“Girl from nowhere”: Uma abordagem sobre problemas sociais vigentes

Por Fernanda Aparecida Lopes Balthazar

Protagonizado por Chicha ‘Kitty’ Amatayakul, o drama tailandês Girl from nowhere (ou “Garota de Fora”, título traduzido para o português) produzido pela Netflix narra a história da misteriosa Nanno, que a cada episódio transfere-se para uma nova escola – e, por isso, tanto o enredo quanto o elenco mudam constantemente, exceto pela própria Nanno – determinada a revelar segredos, mentiras, maus tratos e injustiças cometidas por estudantes e seus pais, bem como por professores e diretores das instituições. Assim, à princípio, Nanno é posta como uma simples justiceira, buscando escancarar a hipocrisia – sendo a escola mostrada, por vezes, como um local que estimula a competitividade e as aparências, além de propagar valores ultrapassados e desprovidos de altruísmo –, além de outras questões problemáticas constantes do sistema educacional, como abuso de poder, suicídio, bullying, pressão estética e abuso sexual – embora não seja um fato confirmado, há muitas teorias de que a série é baseada em casos reais de exploração sexual nas escolas tailandesas. Contudo, no decorrer da obra, torna-se evidente que a protagonista é mais do que isso, de modo que cada episódio revela um pouco mais do que ela representa: um ser enigmático, quase diabólico, sendo seus métodos, geralmente, bruscos a fim de revelar o pior do ser humano, obrigando-nos a olhar para as nossas atitudes e as consequências delas decorrentes.

Muito do sucesso da produção tailandesa atribui-se ao mistério que gira em torno do que realmente seria a personagem Nanno, haja vista que não se sabe de onde ela veio, tampouco qualquer fato relacionado à sua vida e ao seu passado. Sem dar spoilers, Kitty a descreveu como uma figura bíblica:

Ela não é um fantasma, mas ela não é realmente humana. Ela é como a filha de Satanás ou a cobra do Jardim do Éden que vem à Terra para dar frutos proibidos aos humanos. Ela está aqui para testar o quão perversos os humanos podem ser. Levei muito tempo para entender a personagem e retratá-la de uma forma crível. Ela não é humana, então ela não tem sentimentos como empatia ou culpa.

Os principais “alvos” de Nanno são pessoas que contribuem com o escandaloso funcionamento de cada instituição, desde professores predatórios a alunos abusivos, manipulando-os a fim de mostrar as repercussões de seus atos, sendo a personagem por ora vista como uma entidade ou a própria figura do “carma”, trazendo, em certa medida, noções de retribuição e justiça, e, algumas vezes, redenção.

A série choca com suas fortes cenas de terror psicológico e sua memorável protagonista, que consegue ser uma personagem carismática, mesmo quando se revela um ser não humano. Nanno é detentora de uma risada maquiavélica marcante e assustadora, e demonstra se divertir com a eclosão dos conflitos por ela expostos e manipulados. A narrativa faz com que os espectadores duvidem dos próprios princípios, podendo Nanno ser vista como heroína na medida em que força a responsabilidade cuja assunção foge ao desejo do ser humano, ou como vilã em razão dos atos exagerados de justiça a fim de expor os sentimentos obscuros da realidade humana – cabe a nós, espectadores, decidir se cada “alvo” merecia o final que recebeu.

Girl from nowhere é uma trama cujo ponto principal é levar à reflexão, questionando toda a moralidade fortemente defendida pelos adultos, a geração que está no controle, em oposição à juventude, a geração que está sendo moldada, bem como a opressão ocasionada pela violência, um dos elementos presentes na série, ora implícita ora explicitamente, sendo o dinheiro posto, em parte das histórias, como fator motivador dessa violência, não somente como forma de diferenciação material, mas também como escape dos efeitos negativos de atos dos personagens. Os episódios expõem bruscamente a miséria humana e escancaram a dissimulação dos valores da sociedade moderna, sem filtros, com todos os tons mais cruéis.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Série “Girl from nowhere”. Disponibilizada na Netflix, a partir de 31 de outubro de 2018.

“Resenha | Dorama: Garota de Fora”. Publicado em Teorias Geek, em 20 de maio de 2021.

“Crítica | Garota de Fora, 1ª temporada”. Publicado em Team Comics, em 19 de junho de 2021.

“Garota de Fora 1ª e 2ª Temporadas | Crítica”. Publicado em Coisas de Mineira, em 1 de junho de 2021.

“Garota de Fora: Conheça a série tailandesa que está fazendo sucesso na Netflix”. Publicado em Adoro Cinema, em 19 de maio de 2021.

Publicado por Fernanda Aparecida Lopes Balthazar


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