Iniciativa de duas antigas alunas do Direito-Mackenzie, escritório de advocacia especializado nos direitos das mulheres traz novo conceito de trabalho e atendimento a cliente

Após o sobrenome de seus sócios, tradicionalmente os escritórios de advocacia trazem a expressão “sociedade de advogados”. As variações são as mais diversas (“advocados associados”; “advogados e consultores legais”; ou simplesmente “advogados”;), mas a maioria mantêm o gênero masculino como regra, ainda que constituídos majoritariamente por mulheres.292308_421674834560160_1588959426_n

Não é o que acontece no “Cantal, de Sordi e & Garducci”, que leva em seu complemento a denominação “sociedade de advogadas”. A nova banca paulistana é formada por Rosa Cantal, formada pelo Mackenzie na turma de 2005, Letícia Garducci, formada pelo Mackenzie na turma de 2012 e Patrícia de Sordi, formada pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo em 2012. Para contar um pouco sobre essa iniciativa, o JP3 conversou com Letícia Garducci. Confira abaixo a entrevista.

 JP3 – Você e a Rosa estudaram no Mackenzie. Poderiam contar um pouco do que lembram de importante dessa época, quais experiências tiveram e se o Mackenzie foi importante para o crescimento de vocês?

Letícia – Tanto eu como a Rosa passamos por gestões no Centro Acadêmico da Faculdade de Direito. A riqueza da universidade vai muito além da sala de aula, e acredito que aproveitamos isto muito bem. Também tivemos o privilégio de estudar com professoras e professores que inspiraram nosso olhar diferenciado para o Direito. Faço questão de mencionar aqui a Professora Clarice Seixas, Patrícia Tuma e Alysson Mascaro. Certamente o Mackenzie contribuiu muito no nosso crescimento pessoal e na nossa formação como advogadas.

JP3 – Como as três sócias se conheceram?

Letícia – Todas nós temos experiência com advocacia popular e, como são poucas as advogadas e advogados atuantes nesta seara, todos acabam se conhecendo. A Patricia, que é formada pela Faculdade de Direito São Bernardo, advogava no Centro de Direitos Humanos Gaspar Garcia quando trabalhamos juntas em um projeto de reivindicação e fortalecimento dos direitos de mulheres trabalhadoras ambulantes. A partir desta experiência fomos consolidando uma bonita parceria de amizade e, também, na advocacia.

JP3 – Qual o motivo de terem criado um escritório constituído exclusivamente por advogadas? Qual o conceito que está por trás dessa ideia?

Letícia – Mais do que um escritório formado exclusivamente por advogadas, vale dizer que o que diferencia a nossa parceria é a concepção de uma prática especializada na garantia e fortalecimento dos direitos das mulheres. Porém, é importante lembrar que são diversos os escritórios constituídos apenas por advogadas no país. Até porque, conforme dados de 2016, as mulheres já representam 47% no quadro de inscritos na Ordem dos Advogados do Brasil – embora, vale frisar que nenhuma ocupa atualmente a direção do Conselho Federal da OAB e que nem 20% das mulheres chegam a ser sócias nos maiores escritórios de advocacia do Brasil. Esta realidade sexista certamente tem impacto sobre a assistência jurídica prestada ao público feminino.  E foi este cenário que nos inspirou a uma advocacia diferenciada, por meio de um atendimento jurídico sensível à realidade da mulher e uma atuação voltada a assegurar os seus direitos.

JP3 – Qual o diferencial do escritório no atendimento de seus clientes? Como ser um escritório de mulheres faz diferença nesse momento?

Letícia – Quando a cliente chega ao escritório, ela não vem simplesmente com uma demanda jurídica. Ela vem com uma situação que lhe aflige em seu cotidiano, que lhe deixa marcas, que lhe tira o sono – seja a falta do pagamento de pensão alimentícia às mais diversas formas de violência. Assim, e inclusive para melhor compreender a demanda da cliente, o atendimento precisa ir além do conhecimento jurídico. Vemos em nossa prática que a relação de confiança advogada-cliente também se estabelece a partir de uma escuta sensível, acolhedora. Acreditamos que o fato de sermos mulheres e buscarmos humanizar o atendimento contribui muito para que a cliente se sinta segura e confortável. E se sinta confortável, inclusive, para levar o filho pequeno que não tem com quem deixar ao escritório – como já aconteceu por vezes –, tendo a certeza de que serão bem recebidos. Tudo isto faz parte da compreensão acerca da realidade na qual está inserida a mulher nos dias de hoje e da busca de uma relação advogada-cliente diferenciada.

JP3 – Em tempos em que machismo e feminismo estão em pauta, que experiências negativas e positivas já passaram por abrir um escritório apenas de mulheres?

