Favela do Jacarezinho, Rio de Janeiro. 6 horas da manhã. Um helicóptero sobrevoa a comunidade, policiais encapuzados ocupam vielas estreitas e tiros ecoam entre casas improvisadas. Ao fim da operação, há corpos no chão. A cena, que poderia ser de um conflito armado em zona de guerra, é, na verdade, um retrato cruel da realidade de milhares de brasileiros que vivem nas periferias e favelas do país. E esses corpos, em sua esmagadora maioria, são negros.
A violência policial nas favelas brasileiras não é acidental nem episódica, ela é estrutural. E o racismo que a sustenta também. O Brasil, com sua história marcada pela escravidão e pela exclusão racial, construiu um aparato estatal que, muitas vezes, enxerga o território periférico como um inimigo e os corpos negros como ameaça. Não se trata de um desvio ou de exceções isoladas: trata-se de uma engrenagem historicamente moldada para excluir, punir e eliminar.
Dados que Escancaram a Barbárie
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024, mais de 6.400 pessoas foram mortas por policiais no Brasil em 2023, sendo que mais de 80% destas vítimas eram negras. As operações mais letais concentram-se nos estados do Rio de Janeiro, Bahia e São Paulo, justamente aqueles com as maiores populações negras e faveladas.
A letalidade policial, nesses espaços, é retratada como “enfrentamento”, “combate ao tráfico” ou “operação de inteligência”. Mas as evidências mostram outro cenário: pessoas desarmadas, jovens que jamais tiveram passagem pela polícia, invasões sem mandado, corpos removidos sem perícia e ausência de responsabilização.
Casos como o de João Pedro Mattos Pinto, de 14 anos, morto dentro de casa em São Gonçalo (RJ) durante uma operação policial em 2020, ou de Genivaldo de Jesus Santos, morto asfixiado em uma viatura da PRF em Sergipe, em 2022, não são exceções. São exemplos trágicos de um padrão. Os links das matérias estarão no final deste texto.
Favela: Laboratório de Repressão
“As favelas se tornaram verdadeiros laboratórios de repressão, onde o Estado testa estratégias de controle e aniquilamento”, afirma a socióloga Juliana Costa, pesquisadora do Instituto de Estudos da Violência Urbana. “Não é coincidência que as operações ocorram em locais onde o Estado falha em garantir saúde, educação, saneamento, mas se faz presente com armas, tanques e helicópteros.”
A criminalização da pobreza se entrelaça com o racismo estrutural. Não basta ser pobre, é preciso ser negro e pobre para estar permanentemente sob suspeita. Nas palavras de um morador da Cidade de Deus, que pediu anonimato: “Aqui, a polícia não pergunta. Ela atira. A gente cresce aprendendo a correr do uniforme, não porque é culpado, mas porque sabe que pode morrer mesmo sendo inocente.”
Engrenagem Invisível
O conceito de racismo estrutural, amplamente discutido por pensadores como Silvio Almeida, refere-se ao conjunto de práticas, políticas e mentalidades que perpetuam a desigualdade racial no país. Não se trata apenas de atos individuais de discriminação, mas de uma lógica institucional que molda o acesso (ou a falta dele) à justiça, à saúde, à educação e à segurança.
Quando um jovem negro é parado pela polícia cinco vezes por semana e um jovem branco da zona sul, nenhuma, isso é racismo estrutural. Quando a resposta do Estado à violência é o aumento do armamento e da repressão nas favelas, e não investimentos sociais, isso é racismo estrutural. Quando a morte de um jovem negro gera pouca comoção nacional, enquanto casos semelhantes com vítimas brancas ganham ampla cobertura e clamor, isso é racismo estrutural.
Mídia e Justiça
A mídia brasileira, historicamente, tem desempenhado um papel ambíguo. Em muitos casos, reforça o estigma da favela como lugar do crime e do “inimigo interno”. Manchetes que descrevem operações letais como “sucesso” ignoram o número de mortos, feridos e o impacto traumático para as famílias.
