Por Larissa de Matos Vinhado

  1. Resumo

O novo filme da Netflix, Mignonnes (Cuties), gerou muita repercussão nos últimos dias por conta das imagens de divulgação do serviço de Streaming que mostravam meninas na faixa dos 11 anos em posições e roupas sexualizadas, sendo o filme boicotado antes mesmo de seu lançamento. Entretanto, a pergunta que me vem à mente é: em que momento e como se inicia essa banalização da adultização infantil, ao ponto de inserirem fotos como essas em uma grande empresa de streaming de vídeos como a Netflix?

2. Como surge o processo de adultização infantil

A sociedade contemporânea foi pautada em padrões de beleza preestabelecidos desde muito cedo, que engloba a presença de mulheres seminuas, constantemente, seja na moda ou na internet. Consequentemente, há certa objetificação do corpo feminino, além de uma supervalorização do corpo seminu da mulher desde o período da adolescência, em que começam as mudanças. A grande problemática é que esse fator transcende a vida do adulto e adentra o mundo infantil todos os dias, indiretamente. 

É fato que com o maior consumo da tecnologia, há um crescimento exponencial na sensação de independência infantil, principalmente pela ausência dos familiares nesse ambiente. Diante desse cenário, na tentativa de se desligarem desse contexto de dependência, as crianças tendem, cada vez mais, a agirem como adultas, reproduzindo não só as atitudes dos responsáveis, bem como, conteúdos assistidos nas redes sociais, como o Youtube. 

Além disso, é de conhecimento geral que crianças são vistas como vulneráveis e inocentes, sendo assim, facilmente manipuladas e influenciadas por conteúdos midiáticos que lhe são impostos. Gerando uma problematização ainda maior no quesito da erotização infantil.

3. Relação entre a criança adultizada e o filme

A criança “adultizada”, confunde os limites que diferenciam uma fase da outra e isso acaba trazendo inúmeras consequências. Analogamente a essa linha de raciocínio, trago comigo o novo filme francês da Netflix Mignonnes (Lindinhas, em português), o longa conta a história de um grupo de meninas de 11 anos de idade que fazem parte de um coletivo de dança – mais especificamente, uma trupe de twerking, dança que faz parte da cultura negra há muito tempo, porém ganhou notória visibilidade nos últimos anos – o qual consiste em uma série de movimentos sensuais com o quadril.

Amy, protagonista do filme, tem onze anos e, encontra-se na transição da pré-adolescência para a adolescência. Um dos principais pontos a ressaltar, é o fato de que ela vive dentro de um ambiente familiar conturbado e conservador. Amy é de uma família de refugiados do Senegal e, durante o filme já está morando com os familiares num conjunto habitacional em Paris. Dentro de casa, a garota se sente perdida e decepcionada ao descobrir que seu pai irá se casar com outra mulher já que a religião permitia e, portanto, depara-se com o primeiro sinal de transição entre a fase infantil e a fase adulta que está entrando. 

Para tanto, nesse contexto, ela começa a se descobrir e ir contra às idealizações da família para com ela, fugindo, dessa forma, da realidade que a esperava no futuro, como a necessidade de encontrar um bom marido e ser uma boa serva de Deus. Entretanto, a diretora traz a questão religiosa com cautela e mostra que apesar dos rígidos costumes religiosos que permeavam a vida da pré-adolescente, não há resquícios de xenofobia na trama, como é retratada, muitas vezes, a religião muçulmana em filmes com visões eurocêntricas.

4. Análise do longa

Não consigo me esquecer da sensação de quando assisti ao filme pela primeira vez, a diretora conseguiu transparecer exatamente a sensação dessa fase de transição em que o pré-adolescente não se encaixa no mundo em que vive e se sente perdido. A sensação do perdido trazida pela diretora é tão realista que você se sente angustiado junto a personagem e se recorda de tudo que já vivenciou nessa fase infanto-juvenil. 

