Desde 2017, a Academia de Letras dos Estudantes da Universidade Mackenzie (ALEMack), instituição fundada em 1956, passou a ter uma coluna semanal no JP3. Toda segunda-feira [hoje com um pouco de atraso], um acadêmico publica um texto abrindo os trabalhos da semana. Hoje, o JP3 publica o texto de Antônio C. Cazarine Filho, estudante da Faculdade de Direito que ocupa a cadeira nº. 40 (Patrono Ariano Suassuna). Saiba mais mais sobre a ALEMack clicando aqui e curta a página no Facebook (aqui).

 

Carta ao Polo

Antônio C. Cazarine Filho

Eriberto Silva era um coxinha mas não era um coxinha qualquer de rodoviária que se encontra por aí, mas um bem crocante, bem recheado com muito frango e catupiry. Vivia em São Paulo. Que espanto! Na cidade de São Paulo, muito espantoso também! Morava com a sua família: esposa e dois filhos, digna de comercial de margarina. Trabalhava sério, engravatado, com o cabelo perfeitamente alinhado e a barba feita, em um escritório sem vista pela janela pois ela o distrairia do trabalho que executava metodicamente como um burro de carga que puxa um sistema bancado com o seu suor de segunda a sexta – um legítimo cidadão de bem. Só era salvo pela cervejinha no fim de semana assistindo o jogo do seu time preferido na TV. Com o apito final e a cara cheia, saía de carro dirigindo, matava cinco, puxava o carro e saia de ré.

Ia para o serviço de metrô, construído pelo grande governo do PSDB, no qual ele votava desde que tinha título, e, estranhamente, quase sempre inaugurado em ano de eleição. Mas ele não pensava nesse papo de comunista. Sexta-feira ia à igreja comungar com sua família e deixava parte do salário em retribuição à dádiva divina da palavra do pastor. Depois tomava um whisky, batia na mulher e chamava o vizinho que fumava um beck de “financiador”.

Segunda-feira o seu filho estava em casa porque a escola onde estudava não tinha nem um professor, que estava na rua apanhando da polícia, cobrando o seu salário lá do Governador. Em sua casa confortável, Eriberto praguejava enquanto assistia isso pela televisão. Quando ficava doente, logo ia ao postinho de saúde perto de sua casa: “mas esse SUS é uma porcaria, melhor privatizar; quem não puder pagar, que não fique doente” – ele não podia. Trabalhava com carteira assinada. Seu emprego conquistara graças a um curso técnico gratuito (assistencialismo). Na sua opinião se deve ensinar a pescar, e não dar o peixe.

Nesse emprego, cumpria sua jornada de 8 horas diárias. Agradecia aos céus quando tirava seu suado mesinho de férias para poder ir a um hotel fazenda no interior com a família e sonhar com a aposentadoria que ele sabia que nunca viria, pois aplaudiu de pé a reforma da previdência e o fim dos direitos trabalhistas implementados pelo novo governo.

Às vezes, tinha sua volta para casa atrapalhada por vagabundos petistas que fechavam a Av. Paulista fazendo baderna com seus “protestos por direitos”. Por que não faziam de domingo para não atrapalhar ninguém? Mas, em sua cabeça, só se repetia um mantra: “não pense em crise, trabalhe”, pois ele sabia que a crise agora iria passar. Dilma fora retirada da presidência e essa manifestação, sim, teve seu apoio, de camisa da Seleção, foto com a Polícia e tudo.

Lula, o maior ladrão da história da nação e dono da Friboi, da Samsung, da Apple e da Disney, segundo aquela corrente de WhatsApp que seu primo Lúcio tinha enviado no grupo da família, fora condenado e, depois de 518 anos, a corrupção no Brasil tinha finalmente acabado. Aécio, Jucá, Serra, Temer? Esses a gente tira depois. Pena que esse depois não chegou. Morreu antes. De que? Infarto? Câncer? Dor de dente? Não. Morreu de desinformação e senso comum, doenças perigosas que atingem a maioria dos cidadãos médios paulistas nos dias de hoje. Esses, estranhamente, não querem ser curados, pois quando veem alguém as denunciando logo gritam: petralhas, maconheiros, defensores de bandidos e os mandam pra Cuba. Iremos a Cuba?

1798859_10202231008928085_840807324_n