Malandro não é Bandido: É Guardião

7 de julho – Dia dos Malandros na Umbanda

No dia 7 de julho, os terreiros se enchem de samba, chapéu inclinado, copo de cerveja equilibrado no canto do altar, guimbas no chão e aquele cheiro inconfundível de fumaça e dendê no ar. É o Dia dos Malandros. É dia de vestir branco com fita vermelha. De deixar uma rosa vermelha no canto da rua. De soltar um ponto e um sorriso. É dia de saudar Zé Pelintra e todos os que, como ele, fazem da rua seu templo, da malandragem sua filosofia e da ginga sua espada.

Mas, afinal, quem é o malandro na Umbanda? E por que ele ainda assusta tanta gente?

Raíz do Samba, Arte: Maria Navalha e Zé Pelintra

A Malandragem como Sabedoria Ancestral

Malandro, na Umbanda, não é criminoso. Não é vagabundo. Não é aproveitador. Isso é o que o preconceito diz, e o que a moral burguesa tentou nos enfiar goela abaixo.

Na gira de malandro, a gente aprende que malandragem é sobrevivência. É a sabedoria urbana. É a esperteza que nasce da necessidade, a inteligência de quem aprendeu a viver nas brechas do sistema. O malandro é aquele que entende o jogo, e joga bem, sem vender a alma.

Zé Pelintra é o maior deles. Um Exu? Um espírito de luz? Um guia? Depende da tradição, depende da casa. Mas, em qualquer uma delas, ele é rei da Lapa, senhor das encruzilhadas da vida, mestre da navalha invisível e advogado dos injustiçados. Com sua roupa alinhada, terno branco e camisa vermelha, chapéu panamá e sapato bicolor, Zé Pelintra é a elegância em pessoa. E por trás da aparência descontraída, esconde uma alma ancestral, firme, sábia e feroz.

Zé Pelintra: entre o bar e o altar

Nascido no imaginário popular nordestino, mais precisamente no Recife, segundo muitos, Zé Pelintra foi figura real e virou entidade. Foi homem pobre, trabalhador, negro ou mestiço, conhecido nos bares, nos terreiros e nas rodas de capoeira. Dizem que ajudava quem precisava, peitava quem fazia o mal e nunca se curvou diante da injustiça. E quando morreu, virou força.

Zé é figura híbrida: caminha entre a Umbanda e a Jurema, entre o catolicismo popular e a cultura afro-brasileira. Carrega o sincretismo no corpo e nos passos.

Ele fuma, bebe, dança. Mas também orienta, cura, aconselha. É o guia de quem não tem guia. É o pai de quem foi deixado. É a mão que aparece no fundo do poço dizendo “levanta, malandro, que ainda não acabou”.

Malandro também é arquétipo: é símbolo

Celebrar o Dia dos Malandros é mais do que acender velas, cantar ponto e bater palma. É reconhecer que existe, na figura do malandro, um símbolo de resistência preta, periférica, nordestina, favelada, dissidente. A malandragem, na Umbanda, é uma resposta espiritual à exclusão social.

Num país que criminaliza o corpo preto, a pobreza e a liberdade, Zé Pelintra e os malandros são símbolos do contra-ataque. São o retrato espiritual de uma classe que sempre teve que dar seus pulos. Que sobreviveu apesar das leis. Que driblou fome, cadeia, racismo, perseguição religiosa, violência policial. A malandragem é uma ginga ancestral.

Zé Pelintra não é um fora-da-lei. Ele é o que protege os nossos dos abusos da lei.

Não é delinquente. É defensor.

Não é promíscuo. É encantador.

Não é vagabundo. É mestre do tempo.

Lapa, Rio de Janeiro

O sagrado que habita os becos

Os malandros não são santos de altar dourado. São santos da rua. Do bar. Da encruzilhada. São entidades que conhecem o mundo sujo, e justamente por isso, sabem onde pisar.

Zé e seus camaradas: Maria Navalha, Zé Pretinho, Malandro da Lapa, Malandro da Baixada, Zé do Morro, e tantos outros, sabem que não se vence o sistema jogando limpo com ele. Por isso ensinam estratégia. Coragem. Dignidade. E acima de tudo: respeito.

Quem caminha com Zé aprende a manter a cabeça erguida. Aprende a rir com pouco, a dançar com dor, a amar com liberdade. Aprende a escolher suas batalhas, e a não baixar a guarda.

Umbanda é resistência, e a malandragem é um dos seus gritos

A presença dos malandros dentro dos terreiros foi, por muito tempo, alvo de polêmica. Alguns diziam que eles eram “espíritos atrasados”. Outros questionavam, que não eram “puros” o suficiente. Mas quem conhece sabe: os malandros são linha de frente na proteção dos filhos. Se você já viu um Exu e um Malandro trabalhando juntos, sabe do que eu tô falando.

Eles andam entre mundos. Entre camadas. Entre dimensões. Entre passado e presente. Eles são a cara do Brasil que resiste.

7 de julho: data pra lembrar, pra agradecer e pra aprender

Neste 7 de julho, que a gente não celebre só com samba e cerveja. Que a gente lembre da força espiritual que os malandros representam. Que a gente honre aqueles que, como Zé, morreram sem justiça. Que a gente escute os conselhos, os recados, os avisos sutis. Que a gente mantenha a malandragem viva, não como jeitinho, mas como ética da sobrevivência.

Que o malandro em nós saiba dançar na beira do abismo e rir na cara do desespero. Que a navalha não precise ser usada, mas esteja sempre afiada. Que o chapéu esteja sempre firme na cabeça. Que a fé nunca vacile.

Malandros no Brasil

Publicado/Escrito/Desenhado/Editado por Bruno M.Z.A.S.B.C.


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