Por Bruno Serafim dos Santos

Enquanto o mundo presencia diferentes estágios diante da pandemia do COVID-19, milhares de escolas e universidades ao redor do globo permanecem fechadas e o resultado é um só: a ascensão do ensino virtual, realizado de forma remota e por meio de plataformas digitais.

A mudança, que foi um desafio enorme para os professores e alunos, trouxe novos debates acerca do aprendizado dos estudantes e as estratégias de ensino participativo nesse ambiente. Para falar desse tema de elevada importância, hoje , o Jornal Prédio 3 entrevista a professora Ana Cláudia Ruy Cardia, que acaba de completar 5 anos como professora no Mackenzie, em que atualmente ministra as classes de Direito Internacional Privado.

Bruno Serafim: Boa tarde, professora. Obrigado por aceitar fazer essa entrevista e falar sobre um tema tão importante. Essa transferência das aulas para o ambiente virtual não agradou a todos os alunos, estar em casa em meio a tantas distrações e inseridos em um contexto tão caótico como o que nos encontramos pode dificultar a concentração e a adaptação nesse formato de aula.

Tem sido muito difícil para vocês, professores do curso de direito, se adaptarem ao meio virtual? A senhora tem anos de carreira, é uma mudança muito grande? Como a senhora tem percebido isso?

Ana Cláudia: A adaptação das aulas para o ambiente virtual foi um pouco difícil, principalmente, no início, que a gente não sabia, exatamente, como o curso seria estruturado, acho que foi uma mudança radical para todas e todos, professores e alunos, então, realmente, foi uma transição um pouco caótica. Agora, no começo do segundo semestre, eu acredito que nós já estejamos um pouco mais adaptados a essa realidade, então, nesse momento, não tem sido tão difícil dar as aulas. O que acho que mais chama minha atenção nessa transição para o ambiente virtual é a falta da comunicação não verbal com os alunos e com as alunas, me explico: muitas vezes os estudantes não ligam as câmeras, o que é natural, a gente entende os eventuais problemas de conexão e tudo mais, mas com isso a gente não consegue, então, ver nos olhos das alunas e dos alunos, se eles e elas estão compreendendo a matéria, se está havendo alguma dificuldade naquilo que a gente está falando, essa comunicação não verbal para mim é bastante importante, então, no meu ponto de vista, em relação à essa transição, é onde eu mais tenho sentido diferença.

Bruno Serafim: Como está sendo ficar longe dos seus alunos nesse período? A senhora sente muita falta do contato presencial com os alunos e o ambiente físico da sala de aula?

Ana Cláudia: Sem dúvida alguma essa comunicação não verbal perpassa também a ausência física, então, sim, tem sido muito difícil ficar longe dos alunos e das alunas, a gente sente muita falta da energia deles em sala de aula, é realmente muito diferente lecionar à distância em relação a lecionar presencialmente, essa troca que nós temos no ensino presencial faz muita falta no EAD, então, eu tenho sentido muita saudade dos alunos e alunas nesse período, tem sido muito difícil, mas as demonstrações de carinho deles tem sido recompensadoras também.

Bruno Serafim: A senhora acredita que há diferenças em dar aulas virtualmente para as classes de direito em relação a outros cursos?

Ana Cláudia: Eu acredito que há diferenças em dar aulas virtualmente para as classes de direito em relação a outros cursos, em verdade, minha visão sobre o tema é que há cursos correlatos na área de direito que são totalmente em EAD, o que eu creio é que a dificuldade é pelo formato. O formato de aulas presenciais é muito mais customizado, no que se refere às dúvidas, dificuldades e aos interesses, também. A diferença do ensino presencial muitas vezes é esta: que você consegue fazer um curso totalmente customizado ao perfil de turmas diferentes, é o que tenho tentado inclusive fazer nesse período de EAD, justamente para que ele não fique com aquela cara de um curso totalmente EAD de verdade, porque, na verdade, o que nós estamos fazendo, hoje, é algo provisório, é um EAD, mas com cara de presencial, para tentar preservar as características do curso presencial da melhor maneira possível. 

Em relação a outros cursos, especificamente, eu acredito que tudo depende do curso, também, cursos que têm um aspecto mais prático, além do teórico, sem dúvida, têm uma metodologia de ensino diferente. No caso do direito em si, é possível trabalhar com o EAD, mas, sem dúvida alguma, o que a gente tenta fazer no Mackenzie é customizá-lo mais à realidade de cada uma das turmas.

Bruno Serafim: A senhora me disse que fez um curso de ensino participativo virtual. como esse curso impactou as suas aulas?

