Desde 2017, a Academia de Letras dos Estudantes da Universidade Mackenzie (ALEMack), instituição fundada em 1956, passou a ter uma coluna semanal no JP3. Toda segunda-feira, um acadêmico publicará um texto abrindo os trabalhos da semana. Hoje, o JP3 publica o texto de Leonardo Spínola Alcântara, aluno da Faculdade de Direito do Mackenzie que ocupa a cadeira nº. 04 (Patrono Álvares de Azevedo). Saiba mais sobre a ALEMack clicando aqui e curta a página no Facebook (aqui).

 

Aqueles 15 Minutos

por Leonardo Spinola Alcantara

Tinha um ótimo começo para este texto. Me ocorreu onde tem me ocorrido muitas coisas ultimamente, na minha caminhada matinal de casa até a estação de trem. Não é um percurso muito  longo, então meus períodos de introspecção tendem a ser bastante curtos, ainda mais quando um motorista – que por sinal não tinha dado seta – decide apertar a buzina com todas as suas forças porque algum imbecil estava muito ocupado pensando  em começos de textos e não olhou para os dois lados antes de atravessar uma das oito ruas que separam a porta da minha casa dos vagões lotados da linha 9.

Essa distância da mais ou menos 15 minutos de podcast ou umas 3 musicas da trilha sonora do Baby Driver que venho escutando muito recentemente. Bom, como ia dizendo, a intenção original deste texto foi perdida em meio a uma buzina e possivelmente um xingamento de alguém quer certamente não havia tomado café antes de sair de casa ou  tinha uma reunião importante naquela manhã e não queria ser interrompido por alguém dançando Harlem Suffle se achando o protagonista do filme porem mais parecendo uma pomba desengonçada convulsionando.

Acho até bom a verdadeira intenção ter se perdido, me abre o espaço de refletir sobre dois “verbetes” do Dicionário das Tristezas Obscuras. Antes de mais nada, o referido Dicionário é uma iniciativa onde criam-se novos termos baseados em coisas como “Vemödalen: O Medo que Tudo Já Foi Feito” e “Onisim: A Percepção Do Quão Poucos Dias São Realmente Memoráveis”, resumindo um poço constante de crises existenciais para o que vos fala. Os dois termos que eu gostaria de discutir são: “Sonder: A Realização Que Todos Tem Uma História” e “Lachesism: Esperando Pela Claridade Do Desastre”

Deixando a sopa de letras que são os termos cunhados por John Koening misturados com a minha tradução dos títulos dos vídeos vamos aos fatos e a analise do primeiro termo. Comecei a repensar essa sensação na mesma manhã da buzina do carro se misturando com a musica dos meus fones, a minha dança empolgada e a irritação  do motorista pois  havia saído de casa um pouco depois do  usual e, por consequência além de pegar o metro estupidamente lotado onde até sardinhas se sentiriam claustrofóbicas, havia mais gente na rua do que o usual – também cortando minha introspecção matinal. Ao passar por varias e varias pessoas em diferentes estados de piloto automático comecei a perceber que elas estavam indo a algum lugar fazer alguma coisa em seus respectivos graus de piloto automático, diferentes musicas  plugadas em seus fones de ouvido, pensamentos em suas cabeças e prioridades em suas vidas. No  agito do dia a dia cada um é só mais um estranho em sua respectiva jornada dividida com diferentes figurantes que por sua vez são protagonistas de suas próprias  histórias que provavelmente também se incomodam tanto quanto você do individuo  que fica parado na porta do metro sem a mínima intenção de sair. A arrogância de nos considerarmos protagonistas é tamanha que fazemos de outros protagonistas, igualmente arrogantes, figurantes assim como eles fazem de nos meros empecilhos em portas de transporte público para seguir com seu dia.

Em suma, minhas caminhadas matinais tendem a ser exatamente a minha resposta ao segundo termo que eu queria discutir. A minha forma de achar clareza no meio do caos é dada homeopaticamente, 15 minutos, 8 ruas, 3 musicas por dia no caminho da porta de casa para a faculdade. No momento onde posso desligar a ponto de tornar um quase atropelamento um relato  em uma pagina do Word e esquecer todos os problemas do dia anterior até começarem os problemas do dia atual, que serão resolvidos na caminhada do dia seguinte até que o ciclo volte a se repetir. Ou isso ou uma hora dessas sou atropelado se não prestar mais atenção na estrada que em ideias bestas banhadas por trilhas sonoras de ótimas comedias.

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