[A partir de maio, o JP3 abre suas portas a diversos coletivos, grupos e associações para publicarem colunas mensais. E não poderíamos começar melhor, com o Coletivo 4 da manhã. Abaixo, você confere o primeiro texto do grupo].

Café sem pão.

O Coletivo 4 da Manhã surgiu no segundo semestre de 2017 com o nome “Coletivo de Bolsistas Mackenzie”. Diversos alunos colaram nos murais do Mackenzie os informes e contato para que os estudantes bolsistas pudessem se integrar para formar o coletivo, porém essas simples folhas A4 foram, quase que instantaneamente, retiradas, atitude que dificultou (e ainda dificulta) muito a movimentação estudantil dentro da Universidade.

Porém, “podem matar uma flor, mas jamais deterão a primavera”. Mesmo com inúmeras dificuldades para reunir estudantes bolsistas, por conta da dupla jornada, trabalho e estudo, horas de transporte público, horas sem comer, etc., o “Coletivo de Bolsistas Mackenzie” se consolidou.

No segundo semestre de 2018 o Coletivo passou por uma grande reformulação: mudamos o nome e a identidade visual de forma a buscar maior identificação com nossas lutas.

O nome “4 da manhã” é oriundo da música do cantor e compositor Criolo, onde este retrata a realidade da maioria dos estudantes bolsistas (inclusive do Mackenzie)

Às quatro da manhã

Ele acordou

Tomou café sem pão

E foi à rua

Por o bloco pra desfilar.

Atravessou o morro

E do outro lado da nação

Ficou com medo ao ver

Que seu bloco talvez não pudesse agradar

As contas a pagar

Fila pra pegar

Senha pra rasgar

Fantasia.”

Esse simples trecho retrata a realidade dos bolsistas que demoram horas para chegar ao Mackenzie, que diante dos alto custo para alimentação na Universidade e no seu entorno, ficam durante todo o período sem comer, até retornar para suas respectivas casas nas periferias de São Paulo. Diante disso, já introduzimos uma das lutas do coletivo: A luta por melhores condições de alimentação para os estudantes bolsistas. Considerando que os bolsistas integrais não podem ter a renda per capta superior à 1,5 salários mínimos, o que hoje é a quantia de R$ 1.497,00, acima até da média da renda per capta no Brasil que é de R$ 1.373,00 (IBGE 2018), e considerando a grande concentração de renda e desigualdade social que temos, podemos afirmar que inúmeros são aqueles que vivem com muito menos que isso, inclusive dentre os bolsistas do Mackenzie. Se os estudantes bolsistas arcarem com, no mínimo, uma refeição por dia no Mackenzie, um almoço ou jantar, teríamos que gastar em média 20 reais por refeição; temos 20 dias úteis durante o mês letivo, ou seja, teríamos que gastar R$ 400,00 reais por mês, isso significa, muitas vezes, metade do aluguel, pouco menos da metade do salário de nossas mães ou pais, grande parte da compra mensal de nossas casas ou até os valores das despesas de água, luz e telefone.

Além disso, contamos com a dificuldade para poder participar de grupos de estudos, pesquisa, e todos os outros projetos da universidade que exigem que passemos horas além do período das aulas, dados os problemas anteriormente citados. Ainda, sofremos com os inúmeros problemas anuais para solicitar o nosso passe livre, que foi conquistado depois de muita luta mas que é, constantemente, ameaçado de cortes aos programas sociais que dependemos.

Apontam os bolsistas como uma das maiores dificuldades para o acesso ao mercado de trabalho ou às oportunidade de estágio, visto que a ausência de domínio de, no mínimo, uma língua estrangeira, mais especificamente o inglês, é muitas vezes carente dentre os nossos, uma vez que não dispusemos das ferramentas necessárias para desenvolver e aprender o idioma. Algo que é tão comum aos estudantes pagantes que muitas vezes dominam inglês, espanhol e estão fazendo curso de italiano, francês ou alemão durante a graduação, nós, estudantes bolsistas, chegamos à Universidade carregando toda a defasagem da escola pública, muitas vezes com dificuldades na gramática normativa, na estrutura textual, na produção de uma redação, etc., sendo meros frutos de uma escola pública desestruturada materialmente, pouco atrativa ao estudante por conta da ausência de recursos e com professores extremamente desvalorizados. Perdemos oportunidades na Universidade somente por não ter acesso às oportunidades que muitos tiveram durante a infância ou adolescência.

Se os bolsistas representam cerca de 10% de toda a Universidade Presbiteriana Mackenzie, dado que esta é a porcentagem mínima de bolsas a serem reservadas para os programas de inclusão, por que é tão difícil nos encontrar na universidade. Quantas dessas pessoas você conhece? E por que é tão importante que você as conheça?

A nossa presença na Universidade, mesmo que em níveis tão grandes, é negada constantemente. Nem sempre estamos nos eventos universitários, nem sempre temos tempo (e dinheiro) de participar das festas ou ficar para além do horário das aulas. Nós trabalhamos por necessidade e não por escolha. Nós nos locomovemos por horas e horas das periferias ao centro da cidade todos os dias. Nós somos, na maioria das vezes, os primeiros da família a cursar uma faculdade. Nós dependemos do transporte público e dos subsídios governamentais para andarmos pela cidade e precisamos estar sempre atentos a todos os prazos e, ainda, são os nossos direitos os primeiro a serem cortados e nossas vidas e futuro as primeiras a serem ameaçadas.

Nossa luta por espaço dentro da Universidade existe porque é preciso que reconheçam nossas dificuldade para permanecer e realizar os nossos sonhos. E é daí que surge o Coletivo 4 da Manhã: da necessidade de nos ajudarmos, nos tornarmos visíveis e impossíveis de ignorar.

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4damanha

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