de quatrocentos e cinquenta homens do Exército Brasileiro, além de cinco pilotos da Força Aérea Brasileira. Por outro lado, os febistas aprisionaram mais de vinte mil soldados do Eixo e apreenderam oitenta canhões, mil e quinhentas viaturas e quatro mil cavalos inimigos. Os pracinhas da Força Expedicionária Brasileira foram gloriosos. Não fossem eles, o desfecho da Segunda Guerra Mundial poderia ser outro. 

Na Itália, país inimigo do Brasil no embate, é pujante o respeito pelos veteranos brasileiros — provas disso são os sete monumentos erigidos em seus nomes no território italiano. Além disso, os heróis são homenageados até em canções, como em “Smoking Snakes”, da banda de heavy metal sueca Sabaton.

No Brasil, a reverência é mais tímida e vem nas formas, por exemplo, do Mausoléu da Força Expedicionária Brasileira, no cemitério da Vila Alpina, em São Paulo, e do Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no parque Eduardo Gomes, no Rio de Janeiro. Lamentavelmente, porém, a admiração aos pracinhas por parte de seus próprios conterrâneos nunca seguiu o padrão internacional.

No deprimente afã de ostracizar ícones e de vangloriar fraudes, desvio moral endêmico do Brasil, parte da intelectualidade nacional pavimentou a via pela qual desfilaram militares opositores da FEB que, como pavões sedentos por atenção, invejavam os merecidos holofotes dados aos pracinhas por seus virtuosos feitos em favor da humanidade. Assim, muito por causa da vigarice de uma parcela dos acadêmicos e de alguns de seus mais influentes pares, os expedicionários foram varridos do imaginário popular brasileiro.

Numa sociedade voluntariamente subjugada pelo reino da mentira, falsários colhem louros aos quais não fazem jus e mártires são desprezados. Em tempos de pretensos antifascistas, vilipendiados aqueles que realmente sangraram para combater o nazifascismo. Cabe aos bons, pois, o resgate da memória dos esquecidos. As invencionices nefastas que exaltam as farsas em detrimento da realidade pretendem, entre outras coisas, editar a história e confundir os parâmetros, possibilitando a manipulação do que se considera bom ou mau. 

É dito que “torna-se verdade a mentira contada mil vezes”, enfim. Esta frase, frequentemente atribuída ao execrável Joseph Goebbels, não passa de mais uma enganação da propaganda nazista. A mentira jamais será a verdade, independentemente de quantas vezes for repetida. No máximo, a ela é conferido um verniz de verdade, cuja remoção revela o que se pretendia desvirtuar. Faz-se imprescindível a vigorosa tentativa de restauração da verdade, mesmo que em vão.

Ecoando Alexander Soljenítsin, afinal: “Que a mentira venha ao mundo e que ela até triunfe — mas não por meio de nós”.

Referências:

  1. Estudos mostram importância da participação de tropas brasileiras na Segunda Guerra”. Portal Forças Terrestres. Acesso em 13 de abril de 2021.
  2. FEB derrotou forças nazistas, fez samba e ganhou prestígio após Batalha de Monte Castello (FOTOS)”. Sputnik Brasil. Acesso em 13 de abril de 2021.
  3. A importância do Brasil na Segunda Guerra Mundial e a influência externa na formação da FEB”. BARBOSA, Wesley Santana. Acesso 13 de abril de 2021.
  4. 1944: O Brasil vai à guerra com a FEB”. Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC/FGV). Acesso em 13 de abril de 2021.
  5. Força Expedicionária Brasileira (FEB)”. Brasil Escola. Acesso em 14 de abril de 2021.
  6. Força Expedicionária Brasileira”. InfoEscola. Acesso em 14 de abril de 2021.
  7. A importância das batalhas da Força Expedicionária Brasileira”. OLIVEIRA LIMA, Cipriano Antônio. REIS, Nelson Serrão. JUNQUEIRA DE SOUSA, André Ricardo. DOS SANTOS, Mário Justino Nascimento. BORGES, Luciano de Souza. DOS SANTOS OLIVEIRA, Francisco das Chagas Alves. Acesso em 14 de abril de 2021.
  8. Como um oficial nazista jogou o Brasil na Segunda Guerra Mundial”. Superinteressante. Acesso em 14 de abril de 2021.
  9.  “Reuniões de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores”. Organização dos Estados Americanos. Acesso em 14 de abril de 2021.
  10.  “Carta da Organização dos Estados Americanos (A-41)”. Organização dos Estados Americanos. Acesso em 14 de abril de 2021.
  11. Operação Brasil – U-507, o Lobo Solitário ataca”. DefesaNet. Acesso em 15 de abril de 2021.
  12.  “Pearl Harbor no Brasil”. Flash News. Acesso em 15 de abril de 2021.
  13. 1942: Brasil declarava guerra à Alemanha”. DW. Acesso em 15 de abril de 2021.
  14. Brasil na Segunda Guerra Mundial”. Portal História do Mundo. Acesso em 15 de abril de 2021.
  15. FEB conquista o Monte Castelo”. Memorial da Democracia. Acesso em 15 de abril de 2021.
  16. Decreto nº 10.358, de 31 de agosto de 1942”. Site do Planalto.
  17. Cerimônia na Itália celebra 76 anos da vitória brasileira em Monte Castelo”. Portal BIDS. Acesso em 15 de abril de 2021.
  18. Notable Quotations”. The Aleksandr Solzhenitsyn Center. Acesso em 15 de abril de 2021.

Imagens:

Arquivo Nacional.

Antônio Ernesto Viana Soares.

Publicado por Enricco Gabriel


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