Por Leonardo Mariz

Olá, meu nome é “Manmesob Kciwdahc”, eu sou um cidadão marciano e tenho várias informações para vocês, terráqueos. Neste texto trago revelação bombástica: Marte foi colonizado há 53 anos, por seres humanos. É verdade esse bilhete.

Em meio a todo o cenário de conflitos entre as grandes nações e a procura por novas descobertas, tecnologias, expansão ou por qualquer outro motivo, grupos saíram em busca de alcançar o sonho de deixar a terra em que viviam para pisar em outros terrenos.

Dessa forma, na constante busca por essas coisas ou por coisa nenhuma, o ser humano acabou chegando em Marte. Alguns dizem que foi por acaso, porém, é difícil acreditar nessa tese: – como pode alguém, objetivando a descoberta de novos caminhos, colonizar um planeta “perdido”? Contudo, o objetivo desta mensagem não é discutir esse assunto, mas revelar a informação que muitos desconhecem, ou seja, que a colonização aconteceu. Serei breve e direto.

Há 53 anos, um grupo de seres humanos, mais conhecido como “euporeu” chegou em Marte e se deparou com outros seres humanos chamados de “sanegidni” – alguns tentam explicar, mas ninguém tem certeza sobre como chegaram lá -, indivíduos amáveis, conhecedores de muitas técnicas de sobrevivência e naturais daquele lugar, que os receberam de forma amistosa, haja vista que ao longo da viagem o combustível da nave e os suprimentos acabaram, o que deixou todos em condições dramáticas. Contudo, após o auxílio de muitos “sanegidni”, as pessoas que embarcaram na jornada conseguiram se alimentar com comidas nutritivas, além de reabastecer a nave para o retorno à Terra.

Ao conhecer Marte e tudo o que aqui há de bom, os “euporeu” decidiram levar as benesses para a Terra e, por isso, optaram por escravizar os “sanegidni”, impondo a eles a tarefa de extrair os recursos naturais ali presentes. Entretanto,  essas pessoas eram naturais dali, o que tornava a escravização difícil, haja vista que fugiam com facilidade.

Desse modo, os “euporeu”, não saciados em sua ganância, decidiram levar um outro grupo de seres humanos para trabalhar na extração dos recursos . Assim, retornaram a Marte, 48 anos atrás, com muitas pessoas do grupo “sonacirfa”, levadas compulsoriamente, como escravas, ao território marciano, lugar que, como todos sabem, é tão longe ao ponto de ser impossível que um ser humano consiga retornar sem o domínio da tecnologia usada pelos “euporeu”.

Os anos foram passando com os “sonacirfa” sofrendo diversas violências em Marte, como: surras, torturas, estupros, destruição dos vínculos afetivos, miséria etc. Todavia, os “sonacirfa” nunca deixaram de se articular e sempre mantiveram em mente que deveriam acabar com aquela estrutura social, na qual uns trabalhavam e eram tratados como coisas e os outros, preguiçosos e vadios, eram tratados como reis.

Nesse sentido, após muitas lutas para se libertarem da posição de escravos, os “sonacirfa”, em território marciano, conseguiram ser considerados pessoas através de uma lei que vedava a escravização de seres humanos, mas isso ocorreu somente 13 anos atrás, momento histórico em que os filhos dos “euporeu” que colonizaram Marte eram os donos das terras e de todos os bens em território marciano, e o filhos dos primeiros “sonacirfa” estavam ao relento, sem bens e, por consequência, sem possibilidade de sobrevivência, mas com a única opção de vender a sua força de trabalho aos filhos dos primeiros escravistas.

Por isso, coube aos “sonacirfa” aceitar as condições daquele momento, contudo, sem deixar de lutar pelo fim das desigualdades entre os dois grupos. Os anos sob o regime que veda o escravismo se passaram, mas as violências continuaram a acontecer e, além disso, estatísticas revelam o fato de que os “sonacirfa” vencem os rankings negativos, por exemplo: pessoas que mais morrem e pessoas pobres. Enquanto os “euporeu” vencem os rankings positivos, por exemplo: pessoas mais ricas e pessoas com acesso ao ensino de maior qualidade.

Tendo em vista esta realidade, no último ano, em Marte, após muita reivindicação e luta dos “sonacirfa”, algumas instituições estatais e privadas passaram a estabelecer cotas para a assunção de determinados cargos, com o intuito de acabar com as desigualdades entre os descendentes dos povos “euporeu” e “sonacirfa”, até mesmo porque isso gera um contexto no qual há preconceito, de modo que as pessoas presumem que se alguém é descendente de “sonacirfa”, contribui para o estereótipo negativo; e, se alguém é descendente de “euporeu”, faz parte das pessoas do topo dos rankings positivos. Contudo, muitos do grupo dos “euporeu” (poucos do grupo dos “sonacirfa”), alguns até bem intencionados, mas sem conhecimento algum da recente história de Marte, dizem que isso é querer inverter a opressão de um grupo, através da opressão do outro, por mais que o contrário seja evidenciado pelas estatísticas.

Todavia, mesmo com todos os impasses, há algumas pessoas que têm consciência da história recente de Marte, além de conseguirem entender a profundidade dos problemas revelados pelas estatísticas e de captar as subjetividades presentes no ar marciano, o que culmina na atuação no sentido de reduzir a desigualdade entre descendentes de “euporeu” e “sonacirfa”, e no enfrentamento da resistência por parte dos desinformados.

Por isso, segundos atrás, neste mesmo minuto, a Enizagam Aziul, grande corporação marciana, disse que somente contratará filhos dos “sonacirfa” em seu próximo processo seletivo, mas, uma instituição pública, ou seja, que pertence a todos os marcianos, representada por um descendente dos “euporeu”, decidiu que isso é errado e pediu que a sociedade de Marte aplique punição à corporação.

Como se trata de fato que ocorreu há pouco tempo, ainda não obtive a resposta acerca do que aconteceu, mas assim que a informação chegar, eu a passarei a vocês.

Portanto, decidi avisá-los de que o território terrestre em que vocês vivem foi construído com recursos derivados de trabalho escravo, e que há uma maldição nisso, que torna a sociedade erguida sobre essas bases desiguais. Além disso, precisamos de ajuda! Os terráqueos têm que se posicionar em favor do fim dessa maldição, que cria desigualdade entre nós, filhos dos “sonacirfa”, e os filhos dos “euporeu”, haja vista que esta situação, na qual um grupo domina as estatísticas benéficas e o outro o oposto, é muito nociva à construção de uma civilização avançada.

Marte pede ajuda! A vírgula da história, somente é entendida quando movida para a esquerda e os nomes, bem como a história, devem ser lidos de trás para a frente.

Assinado: informante marciano.

Publicado por Leonardo Mariz.


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