Por Júlia Orciuolo

Atenção! O texto a seguir contém spoilers das série The Boys.

Com o crescente uso das tecnologias de modo indiscriminado, fica cada vez mais evidente a tendência de superficialidade nas relações pessoais. Deste modo, as redes sociais como o Instagram, o TikTok e o Facebook, contribuem ainda mais para esse distanciamento. Nesse sentido, tem-se uma evidente preocupação apenas com a imagem e com a manutenção de uma perfeição irreal, focada justamente em agradar pessoas que sequer conhecemos pessoalmente. Assim, muitas obras literárias e cinematográficas tentam retratar, ainda que em partes, a situação verdadeiramente caótica que observamos no século XXI.

O serviço de streaming da Amazon Prime recentemente lançou a segunda temporada da série “The Boys”. Numa visão distópica e até satírica dos universos da Marvel e da DC Comics, produtoras dos maiores heróis de todos os tempos, a série nos apresenta aos Sete, um grupo de heróis disfuncionais, mas extremamente populares ao redor do globo. Financiados pela farmacêutica Vought, os heróis são a grande fonte de renda da empresa, uma vez que o trabalho de marketing em cima deles é constante. Assim, percebe-se claramente como isso reflete uma tendência superficial, uma vez que ninguém sabe nem se importa com quem os heróis realmente são embaixo do uniforme.

Logo nos primeiros minutos da série descobrimos que a namorada do personagem principal, Hughie, é atropelada e morta pelo Trem Bala, uma releitura do Flash para o Universo da Amazon. Assim, ao receber uma proposta de Billy Butcher para iniciar uma caçada aos Súper (como são chamados os heróis na série) e vingar a morte da namorada, descobre que mais de 100 civis morrem em acidentes que a Vought chama de “efeitos colaterais”. Mesmo assim, o fanatismo pelos Super é tão grande e o trabalho de marketing é tão bem feito, que ninguém realmente se importa com os escândalos e as polêmicas envolvendo os heróis, mostrando claramente como as aparências se mostram mais importantes do que o conteúdo e as boas ações.

Ainda, é nítido na série o contraste entre o caráter dos super heróis e a imagem que é promovida. Em várias passagens da série, percebe-se que, apesar do título, há pouquíssima preocupação em salvar efetivamente as pessoas devido ao egoísmo intrínseco aos personagens. Em uma das cenas, a Rainha Maeve, releitura da Mulher Maravilha, e o Capitão Pátria, mistura do Capitão América e do Superman, deixam um avião com centenas de pessoas cair sem nenhum peso na consciência, e ainda fazem um discurso afirmando que não conseguiram chegar a tempo, convencendo seu público de uma verdade distorcida. De posse das filmagens incriminadoras, a heroína ameaça expor Capitão Pátria se não deixar sua namorada em paz, ao que ele prontamente aceita, por medo de perder fãs. Deste modo, percebe-se que toda a relação dos Sete entre si e com a própria empresa é pautada, na maioria das vezes, no interesse e na ameaça de manchar a imagem para os seguidores.

Tudo isso, sem contar os escândalos de assédio sexual, as apologias ao nazismo e as chantagens entre os próprios membros da Vought, que querem se sobressair a qualquer custo. Como de costume, trazendo uma frase ao final de cada um dos meus textos, hoje, concluo com Autora Eurides Galvão de Araújo: “Viver de aparências é um tanto desconfortável, além de vivermos iludidos querendo ser o que não somos, a toda hora temos que refazer uma nova mentira, para poder continuar camuflados”.

Publicado por Júlia Orciuolo


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