Há um paradoxo nítido entre a ingenuidade e a maturidade em diversas cenas, o contraste entre as brincadeiras infantis e a necessidade de cuidar da casa, o início do contato com o mundo feminino repleto de maquiagens e roupas que nos sexualizam, além da confusão mental explícita nos olhos da atriz, Fathia Youssouf, a qual interpretou a personagem Amy com êxito, realizando um trabalho impecável.

Ainda no filme, Amy enxerga em sua vizinha, livre e desobediente, Angelica, uma forma de entrar na dança e se libertar das amarras impostas pela tradição familiar. Nessa trajetória, é nítida a sexualização das meninas, ora pelas roupas e danças, ora na exposição midiática, onde há certa potencialização na sexualização. 

Nesse contexto, volto a falar do mundo infantil que fora transferido para o Youtube na nova geração e, em como esse fator pode ser prejudicial. No primeiro contato que as meninas têm com a internet ao exporem seus vídeos,  há uma repercussão assustadora, fica nítido que os vídeos com maior engajamento são os que elas se encontram mais sexualizadas, fazendo com que haja certa inclinação ao desejo de se erotizar a fim de ter sucesso, como se fosse a única escapatória para sair daquela realidade que elas vivenciavam e começar dessa forma, uma vida repleta de fama, dinheiro e sucesso.

Isso mostra, dentre outras coisas, que a objetificação da mulher é muito mais presente na sociedade do que se é falado, e mais que isso, retrata também como afeta diariamente a vida de crianças indiretamente, tendo em vista que as meninas desde cedo aprendem que para ter sucesso é necessário terem seus corpos tratados como objetos, além de ensinar  aos meninos que se uma mulher usa tal tipo de vestimenta ou tem tal tipo de comportamento, ela quer ser tocada e falada pelos outros de maneira pejorativa.

5. Cenas polêmicas e o marketing do filme 

É claro que o filme traz uma sensação enfastiante, diversas cenas me deram aversão, principalmente, no momento, em que Amy e suas amigas começam a dançar para homens, num estabelecimento, de maneira sensual.

O grande problema, gira em torno de como as gravações foram feitas, sobretudo, nas inúmeras vezes em que as câmeras focam em partes íntimas das meninas e em posições que geram repugnância. À vista disso, o que mais me incomoda é o fato de ter sido uma filmagem extremamente problemática e que instiga a pedofilia. 

Logo, a exploração de menores, acaba sendo de certa forma banalizada, tendo em vista que, no momento que uma grande corporação como a Netflix libera um filme desse cunho e usa como marketing imagens sexualizando meninas de 11 anos, traz um público à trama totalmente duvidoso, ao ponto que gera a dúvida: por que alguém ao ver fotos de meninas de 11 anos seminuas em posições sexuais explícitas se interessaria em assistir ao filme? 

Por fim, achei a temática do filme necessária, entretanto extremamente desagradável na parte do merchandising, que com o intuito de atrair mais espectadores ao filme, erotizou crianças inconsequentemente. Gerando, dessa forma, aversão por parte do público e o cancelamento da Netflix. 

É importante ressaltar que o boicote levou a empresa se redimir em suas redes sociais e ainda a trocar a imagem de marketing: 

REFERÊNCIAS:  

[1] FREITAS SILVEIRA NETTO, CarlaI; ANDRADE BREI, ViníciusII; FLORES-PEREIRA, Maria Tereza. O fim da infância? As ações de marketing e a “adultização” do consumidor infantil. Disponível em:   RAM, Rev. Adm. Mackenzie (Online) vol.11 no.5 São Paulo Oct. 2010 https://www.scielo.br/scielo.phppid=S167869712010000500007&script=sci_arttext. Acesso em: 27 de Outubro de 2020.

[2] DAWN, Clara. Adultizar Uma Criança É Uma Maneira Bem Eficiente De Destruí-la, 14 de dezembro de 2019. Disponível em: https://www.portalraizes.com/adultizar-e-capitalizar-uma-crianca-e-uma-maneira-bem-eficiente-de-destrui-la/. Acesso em: 27 de Outubro de 2020.

Publicado por Larissa de Matos Vinhado


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