Por Ryan Marco Andrade dos Santos

Não sou uma pessoa de palavras ao vento, caro amigo. Minhas faculdades talvez careçam de suas engrenagens fundamentais, mas consigo ainda associar e dissociar as normas que são cabíveis a nós. Já o alertei da minha condição física e mental – quem dera espiritual! -, mas, pelo que percebo, talvez isso soe mais louco e insano do que a própria composição primordial do nosso mundo. Veja, meu corpo já não suporta as adversidades da vida e está provavelmente em seu limiar; as cicatrizes que o percorrem se formaram ainda no campo de batalha e provavelmente são o único motivo de orgulho que levarei comigo à cova. Venho lhe procurar por acreditar ser minha única chance de recobrar a lucidez que tinha antes dos embates e ter a chance de conseguir uma vida digna por entre meus semelhantes…

Meus olhos, já me disseram, não enxergam como os seus, ou os do assistente à porta, ou como os das outras crianças e dos outros soldados. Comparam minhas percepções com filmes datados em que as cores – um termo vago para mim – são ausentes e dão lugar apenas ao claro e ao escuro. Admito, porém, que consigo visualizar bem e distinguir cada elemento que compõe o nosso entorno, tão bem que inclusive posso dizer que atrás daquele espelho estamos sendo vigiados… Mas isso não importa, submeti-me ao tratamento e permanecerei nele até o fim…

Enfim, querido doutor, vamos direto ao cerne do problema… Acredito que o senhor não perceba o quanto é mórbido para meu gênio cansado, e dormente para minha língua, ter de repetir o que já constatei… Como já disse, imagino ser parte da minha insanidade, e para explicar isto recorro a um esforço enorme da minha capacidade intelectual. Já vi a morte projetada das formas mais desumanas e duvidosas, mas a mais frequente – por isso se tornou a sequela mais grave – se refere às armas de fogo, cujos gatilhos não queimavam apenas a pólvora dentro dos canos, mas também os meus sentidos que se confundiam com a desordem generalizada. O frio e o calor; o silêncio e o trovão; a luz e a treva; o cheiro da pólvora e do aço misturados ao sangue e a podridão no campo; assim como o gosto à vida e à morte. Tudo estava presente, assim como distante, e as visões que tive são difíceis de descrever com exatidão e chegam a desafiar o poder da linguagem, mas mesmo assim, eu, no sadismo da própria ciência, proponho realizar este exercício.

Muito foi perdido naqueles instantes que o tempo não pôde medir: meus colegas, meu improváveis inimigos, minha inocência… Passei a ver a guerra não apenas nas trincheiras, mas também no cotidiano, especialmente nas noites chuvosas à beira do rio quando as lágrimas de Deus perfuram a superfície da água. Malditos sejam meus pensamentos! Só a projeção já me traz aquele ódio cegante!… tentarei tornar as coisas mais claras…

Já notou o momento em que alguém é atingido por uma bala? A pele é perfurada e, às vezes, mutilada, o sangue se desestabiliza e escapa, isso somado à breve explosão de calor seguida de um frio que Kelvin só conseguiu presenciar em seu leito. O mesmo ocorre com a superfície das águas de um Estige durante uma tempestade. O equilíbrio das águas – as quais são, por mim, facilmente confundidas com nosso liquor vital – é quebrado, partículas enegrecidas espirram no entorno, tudo numa breve dança agitada que se acalma em segundos. Espero que esta explicação já seja o suficiente…  

Contar-lhe-ei como fui capaz de o encontrar, já agradecendo de antemão aos seus assistentes por, provavelmente, salvarem a minha vida.

Era por volta de duas da manhã, acima do rio, na pequena ponte que liga as duas partes da cidade onde seus companheiros me resgataram de um terrível acontecimento em meio à chuva, aquela amaldiçoada chuva! Eu estava a meio caminho do outro lado quando pequenos pingos atingiram o meu sobretudo e não havia tantas pessoas por ali, apenas… não consigo me lembrar… Não importa! Não mais. Aquilo andava junto a mim e carregava consigo uma aura aconchegante, mas durante a chuva tudo se distorce. As luzes, o ar, os céus, a figura, o rio. Ah, aquele rio!

Tudo desmoronou com aquela visão, todas as sensações que mais temia retornaram com tripla intensidade, enxerguei milhares de almas se esvaindo com cada gota, cada pingo e cada disparo que era feito. Senti um impulso contra o peito, o coração se apertava mais e mais a cada palpitada, ao ritmo que meu corpo e mente se esvaiam em conjunto às almas abaixo da ponte. E, a cada segundo, uma raiva intensa de um trauma há muito esquecido tomou controle das minhas ações. Agora, aquela aura amiga fora substituída, ou sequestrada, por uma abominável e desprezível ameaça; e se eu não fizesse nada, ali e naquele instante, talvez eu teria feito algo a mim mesmo, puxando o gatilho, pulando da ponte… o que fosse necessário para afastar aquele odor decrépito e maculado. Eu precisei, juro que precisei! A água… a culpa é toda dela. Não deveria ter ido àquela cruzada de sangue nem me misturado às fardas… Por que a dor não passa, senhor?! Deveria ter caído ao lado dos meus colegas!… Ou quem sabe nem nascido.

Perdão, perdi-me entre minhas mágoas. Permita-me continuar.

Por fim, de acordo com seus honoráveis assistentes, encontraram-me à margem do rio com o sobretudo manchado de sangue e uma arma em mãos. Quando recuperei minha total sanidade, percebi que me olhavam horrorizados afirmando que eu havia feito aquilo ao objeto frio e vazio ao meu lado. Não sei se aquilo sequer já abrigou alguma vida no passado ou se era de fato humano, mas naquele momento era irreconhecível para mim, juro. O senhor o sabe tanto quanto eu… Foram os céus, com seus pingos de metal que cravaram a carne mortal que jazia ao meu lado. Tudo para incriminar a pobre alma diante de ti e romper o vínculo que esta tem com a sanidade e a ética.

Bom, espero ansiosamente pela próxima sessão, pois parece que, agora, serei levado ao meu quarto. De acordo com minhas percepções, seus amigos também são fardados. Que alegria estar entre semelhantes!

Publicado por Carlos Roberto Parra


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