A Bola Desvia: Futebol, Acaso e os Caminhos da Carreira Jurídica

O meu primeiro texto neste jornal foi sobre as aleatoriedades da vida que podem, muitas  vezes, moldar as nossas vidas, inclusive a nossa carreira jurídica. Quando vemos as biografias dos grandes gênios da humanidade, como no caso de Leonardo da Vinci e Bill Gates, percebemos  que, na verdade, eles só prosperaram como gênios e foram reconhecidos como tal em razão das contingências  da vida e de seus contextos históricos (leia aqui). 

Mas será que essa lógica do acaso se limita apenas às grandes trajetórias individuais? Ou será que ela também se manifesta de forma evidente em ambientes altamente competitivos e estratégicos, como o futebol? Até que ponto o sucesso dentro de campo é fruto de planejamento ou simplesmente de eventos imprevisíveis? E, mais importante: o que o futebol pode nos ensinar sobre mérito, sorte e oportunidade em nossas próprias vidas?

Capa do texto publicado no JPE, fonte: Jornal Prédio 3

Antes de entrarmos no tema futebolístico e em suas reflexões, gostaria, de antemão, de informar que sou um mero espectador de futebol: assisto e acompanho desde que me conheço por gente, sendo sempre corinthiano roxo. E sempre me perguntei algumas coisas, como: será que tudo que acontece dentro de campo é realmente o que os técnicos pediram para os jogadores fazerem? Quando um time prevalece dentro de campo, é realmente  porque houve um nó tático de um técnico em face do outro? Mesmo que haja a meritocracia dos jogadores de futebol e os seus esforços, há fatos imprevisíveis dentro de campo que muito influenciam no placar?

Chega de perguntas e vamos tentar encontrar algumas respostas… 

É interessante notar que, ao observarmos o futebol com uma atenção menos emotiva dos nossos times de coração, com um olhar mais frio e calculista, há de se perceber que dentro de campo está longe de ser um ambiente puramente controlável ou previsível. Em um vídeo recente que assisti, o criador de conteúdo João Felipe Gomes, do Canal Futebol Máximo, no YouTube, propõe justamente essa reflexão: o futebol, apesar de toda a sua carga estratégica, é profundamente atravessado pela aleatoriedade.

Segundo ele, muitas vezes um time executa com perfeição tudo aquilo que foi treinado — movimentação, posicionamento, marcação — e, ainda assim, sofre um gol. Em contrapartida, há situações em que erros evidentes passam despercebidos simplesmente porque o resultado final foi favorável. Ou seja, o julgamento posterior costuma ignorar o processo e se fixar apenas no desfecho.

Link do vídeo completo: O FUTEBOL É ALEATÓRIO?

Thumbnail do vídeo do youtube, fonte: Futebol Máximo

Um exemplo emblemático trazido no vídeo é o de um lance envolvendo o lateral-direito Paulo Henrique, em uma partida da Seleção Brasileira contra o Japão, que terminou em uma derrota por 3 a 2. Na ocasião, o jogador foi amplamente criticado por um suposto erro defensivo que resultou em gol. No entanto, ao analisar o lance com mais cuidado, percebe-se que ele, na verdade, executou a decisão considerada correta para aquele tipo de jogada. Ainda assim, o gol aconteceu e, com ele, a crítica não só da mídia mas também dos torcedores no geral.

Por outro lado, o futebol está repleto de lances em que jogadores tomam decisões tecnicamente equivocadas, mas, por circunstâncias fortuitas, o pior não acontece. Em muitos casos, o erro desaparece, sendo engolido pelo placar.

Outro ponto interessante destacado é o comportamento em jogadas de escanteio. Após o rebote, é comum que os jogadores optem por finalizar rapidamente, muitas vezes sem grande precisão, como forma de evitar um contra-ataque. Na maioria das vezes, esses chutes sequer oferecem perigo real. Ainda assim, ocasionalmente, um desses lances despretensiosos resulta em gol, não necessariamente por mérito técnico e plástico do jogador, mas por uma combinação improvável de fatores, como foi o caso do último jogo entre Vasco e Fluminense, que terminou em 3 a 2. 

Imagens do jogo entre Vasco x Fluminense do dia 18/03/2026, fonte: Instagram Vasco

Ainda como espectador, lembro-me da dolorosa eliminação da Seleção Brasileira em 2022, na Copa do Mundo. Muito se criticou daquela seleção, principalmente dos jogadores dentro de campo, que não conseguiram segurar o placar por poucos minutos. Naquela partida, senti a dor como se fosse ontem. Apesar do Brasil ter sido taticamente um pouco superior durante o jogo, mesmo sem conseguir marcar durante o tempo regular, o gol do Brasil se deu mais pelo talento brasileiro do que pela estratégia.

Imagem oportuna do golaço de Neymar no jogo Brasil x Croácia pela Copa do Mundo de 2022, fonte: China news Service

É curioso também notar que,  nesse mesmo jogo que teve um golaço por puro talento, e que, apesar de haver o descuido dos jogadores em irem para o campo de ataque faltando pouco para o fim do jogo, com o placar favorável, o chute de Petkovic (camisa 16 da seleção croata) desviou no jogador do Brasil de forma minuciosa antes de entrar no gol que, por consequente, eliminaria o Brasil na cobrança de pênaltis.

Exato momento do gol da Croácia no jogo Brasil x Croácia pela Copa do Mundo de 2022, fonte: Adrian Dennis

Diante disso, surge uma constatação desconfortável: nem sempre o resultado reflete, de forma justa, o mérito ou a qualidade da decisão tomada. E é exatamente aqui que o futebol se encontra com a vida — e, por que não, com a carreira jurídica. Por mim, devemos todos concluirmos que a vida não está em absoluto controle por nós, seja na nossa carreira jurídica, ou até mesmo em um esporte como o futebol, mas sim devemos contar com os fatores externos e momentos imprevisíveis que escapam completamente à nossa vontade.

Escrito por Vinicius Oliveira de Almeida


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