Ana Cláudia: Eu fiz um curso de ensino participativo virtual oferecido pelo CEPI-FGV, um grupo muito sério que trabalha o ensino, pesquisa e inovação. Eles fizeram logo no início da pandemia esse primeiro curso sobre ensino participativo virtual e ele ajudou muito nas minhas aulas para conseguir ter uma perspectiva de como atrair mais a atenção das alunas e dos alunos para os temas tratados em sala de aula, para que a aula ficasse mais dinâmica, porque não posso esquecer que nesse momento em que eu estou dando aulas on-line, eu não estou vendo os alunos e as alunas e que apesar de estarem usando o computador ou celular, não necessariamente estão vendo a aula propriamente dita, então, a ideia é que com ferramentas diferenciadas a gente consiga ter um maior engajamento das alunas e dos alunos em sala de aula, conseguir ter mais atenção para os temas tratados e conseguir transmitir esse conteúdo de uma maneira que foge desse monólogo que a gente acaba vendo na maior parte das vezes. Para mim, o conhecimento precisa ser construído, mesmo, junto dos alunos e das alunas.

Bruno Serafim: A senhora tem sido muito elogiada pelos alunos justamente pela forma que tem conduzido suas aulas, tornando-as mais dinâmicas. Poderia nos contar um pouco mais sobre as técnicas que a senhora testou de aprendizado participativo na sala de aula? O que a senhora sente que tem funcionado?

Ana Cláudia: Eu agradeço, aqui, os elogios, muito obrigada! Eu tenho pensado o seguinte, em um primeiro momento: como tornar a aula mais participativa sem perder, também, o pouco tempo de aula, afinal, no curso de direito internacional privado, eu tenho somente uma hora e quarenta minutos de aula, como conseguir construir uma aula que eu transmita o conteúdo, mas que eu também consiga o engajamento dos alunos e das alunas para conseguir transmitir esse conteúdo de uma maneira diferente com essas atividades?

Eu cheguei a usar, por exemplo, o mentimeter, para tentar obter informações das alunas e dos alunos sobre o que compreenderam sobre o direito internacional público e o que esperavam da disciplina de direito internacional privado. Nas aulas de histórico do DIPR, eu usei o kahoot, tentei fazer uma atividade que fosse competitiva entre os alunos e as alunas que leram os textos prévios, o que também é uma forma de engajá-los na leitura dos textos, que muitas vezes o pessoal não lê, mas que, talvez, esse tipo de atividade, também, engaje na leitura. Agora, para as avaliações, a gente vai trabalhar com casos concretos ou com casos fictícios baseados em casos concretos e em uma dinâmica de atribuição de diferentes papéis às alunas e aos alunos para que eles possam ver a aplicação daquele mesmo direito, mas por diferentes olhares. Então, a intenção é sempre fazer com que haja não só o engajamento dos discentes e das discentes, mas, também, buscar analisar a disciplina sempre de forma crítica e porque não, muitas vezes, de forma divertida.

Bruno Serafim: A senhora tem sentido mais dificuldade por parte dos alunos nesse período? Como está sendo para identificar as dúvidas e essas dificuldades, já que, muitas vezes, a maioria dos alunos está com a câmera e com o microfone desligados? Hahahahah

Ana Cláudia: Sobre essa pergunta, eu acho que dialoga perfeitamente com o que eu falei no começo, que essa dificuldade tem sido muito grande para conseguir identificar essa comunicação não verbal, então, sim, os microfones desligados e as câmeras desligadas muitas vezes deixam a gente sem saber se a gente está no caminho certo, se o pessoal está entendendo ou não está, se estão com dificuldades ou não estão. Eu falo que os professores e as professoras estão sofrendo de carentena, não é quarentena, é CARENTEna mesmo hahahahahah a gente está carente esperando as reações de vocês, mas, óbvio, tudo sempre com compreensão, sem exigir nada das alunas e dos alunos, porque a gente não conhece a realidade de cada um e cada uma, então sempre tendo também esse máximo respeito e, claro, comemorando quando as pessoas ligam as câmeras e dão algum sinal de vida hahaha

Bruno Serafim: O que a senhora aprendeu nesse período que vai impactar as suas aulas no futuro?

Ana Cláudia: O aprendizado nesse período mostra para a gente que uma sala de aula, mesmo se pensarmos no espaço físico e no contato físico, ela não é suficiente, a menos que você queira dar uma aula em um formato de monólogo, praticamente, então, essas metodologias mais participativas precisam, sem dúvida alguma, serem levadas para o ambiente presencial, e mais do que isso, por que não, também, no ambiente presencial, nós nos valermos de mecanismos tecnológicos e ferramentas digitais? Acho que conseguimos fazer um casamento muito maior entre os dois ambientes e tornar o ensino, que é o mais importante, mais participativo, construindo a disciplina de uma forma melhor no final das contas para todo mundo.

Bruno Serafim: A senhora tem estado bastante ativa, escrevendo artigos, em meio a aulas, congressos, palestras e muitas outras atividades. poderia nos contar como o isolamento afetou a sua rotina e a realização dessas atividades que antes a senhora realizava presencialmente?

