Santo Colomba, de Jeremias Pereira

Por Léo Coutinho

Hoje no 1057 da Alameda Lorena, o Santo Colomba faz quarenta anos de vida em São Paulo. Mas no todo é mas antigo. Nasceu no Jockey Clube do Rio de Janeiro em 1913 e um dia esteve sob ameaça de mofar numa “residência de alto requinte”. Mas foi salvo por um bravo paulistano que dedicou sua vida ao refinamento do etilismo. Escreveu uma enciclopédia chamada Copos de Bar e Mesa, editada pelo Senac, que tirou prêmio de melhor livro de gastronomia na França quando lançado.

Seu nome é Edmundo de Paula Furtado, que um dia leu o anúncio de jornal nos seguintes termos: Rara e única oportunidade – Do Jockey Clube (antiga sede do Rio) para residência de alto requinte, vendo 2 belíssimos e grandes lustres de bronze e todo o conjunto do velho e tradicional bar com mais de 100 m2 de lambris e apliques em vitraux e 2 portas de vai e vem com vitraux, armários, janelas, guarda pé e corrimão em bronze, tudo de procedência inglesa. Escada caracol em ferro trabalhado e 2 raríssimas janelas tipo óculos com venezianas de vidro e grades de ferro forjado, trabalhado para compor fachada principal de residência ou estabelecimento de luxo. Para ver e tratar: Rio, fones 247-8579 (e outros).

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A referencia ao estabelecimento de luxo deflagrou a vontade no Edmundo, que fez as malas e foi ao Rio arrematar o lote. Os advogados responsáveis pelos contratos foram Flávio Mulata Lopes Coelho e Jeremias Jereba Alves Pereira Filho, que receberam os honorários em uísque e gin.

Os boêmios cariocas reclamaram e chegaram a comparar a ideia à prática da burguesia estadunidense que desmontava castelos ingleses para fazer suas mansões. Como se o próprio bar do Jockey não fosse importado e como se a Guanabara tivesse solução melhor.

Com a benção do padroeiro do uísque, nascia o Santo Colomba paulistano, cuja primeira escala foi na rua Padre João Manoel. Era uma festa, mas começava tarde, não no happy-hour, costume geral daquele então infelizmente ora desprezado.

Sei disso pela brilhante história de um dos fregueses mais assíduos, o Jangadeiro. Sua senhora andava incomodada com a frequência do marido na noite e quis conferir o que por lá acontecia. Vivíssimo, a advertiu que era muito chato, mas que ele era obrigado a frequentar para fazer vender os cuscuz que ela fazia. Em vão. Ela insistiu. Mas prudentemente o Jangadeiro chegou às seis, enquanto o bar ainda estava vazio. Sentaram-se, uísque para ele, guaraná para ela e silêncio para ambos. Antes das quinze para as sete, com a novela prestes a começar, concluíram que era chato mesmo e ela voltou para casa. Jangadeiro permaneceu para a árdua tarefa de estar no Santo Colomba.

Sob o Edmundo o bar durou aproximadamente uma década, quando então foi vendido ao publicitário, freguês e amigo Geraldo Alonso, que tocou por mais algum tempo e fez a transferência para a Lorena.

Hoje segue delicioso sob o comando do chef José Alencar de Sousa, ou Alencaro – commendatore di Montichiari para os amigos devotos de sua cozinha italiana.

Tipo tão paulistano, Alencar veio de Montes Claros, Minas Gerais, para trabalhar como pedreiro e depois metalúrgico de elevadores na Villares. Mas se encontrou como garçom num salão de chá que havia na Bela Cintra. Digo, se encontrou porque até hoje faz a alegria dos clientes quando vai ao salão, mas seu talento e vocação é a cozinha.

Quando trabalhou no Spaghetti Notte aprendeu tudo sobre a cozinha italiana e se tornou inclusive autodidata na língua do Dante.


A coluna “Cronículas” nos prestigia com diversas crônicas e textos do professor emérito da Faculdade de Direito do Mackenzie Jeremias Alves Pereira Filho, que lecionou por 40 anos no Mackenzie e foi presidente do Centro Acadêmico

Postado por Rafael Almeida

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