Por Leonardo Mariz

Nos últimos anos, através de políticas públicas que visam facilitar o acesso, famílias que nunca pisaram em uma universidade puderam vivenciar essa experiência através das(os) jovens desta geração. Porém, há um ponto em que ninguém toca: qual é a sensação desse público que sai das margens para ocupar o centro da cidade? Essa é a pergunta responsável pela reflexão aqui proposta, mas para isso é necessário abordar o conceito do não-lugar, tão caro a este texto.

O não-lugar é uma construção do teórico Marc Augé, segundo ele um lugar é “identitário, relacional e histórico” (AUGÉ, p. 72), de modo que o não-lugar é aquele que não apresenta essas características. Além disso, o não-lugar é também um meio transitório que pode ser usado para que o indivíduo chegue a um lugar de fato – trens, vias, ônibus –, sem, contudo, criar vínculo com ele. Por isso, o não-lugar pode se referir a um espaço físico ou a um meio relacional que serve de conexão para a chegada a um ambiente ou posição social novos, sem, contudo, que o indivíduo crie vínculo com esse elo pelo qual está passando.

Nesse sentido, tendo em vista que “todo ponto de vista é a vista de um ponto” (BOFF, p. 2), o que é um lugar para uma pessoa pode não ser para a outra, regra que vale para o ambiente universitário, no qual a maioria das(os) alunas(os) são descendentes de pessoas que passaram por ali e criaram vínculos, enquanto outras(os) compõem a primeira geração que chegou àquele lugar, de maneira a encontrar identidade, forma de se relacionar e história completamente diversas daquelas do local em que cresceu.

Na periferia é incomum conhecer alguém que saiu do país, mas é corriqueiro conhecer quem foi preso, ter pais que não concluíram o ensino médio, se acostumar a empregos braçais e perder amigas e amigos com poucos anos de idade para a violência. Dessa forma, por consequência, são raros os casos em que a pessoa que viveu nesse ambiente chegue ao Mackenzie, haja vista que a mensalidade de muitos cursos da Universidade é maior do que a renda de famílias, as pessoas não têm exemplos para seguir e os meios de acesso são limitados e muito concorridos.

Além disso, essa diferença entre os espaços também se coloca enquanto barreira. Nesse sentido, é importante citar a arte para confirmar a disparidade entre os espaços universitário e periférico. O MC Neguinho do Kaxeta (NK), em seu álbum “Respeita Minha História” traz a música “Não é Conselho é Visão” e indiretamente abarca a questão. Na letra, NK diz: “girei o globo, fui na terra dos boy, e vi que eles faz fumaça igual favela, mas a parcela de bandido cai pra nós […]”, neste trecho o artista faz referência expressa à diferença de tratamento na “terra dos boy” e na “favela” – esse discurso segue a mesma lógica do empresário que humilhou o policial militar dizendo que há diferenças entre Alphaville e a favela, de maneira a evidenciar o fato de que são cenários distintos. Ademais, NK acrescenta algumas características do ambiente periférico quando afirma:

“porque aqui nós fuma com os amigo, joga no coletivo, e quando cai levanta, vai pra luta. Porém, eles fecha com os inimigo, fuma pra dar sorriso, e quando a brisa bate vira […]”.

Nesse ponto o autor se refere especificamente às diferenças de costumes relativas aos dois grupos, fator que abarca consigo a forma de enxergar o mundo, de modo a confirmar que há um choque quando o indivíduo, imerso em uma realidade na qual existem muitas dificuldades, passa a mergulhar em contexto completamente diferente em que o normal é que os seus direitos sejam respeitados, o que em muitos casos pode dificultar a criação de identidade, relação e história com o lugar.

Além do mais, outro ponto que confirma esse “choque” é uma publicação de 2019 do Thiago Torres, conhecido como “Chavoso da USP”, na qual ele aponta que:

“viver em dois mundo diferente é uma coisa tão difícil… Ficar indo todo dia da periferia pro centro, do centro pra periferia, da pobreza pra riqueza é tão… sei lá… estranho? Ver duas realidade tão diferente, tão contrárias na sua frente, a dos privilegiado e a dos desfavorecido mexe muito com a sua cabeça mano… […]”.

Esse relato, tão comum nas rodas de conversas entre bolsistas, geralmente não é expostos para fora dessa bolha social, de maneira que o público majoritário que tem como normal a vida na qual todos os direitos são respeitados – mackenzista médio – dificilmente enxerga a realidade das margens da cidade em que vive. Porém, para aquele que sai das margens para integrar o centro, a desigualdade social e as diferenças das práticas sociais comuns são notórias, de maneira a se enxergar enquanto um corpo diferente daqueles que compõem o espaço, haja vista que suas ações são diversas por trazer consigo experiências de uma trajetória completamente diferente do que é habitual naquele ambiente, o que culmina no sentimento de não pertencimento por estar no não-lugar.

Contudo, esse sentimento não se restringe ao ambiente universitário,  visto que por mais que a formação cultural seja periférica, ao acessar espaços de privilégio e ter contato com práticas sociais diversas, a pessoa passa a ter experiências que ultrapassam aquilo que é comum a um cidadão médio do meio em que cresceu, a periferia. Nesse sentido, o corpo periférico que passou a vivenciar diversas experiências em um contexto central, por elas é modificado, de maneira a não permanecer enquanto sujeito com bagagem de vida similar à das pessoas periféricas, pois há acesso a espaços de privilégio, viagens, conhecimento… fatores que contribuem para a diferenciação também no ambiente da periferia, haja vista que até a linguagem, verbal e não verbal, passa a se distinguir, o que contribui ainda mais para a noção do não-lugar.

Portanto, o que quero afirmar, sem tornar este texto teórico, é que as alunas periféricas e os alunos periféricos, quando passam a fazer parte da família mackenzista, por conta do fato de que trazem consigo costumes diversos de um ambiente em que há falta, mas mergulham neste cenário em que há fartura, se transformam em uma classe de pessoas que vive no entre-mundos, no qual nem se está completamente na periferia, tampouco na universidade, pois em ambos os lugares não há a sensação de sintonia total com o meio que o circunda, o que culmina na permanência no não-lugar, trazendo consigo o sentimento de não pertencimento a lugar algum, porém em uma constante busca por encaixar-se nos cenários pelos quais transita.

Referências Bibliográficas

José Guilherme Cantor Magnani, “Quando o Campo é a Cidade: Fazendo Antropologia na Metrópole”.

Leonardo Boff, “A águia e a galinha”.

Marc Augé, “Não lugares introdução a uma antropologia da supermodernidade”.

Foto

Diego Padgurschi

Publicado por Leonardo Mariz


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