Letícia – Todas já tivemos experiências profissionais anteriores permeadas pelo machismo. Silenciamento em reuniões, desvalorização do trabalho e inclusive assédio. Mas a partir da criação da nossa sociedade temos vivido experiências profissionais extremamente positivas. É claro que, em um ambiente de atuação jurídica predominantemente masculina, como as penitenciárias, surgem alguns olhares surpresos diante da presença de advogadas mulheres. No entanto, estamos certas de que quando nós, mulheres, estamos atuando, deixamos claro que conhecimento e profissionalismo não tem gênero.

JP3 – O escritório pretende manter apenas mulheres ou, no futuro, vem como uma possibilidade admitir estagiários e advogados (homens)?

Letícia – Entendemos que ninguém melhor do que uma advogada para fazer o atendimento jurídico quando se trata de questões de gênero, sobretudo em casos que envolvem violência. Mas acreditamos em outra forma de sociabilidade, que seja inclusiva. Quando se trata de protagonismo no universo jurídico, hoje, sabemos que ele tem gênero, raça e classe. Ao constituirmos a nossa sociedade nos colocamos o desafio de se consolidar por meio de uma prática jurídica diferenciada, sensível à realidade social. Assim, ampliar futuramente o nosso nicho de atuação e formar uma equipe que espelhe a diversidade social, para nós, será a certeza de que demos um grande passo.

JP3 – Abrir um escritório é sempre um desafio. Poderiam contar um pouco como tem sido essa experiência para vocês? Sentem que há algo de diferente por estarem apenas como mulheres?

Letícia – De fato, vem sendo desafiador. Isto porque, embora a faculdade de direito ofereça uma formação jurídica extremamente qualificada, não nos prepara para o mundo dos negócios. Soma-se a isto o fato de que, diferentemente dos homens, as mulheres em sua criação não são encorajadas para empreender –embora a autonomia financeira seja fator essencial para a afirmação da independência feminina. No entanto, entre as diversas surpresas positivas que estamos tendo em nossa trajetória, descobrimos que atualmente já existem espaços direcionados para a mulher no mundo dos negócios, como a Feminaria, que vem nos dando um apoio fundamental para a gestão de nosso escritório e com a qual estamos construindo uma importante parceria, que em breve anunciaremos.

JP3 – Vocês tem estagiárias? Se não, pretendem ter?

Letícia – Ainda não, mas sabemos o quanto o estágio é uma experiência fundamental para a formação do aluno, e, em breve daremos inicio à contratação.

JP3 – Conhecem outras iniciativas iguais a de vocês no Brasil e/ou no exterior?

Letícia – Há em São Paulo a atuação da Ana Paula Braga e a Marina Ruzzi, pioneiras na criação de um escritório voltado exclusivamente às questões de gênero no país. Porém, desde os anos 1990 existe a Themis, ONG direcionada ao enfrentamento da discriminação contra as mulheres no sistema de justiça, sendo relevante falar, ainda, de iniciativas como o Promotoras Legais Populares, que tem sua atuação também voltada para a equidade de gênero. Do mesmo modo, é importante mencionar que já são diversos os escritórios voltados especificamente à questão LGBT. Todas estas experiências são de extrema relevância, sobretudo porque possibilitam uma atuação conjunta, um trabalho em rede para o enfrentamento das diversas formas de violência e fortalecimento dos direitos não só das mulheres, mas das minorias em geral. Torcemos para que projetos assim se multipliquem cada vez mais.

JP3 – Se pudesse deixar um recado/conselho para as mulheres que estão se formando agora no curso de direito, o que diriam?

Letícia – Busquem ir além do conhecimento jurídico. Procurem conhecer a realidade tal como ela é. Leiam sobre política, economia, filosofia. Leiam Ângela Davis, Heleieth Saffiot, Silvia Federic – conheçam a nossa história enquanto mulheres.  Frequentem espaços diversos, convivam com pessoas diversas – e não só do universo jurídico. Vivenciar e melhor compreender esta realidade complexa na qual estamos inseridas certamente contribuirá para que se tornem advogadas, juízas, promotoras etc mais qualificadas e, sobretudo, para que se fortaleçam enquanto mulheres e cidadãs.

 Informações

Cantal, De Sordi & Garducci Sociedade de Advogadas é um escritório de advocacia com atuação nas áreas cível, criminal e trabalhista. É constituído exclusivamente por advogadas, e se inaugura com o objetivo de fortalecer as mulheres a partir de uma atuação jurídica sensível às suas demandas. Rua Inglês de Sousa, 14 – Jardim da Gloria, São Paulo – SP, 01546-010 – São Paulo/SP – E-mail: cdgadvogadas@gmail.com – Telefone: (11) 2737-5998. Facebook: facebook.com/cdgadvogadas/