Quem é Sara Winter?

Sara Fernanda Giromini, ou Sara Winter, é uma influencer conhecida por seu ativismo radical de extrema-direita, famosa por manifestações irrestritas de apoio à política bolsonarista.

Conforme declarado em seu site, Sara Winter é ex-feminista. Supostamente sua conversão ao “antifeminismo” se deu após passar pela experiência de um aborto. O trauma teria motivado a retirada do movimento, passando a militar a favor de sua extinção através de falas religiosas. Desde então, a militante prestou seu desfavor social ao escrever a obra “Sete vezes que o Feminismo me traiu” e está produzindo o “Como tirar sua filha do Feminismo: um guia para pais desesperados”.

Em termos de escolaridade, Sara Winter declara que é graduada em relações internacionais com formação especial em assessoria e marketing político, é pós-graduanda em Ciência Política, sendo analista de políticas públicas.

Contexto da exposição

Nos últimos dias, o Brasil tem acompanhado a triste história de uma menina de 10 anos que ficou grávida após ser estuprada por seu tio, abusador da criança há mais de 4 anos. Embora o aborto fosse mais do que necessário para salvar a vida da vítima, e a gravidez fosse resultante de estupro, o que garante a licitude do procedimento por ambas razões (Art. 128/CP, incisos I e II), houve comoção social pela não realização do aborto.

Contudo, com o intuito de incentivar seus seguidores a se manifestarem pela não realização do procedimento legal, Sara Winter divulgou no domingo (16/08), através de sua conta no Youtube, o nome da criança e local onde estava hospitalizada.

Felizmente o procedimento legal foi realizado nesta segunda-feira (17/08) e a vítima se encontra fora de risco.

Obviamente, além de criminosa, a atitude da militante apenas contribuiu para causar ainda mais sequelas à vítima, transformando a frente do hospital em que a menina estava hospitalizada em palco de protestos contra e a favor do procedimento. Além de expor a criança ao reconhecimento perpétuo em razão do acontecimento, sujeitando-a a grande mazela social que cerca o crime de estupro: a absurda atribuição de culpa à vítima.

Neste contexto, ressalto as palavras da coordenadora de enfermagem do hospital que tratou da criança. Embora já divulgada, omitirei a autoria da fala em nome da não identificação do hospital em questão.

Nós temos que poupar ela dessa balbúrdia que foi feita ontem na porta de um hospital. (…) É uma menina de bastante vulnerabilidade, que foi protegida da melhor forma que a gente pôde, para não ouvir as atrocidades que foram ditas do lado de fora. (Notícia Uol)

Cancelamento Social

Após a publicação do vídeo, a Justiça Estadual em questão determinou que Facebook, Twitter e Google Brasil retirassem do ar as postagens sobre a identidade da menina. No Youtube, o vídeo chegou a alcançar 66 mil visualizações antes de ser derrubado. (Notícia G1)

Na data que escrevo, 19 de agosto, as contas do Facebook, Twitter, Youtube e Instagram estão bloqueadas.

Na esfera cível, Sara Winter foi acionada pelo Ministério Público a pagar R$ 1,3 milhão a título de dano moral, em caso de condenação, o dinheiro será revertido a um Fundo de Direitos da Criança e do Adolescente.

Quanto ao Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, a atitude viola a redação do Art. 17: o direito fundamental ao respeito inclui a inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem.

Na esfera penal, as falas da militante podem gerar condenações por difamação, calúnia, e incitação ao crime.

Para a Dra. Celeste Santos, que coordena o Projeto Avarc, programa de atendimento à vítima do MP-SP parceiro da Assistência Judiciária João Mendes (AJJM), atos como o de Sara Winter, de constrangimento da vítima, têm um fator agravante.

“É um ato de censura pública à vítima, que desestimula que outros estupros sejam denunciados — estima-se que só 2% das meninas vítimas de estupro denunciem o crime”, diz Santos. Ou seja, é algo que, em última instância, beneficia criminosos como o que estuprou a menina de 10 anos. (Notícia G1)

A atitude de Sara Winter revela um arcabouço de problemas sociais…Sem dúvida alguma, manifestações contrárias a realização do aborto em uma gravidez resultante de estupro, na situação em que a vítima é uma criança com claro risco de vida, são contrárias a nossa legislação penal, bem como à recomendação médica que tomou o aborto por imprescindível.

Contudo, esses atos também são uma demonstração de que as concepções idealistas, que muitas vezes dizem defender a vida, são na verdade vazias de sentido lógico ou mesmo religioso.

Se fosse de outra forma, não veríamos tantos pedidos para a vida de uma criança de 10 anos ser colocada em risco em nome da expectativa de vida de um feto que provavelmente não se desenvolveria (óbito fetal, pesquisa MPSP; Notícia BBC). Isto porque claramente o corpo de uma criança não é preparado para conduzir uma gestação.

Dessa forma, qual sentido religioso ou “pró-vida” haveria em submeter a vítima de 10 anos aos danos físicos e psicológicos, provavelmente morte, que a continuidade dessa gravidez resultante de estupro acarretaria?

Embora óbvio, sinto-me na obrigação de dizer que o corpo da menina em questão não pertence aos tantos que pregaram aos gritos em frente ao hospital. Muito menos esses “opinadores” já vivenciaram situação similar à vítima.  

Assim, uma vez retirado o véu falsário dessas manifestações, não há justificativa “pró-vida” nenhuma, pois um feto não se confunde com uma criança viva, seja por direito ou fato.

Na realidade, as manifestações contrárias ao procedimento de aborto que ocorreram em frente ao hospital são o que são, pura alienação de rebanho alimentada por influenciadores que almejam popularidade, e sabem que a encontrarão na irracionalidade dos “protetores da família e da vida”.

E assim, a manipulação ideológica presta um desserviço social, popularizando a responsabilização da vítima de estupro, mesmo que vulnerável. Lógico que o aborto, o pertencimento do corpo feminino, e a responsabilização da vítima são discussões muito mais longas; mas que, em agosto de 2020, já foram discutidas. Todos os argumentos já foram postos à mesa, restando a implementação de políticas públicas que visem a educação e conscientização da população para que falas como essas abaixo não se proliferem…

“Você acredita que a menina é inocente? Acredita em papai noel também? 6 anos, e por quatro anos não disse nada. Claro que tava gostando. Por favor, gosta de dar então assuma as consequências” – Padre Ramiro José Perotto, em postagem no facebook (Notícia Correio Brasiliense)

“Iremos processar até o último fio de cabelo o médico que matou o bebê de nove (cinco) meses e agora irá torturar a criança de 10 anos com um parto prematuro forçado. Monstros!” – Sara Winter (Notícia Folha)

“Pior do que o estupro é o assassinato de um ser indefeso. O desgraçado assassino do juiz que tinha que estar na cadeira”- Silas Malafaia. (Notícia folha)

Bruno Boscatti

Aluno do Direito Mackenzie e Presidente da Assistência Judiciária João Mendes

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