O papel brasileiro na disputa sino-americana

por Bernardo Gasoli Sichelero

A hegemonia norte-americana e ocidental sobre aspectos econômicos e culturais não sofre ameaças desde a Guerra Fria. A ascensão chinesa significa uma mudança de status e a política externa brasileira não deve tomar lados, mas aproveitar o melhor de ambos, na medida de suas ofertas.

Atentos em momentos de crise, os Estados Unidos se posicionaram ao final da Segunda Guerra Mundial para garantir uma expansão extraordinária. Com mecanismos de cooperação mundial, os norte-americanos asseguraram uma supremacia no controle de interações entre países. A Organização das Nações Unidas e o Fundo Monetário Internacional disseminaram legitimidade e confiança nos seus atos. Em troca de empréstimos e garantias de segurança, alianças abrangentes foram formadas. 

Entretanto, por conta de reformas realizadas na década de 70, Pequim disputa a influência de Washington. A China protagonizou um crescimento econômico assombroso de 1970 a 2010, com média de 10% a.a. em Produto Interno Bruto (NONNENBERG, 2009). Dados como esse a leva ao título de maior economia do mundo, ainda nesta década. Os investimentos também buscam expansão cultural, de credibilidade e atração científica. Cita-se as relações sino-africanas, considerando o apoio do país asiático ao desenvolvimento socioeconômico da África. Ao estilo americano, os chineses fornecem meios para o crescimento e proteção para viabilizá-lo.

Por meio do Belt and Road Initiative, uma rota de comércio intercontinental, os chineses buscam financiar investimentos em infraestrutura e acelerar a integração econômica entre os países que são atravessados pela antiga Rota da Seda. 71 países estão entre os beneficiários e a lista expandiu recentemente, com a entrada da Argentina. 

A distância territorial entre Buenos Aires e Pequim demonstra o interesse desta em expandir suas relações e contribuições no mundo em desenvolvimento, além de reforçar sua influência.  

A política externa brasileira sofre um desvio de prioridade que nos impede de enxergar e aproveitar oportunidades na disputa. Os brasileiros, conhecidos por uma história diplomática grandiosa, enfrentam um momento complicado. Os ocupantes dos altos cargos do poder público confundem as tradições do Itamaraty e prejudicam sua trajetória. 

O alinhamento com Donald Trump, somado a comunicações desastrosas com líderes mundiais e uma série de decisões controversas, levou-nos ao isolamento. Desviamos nossas tratativas por questões ideológicas e atrasamos nosso desenvolvimento. Não convém tomar um lado, mas aproveitar os benefícios de uma relação não exclusiva.

Como explica Stuenkel, ser membro de instituições lideradas tanto pela China quanto pelos Estados Unidos propicia “flexibilidade e espaço de manobra”, o que nos dá vantagem em negociações (STUENKEL, 2016). Uma posição neutra enseja os interesses nacionais, garante preços mais baixos e diminui a eficácia de embargos. Múltiplos fornecedores possibilitam melhores acordos.

Além disso, a concorrência abre conversas com o mundo desenvolvido. No status atual, países “em desenvolvimento” são deixados de lado em discussões relevantes. Levando em conta que os principais fóruns e encontros são controlados por países ricos, sobra pouca voz ao “segundo mundo”. Com a criação de uma ordem mundial multipolar, facilitada pelo crescimento da China, podemos participar de diferentes instituições.

Dessa forma, é provável que os detentores do poder mundial disputem pela presença das nações subdesenvolvidas em suas organizações. Isso gera oportunidades de investimento, participação em debates e motiva um olhar mais atento ao “resto do mundo”.

Assim sendo, nossas relações exteriores devem ser pautadas no interesse nacional, aproveitando as disputas da melhor forma possível, colhendo frutos econômicos e garantindo a autonomia brasileira na tomada de decisões.

Bernardo Gasoli Sichelero

São Paulo, 18 de fevereiro de 2022.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

“China, Argentina pledge closer ties on currency, ‘Belt and Road’”. Publicado na Reuters, em 06 de fevereiro de 2022;

China: estabilidade e crescimento econômico”, por Marcelo José Braga Nonnenberg;

“Introdução às Relações Internacionais: temas, atores e visões”, Cristina Soreanu Pecequilo (2017, Vozes);

“Mapa do investimento chinês na África revela destino de US$ 75 bi”. Publicado na BBC Brasil, em 30 de abril de 2013;

O labirinto do isolamento: Bolsonaro, a China e os EUA”, por Maurício Santoro;

“O Mundo Pós Ocidental: Potências Emergentes e Nova Ordem Global”, Oliver Stuenkel (2016, Zahar).

Créditos da imagem: Sergio Lima / AFP.

Publicado por Letícia Juang


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