Ana Cláudia: Sim, tenho estado bastante ativa. Em resposta à sua pergunta, eu confesso que a pandemia parece que duplicou ou quase triplicou a quantidade de trabalho, justamente por conta do meio virtual permitir mais diálogos entre professores e professoras do mundo todo, então a exposição também acaba sendo maior, a intenção de transferir esses congressos, esses eventos e esses projetos para o ambiente virtual, isso tudo trouxe benefícios no sentido de que hoje a gente pode estar em lugares que, por vezes, não conseguiríamos se estivéssemos só aqui no Brasil, então isso tem trazido benefícios, mas, também, sem dúvida alguma, tem aumentado a carga de trabalho consideravelmente, mas no final das contas a ideia é que a rotina de um professor, de uma professora, que tenha um envolvimento com o ensino, com a pesquisa e com a docência é sempre muito corrida e ela demanda sempre uma organização e uma disciplina. Então, apesar do volume de trabalho ter aumentado, com a organização a gente consegue, também, dar conta, o problema é que, hoje, muitas vezes, no ambiente virtual, percebemos que é possível estar em mais de um lugar ao mesmo tempo e isso, que eu vejo em relação aos alunos e às alunas também, demanda, também, um foco maior para que a gente não se perca nessa miríade de oportunidades que o ambiente digital nos traz.

Bruno Serafim: O seu novo livro “Transterritorialidade – Uma Teoria de Responsabilização de Empresa por Violações aos Direitos Humanos” já foi disponibilizado para venda, poderia nos contar um pouco mais sobre ele? Poderia nos contar a forma como a senhora enxerga a importância desse tema no nosso atual cenário político, jurídico e social?

Ana Cláudia: Meu livro está disponível no site da editora Lumen Juris, é uma alegria, para mim, já poder falar um pouco sobre ele, obrigado por perguntar. O livro é fruto da minha tese de doutorado, defendido na PUC de São Paulo em 2018 e que sofreu as devidas atualizações, agora para publicação em 2020. Nesse livro, eu tento criar uma teoria de responsabilização de empresas por violações aos direitos humanos, que, muitas vezes, quando estudamos direitos humanos e empresas o tema é negligenciado em alguns espaços, mas a gente precisa falar sobre esse pilar de reparação e de remédios no direito internacional e nos direitos humanos e empresas. 

Nesse caso, eu crio uma teoria a partir de teorias já existentes, principalmente dos autores Gunther Teubner, Marcelo Neves e Marcelo Torelli e, a partir das teorias desses autores, eu consigo criar um mecanismo de responsabilização de empresas por violações de direitos humanos que dialoga muito com o direito internacional privado, não só na busca por uma jurisdição competente para o julgamento dessas demandas, mas, também, em uma busca cada vez mais justa da lei material aplicável e pensando, sempre, na centralidade do sofrimento das vítimas dessas violações de direitos humanos por empresas. Essa é a ideia central do livro e eu vou, obviamente, ficar muito feliz se vocês puderem ler e fazer seus comentários, trazer seus feedbacks. conhecimento bom é conhecimento compartilhado e construído conjuntamente, então, para mim, vai ser uma alegria ter as respostas e feedbacks de vocês!

Bruno Serafim: Como foi o processo de escrita ainda durante a pandemia, isso afetou o processo criativo e técnico por detrás da construção da obra?

Ana Cláudia: Como eu disse, o processo de escrita se deu durante os anos de 2015 a 2018, originado a partir da minha tese de doutorado. Agora, no ano de 2020, o que eu fiz foi uma releitura e uma atualização do material e, sim, a pandemia afetou esse processo em certa medida porque foi logo no início em que comecei a trabalhar a atualização, mas já era um trabalho que estava ali na fila para ser publicado e, no começo da pandemia, como a gente estava fazendo o home office, a gente ainda está, mas, no começo da pandemia, quando a gente tinha aquele isolamento mais restrito, mesmo, foi quando eu consegui até ter mais tempo para sentar e ler o trabalho com calma, trazer os apontamentos que foram também mencionados na minha banca de doutorado e fazer as alterações necessárias. Eu confesso que a pandemia, ao mesmo que pode nos trazer alguns bloqueios criativos, para esse caso em especial, eu acho que foi um momento também de conseguir estar mais presente para focar na atualização da obra.

Bruno Serafim: Para finalizar, em uma palavra, como a senhora definiria, profissionalmente e academicamente, o período de isolamento social?

Ana Cláudia: Eu diria “redefinição”, porque o fato de ficarmos em casa também nos fez olhar muito para dentro de nós mesmos, ver o que estamos esperando com nosso trabalho, como a gente está realizando nosso trabalho, qual a melhor forma de conseguir um alcance efetivo e de qualidade, então eu acho que é um período de redefinição, eu diria isso porque ninguém vai sair igual desse período, a gente vai sair diferente e redefinir essas metas, essa trajetória, o que é fundamental. Então, para mim, uma palavra: redefinição.

O livro “Transterritorialidade – Uma Teoria de Responsabilização de Empresa por Violações aos Direitos Humanos”, da Professora Ana Cláudia, está disponível para venda por meio do site da editora Lumen Juris, editora com propósito de publicar obras de alta qualidade de assuntos jurídicos. Fica a recomendação!

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Publicado por Leonardo Mariz


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