Além disso, o sistema de Justiça raramente responsabiliza policiais por execuções. Investigações são arquivadas por falta de provas, testemunhas são silenciadas pelo medo e câmeras corporais ainda são escassas ou desligadas intencionalmente durante as ações. Não existe “bala perdida”, uma vez que atinge exatamente o seu alvo principal.
A advogada e ativista de direitos humanos Daniela Nunes afirma: “A impunidade é a norma. Quando um policial mata na favela, dificilmente há responsabilização. Mas se o mesmo ato ocorresse em um bairro de elite, o escândalo seria imediato.”
A Dor das Mães e a Luta por Justiça
As maiores vozes contra a violência policial vêm de dentro da favela: são as mães negras, que transformam o luto em luta. Movimentos como o Mães de Maio, em São Paulo, ou o Movimento Moleque, no Rio de Janeiro, denunciam, documentam e resistem.
“Eu perdi meu filho com 17 anos. Estava indo para o curso. A polícia disse que ele ‘estava com atitude suspeita’. Desde então, minha vida virou luta”, diz Maria das Dores, moradora do Complexo do Alemão e mãe de Vitor, morto em 2019.
Essas mulheres, muitas vezes sozinhas diante de um sistema opressor, têm se articulado em redes, ONGs e organizações internacionais, denunciando a política de extermínio em fóruns da ONU e da OEA. O mundo começa a escutar, mas o Brasil insiste em calar.
O que pode ser feito?
Diante de um problema tão enraizado, não há solução fácil. Mas há caminhos possíveis:
- Desmilitarização da Polícia: O atual modelo, herdado da ditadura, é voltado ao confronto e não à proteção da vida. A mudança estrutural desse modelo é urgente.
- Políticas Públicas nas Favelas: Investir em educação, cultura, saúde e oportunidades de trabalho é o antídoto mais eficaz contra o crime — e contra a violência estatal.
- Câmeras Corporais Obrigatórias: Estudos mostram que o uso contínuo de câmeras reduz significativamente abusos e execuções.
- Reparação Histórica e Racial: O Brasil precisa reconhecer oficialmente que há uma dívida histórica com a população negra e implementar políticas afirmativas reais.
- Representatividade Política: Ampliar o número de representantes negros e de favelas nos espaços de poder é crucial para que as políticas públicas não sejam feitas apenas para, mas com quem vive a realidade.
Entre a Bala e a Esperança
A favela não é o problema. O problema é o Estado que só chega com violência. A solução está em enxergar os moradores como cidadãos plenos, com direitos, histórias, sonhos e potencial. Enxergar o racismo como uma ferida aberta que precisa ser tratada com seriedade e coragem.
A cada jovem negro assassinado, o país perde uma parte de si. E enquanto o Brasil continuar tratando a vida negra como descartável, continuará sendo um país em dívida com a sua própria humanidade.
Links
- https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2024-11/quase-90-dos-mortos-por-policiais-em-2023-eram-negros-diz-estudo#:~:text=Estudo%20publicado%20nesta%20quinta%2Dfeira,que%20representa%2087%2C8%25.
- https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/caso-joao-pedro-justica-do-rio-absolve-pms-acusados-pela-morte-do-adolescente/
- https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/juri-do-caso-genivaldo-morto-asfixiado-em-carro-da-prf-ocorre-hoje-relembre/
- https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2024/12/18/dados-policia-letalidade-g20.htm
- https://www.sbponline.org.br/2022/06/brutalidade-policial-uma-analise-psicossocial
- https://www.cnnbrasil.com.br/tudo-sobre/violencia-policial/
- https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2025/05/20/violencia-policial-pms-espancam-suspeito-de-roubo-de-moto-em-sp-veja-video.ghtml
Publicado/Editado/Desenhado/Escrito por Bruno M.Z.A.S.B.C.
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