Por Julia Monteiro Nalles

Ultimamente, muito se fala em empreender, muitos buscam o chamado “espírito empreendedor” e não são poucos os que dizem ter a receita para um empreendedorismo de sucesso. Porém, pouco se fala sobre quem tem uma possibilidade real de empreender e investir em uma ideia. Aliás, também são raras as menções à possibilidade dessas novas ideias de fato trazerem uma forma de inovação.

Sobre isso, aponto ao texto de Marcos Coronato e Felipe Pontes, com Júlia Korte, “Pedra Lascada ou IPhone”, de 2013. Nele, os autores comentam que as invenções oriundas dos séculos passados impactaram de forma muito mais profunda a sociedade do que as desse século, claramente defendendo a ideia de que a criatividade está em crise.

Entretanto, o motivo da falta de uma inovação real pode não ser uma seca criativa. Talvez o principal motivo para não termos mais novidades revolucionárias seja o fato de que tornou-se fácil nos acomodarmos. Chegamos a um ponto no qual aquilo que temos parece suficiente, de maneira que as novidades buscam – muitas vezes – atingir objetivos que, apesar de convenientes, são um tanto quanto supérfluos. Temos, agora, tecnologia para: adquirirmos novos itens sem sairmos de casa, usufruirmos do entretenimento que quisermos no momento que desejamos, pegar um táxi sem o desgaste de esperarmos um passar, saber qual é o estilo de vida de alguém que chamou nossa atenção, conhecermos pessoas novas sem de fato termos que encontrar com elas, entre outras inúmeras possibilidades úteis, mas não necessárias.

É aí que entra o outro fator: quem de fato tem o poder de empreender e inovar? Se engana quem pensa que isso não é um privilégio. A desigualdade social brasileira é gritante e grande parcela da população se encontra nas classes mais baixas. Como podemos pensar que todos temos o mesmo potencial de empreender, se metade dos brasileiros não tem nem ao menos acesso a saneamento básico? Dessa forma, quem tem o tempo e a possibilidade de investimento necessários para empreender não é a pessoa que de fato precisa de uma solução que melhoraria consideravelmente sua qualidade de vida.

Nesse sentido, pode-se argumentar que, em tese, aqueles que têm a possibilidade de empreender podem focar nos problemas da parcela mais pobre da população. Sim, de fato podem, tanto que existe o chamado empreendedorismo social, mas não deveríamos ter que contar com isso. Afinal, contar com a boa vontade alheia para melhorar desigualdades até hoje não pareceu uma solução muito efetiva.

Há quem argumente que é muito mais fácil inovar de maneira superficial do que de uma forma que mude problemas estruturais e – por isso – é natural que a maior parte das ideias surjam de questões mais simples. Todavia, a solução para os problemas mais sérios enfrentados mundialmente estão muitas vezes mais claras do que se imagina. Tomemos como exemplo a fome. Já foi constatado que nós produzimos mais alimentos do que o necessário para que a população mundial tenha o que comer, mas ainda assim a fome é uma realidade. Desse modo, é perceptível que esse problema está longe de ser sem solução. Inclusive, a solução, que seria uma melhor distribuição de recursos, parece só não ser colocada em prática por uma falta de interesse daqueles que teriam o poder para fazê-lo.

Mas realmente, para se resolver um problema como a fome – mesmo se mudarmos da escala global para a nacional – é necessário muito mais do que um espírito empreendedor. Com isso, entra um fator talvez essencial para que as inovações deixem de alterar a sociedade de forma superficial: a participação do Estado. Afinal, para resolver questões como essa o ideal seria colocar em prática a ideia de uma “tríplice hélice”, isto é uma aliança entre Estado, empresas e universidades, trazida inclusive como um dos pilares da Lei de Inovação brasileira. Desse modo, seria possível unir: aqueles com conhecimento e acesso à informação suficientes para pensar em soluções práticas e inovadoras; o grande interessado, que é o Estado, visto que é função dele garantir uma condição de vida digna para seus cidadãos; e as empresas que detém aquilo que precisa ser melhor distribuído.

Portanto, pode-se dizer que o que falta para que haja uma inovação grande o suficiente para abalar as estruturas da sociedade contemporânea é um foco social por parte dos que buscam empreender; é um objetivo maior do que deixar a vida daqueles que já vivem no conforto mais fácil. Talvez o problema não seja falta de criatividade, mas sim a falta de atenção às questões realmente importantes. Além disso, poderia trazer bons frutos se a participação do Estado no empreendedorismo não fosse visto como algo negativo.

Fontes

Mundo produz comida suficiente, mas fome ainda é uma realidade

Metade dos brasileiros não têm acesso a saneamento básico

Pedra lascada ou IPhone

Publicado por Julia Monteiro Nalles


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