No Brasil, vestir-se nunca foi apenas uma escolha. Para corpos negros, periféricos, LGBT+ e gordos, o ato de escolher uma roupa carrega um peso que vai além da estética: é um gesto de afirmação, de resistência e de enfrentamento contra um sistema que historicamente exclui e marginaliza essas existências. A moda, nesse sentido, não é apenas vaidade ou consumo; ela se torna uma ferramenta de sobrevivência e uma linguagem de identidade. Em cada roupa, acessório ou estilo há uma história de luta para existir plenamente em uma sociedade que muitas vezes não reconhece a pluralidade de seus corpos.
A História da Exclusão Estética no Brasil
A exclusão estética no Brasil é um dos legados mais perversos do colonialismo. Durante séculos, o país importou padrões europeus de beleza que associavam pele clara, cabelos lisos e corpos magros a uma ideia de civilização e progresso. Para os negros escravizados, as roupas eram controladas de forma rígida: tecidos finos e adornos eram proibidos, sob pena de castigo. Mesmo após a abolição da escravidão em 1888, o acesso à moda continuou sendo privilégio de poucos. A República Velha manteve os códigos não escritos que associavam aparência à hierarquia social.
Os dados contemporâneos mostram como essa herança permanece. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 56% da população brasileira se autodeclara preta ou parda, mas a representatividade nos espaços de poder, mídia e moda ainda é esmagadoramente branca. Apenas 17% dos modelos contratados em grandes semanas de moda nacionais são negros, número que revela a persistência de um sistema que continua privilegiando uma estética eurocêntrica, apesar da diversidade real do país.
A Periferia Cria, a Elite Copia
Em contraste com os centros tradicionais de moda, como Paris ou Milão, a periferia brasileira constrói sua estética a partir de vivências coletivas e urgências cotidianas. Movimentos como o “passinho”, no Rio de Janeiro, e o “funk ostentação”, em São Paulo, redefiniram o que é ser estiloso para a juventude negra e periférica. O tênis de marca, a corrente dourada, a calça de moletom estilizada e a camisa de time de futebol foram apropriados como símbolos de sucesso, reconfigurando objetos antes associados apenas ao esporte ou ao lazer em verdadeiros ícones de status.
Essa estética, entretanto, é frequentemente criminalizada. Em 2019, uma pesquisa do Data Favela mostrou que 62% dos jovens de comunidades já sofreram alguma forma de discriminação baseada na forma de se vestir. Ainda assim, a cultura da periferia avança, influencia e, muitas vezes, dita as tendências globais, como se viu na explosão internacional do funk e do trap brasileiro, cujos artistas elevam essas estéticas ao mundo.
Marcas independentes, como a Lab Fantasma, da família dos Racionais MC’s, e a Piet, de Pedro Andrade, são exemplos concretos de como a moda pode ser usada para reivindicar espaço, contar histórias e resistir à lógica de exclusão. A Lab, por exemplo, ao lançar sua coleção “Negro Drama”, ressignificou a dor e o orgulho negro em peças de vestuário, criando moda com memória e militância.
O Corpo LGBT+ e a Estética como Sobrevivência
Para pessoas LGBT+, a moda representa também um campo de batalha onde se luta por reconhecimento e dignidade. A expressão de gênero através da roupa rompe normas impostas e desafia a rigidez social que ainda insiste em limitar identidades.
Segundo a pesquisa “Viver em São Paulo: LGBT+”, realizada pela Rede Nossa São Paulo em 2021, 70% das pessoas trans e travestis afirmam que mudam a forma de se vestir ao sair de casa, com medo de violência. A estética, nesse contexto, torna-se ao mesmo tempo um grito e uma armadura. O batom forte, a saia esvoaçante, o terno feminino, os acessórios chamativos, tudo é escolha pensada entre o desejo de ser e o medo de ser punido por isso.
No entanto, nas quebradas, na arte de rua e nas baladas alternativas, surgem movimentos que transformam o medo em orgulho. Festas como a “Batekoo”, nascida em Salvador e hoje presente em várias capitais, mostram que a moda queer e preta é um fenômeno potente de reconstrução social. Nesses espaços, a roupa não apenas protege: ela celebra a diversidade dos corpos, dos desejos e das identidades.
A Gordofobia e o Silenciamento dos Corpos Fora do Padrão
Corpos gordos, no Brasil, são sistematicamente silenciados, especialmente na indústria da moda. Apesar de mais da metade da população adulta estar acima do peso, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2020, a maioria das vitrines e passarelas ainda apresenta corpos extremamente magros como padrão aspiracional. O mercado plus size, que cresce 8% ao ano segundo a Associação Brasileira do Vestuário (ABVEST), ainda é visto como nicho e tratado com desdém pelas grandes marcas.
As opções de roupas para corpos gordos são muitas vezes limitadas, sem variedade de estilos, cores ou tendências contemporâneas. Além disso, campanhas publicitárias que dizem valorizar “diversidade corporal” frequentemente utilizam modelos que, embora rotulados como plus size, ainda apresentam corpos relativamente próximos dos padrões tradicionais: cintura fina, pouca barriga aparente e curvas “aceitáveis” socialmente.
A invisibilização estética das pessoas gordas é também uma forma de violência. A moda deveria ser um espaço de liberdade, mas acaba sendo, para muitos, um território de vergonha e exclusão. Resistir a isso é também criar novas possibilidades: estilistas independentes como o coletivo “Corpo Livre” e marcas como “Wee!” surgem para vestir corpos reais e para afirmar que estilo e autoestima não são prerrogativas de um corpo magro.
A Revolução Começa nas Ruas
A periferia inventa. Inventa moda, inventa estilo, inventa futuro. E faz isso com criatividade, com ousadia, com a potência de quem sempre foi empurrado para as margens, mas nunca aceitou ficar invisível. Em lugares onde o Estado muitas vezes não chega, a estética é instrumento de comunicação, de pertencimento e de solidariedade.
Eventos como o “Perifa Fashion Week“, criado em São Paulo, são mais do que desfiles de moda: são manifestos vivos. Ali, os modelos não são escolhidos pelo peso, pela altura ou pelo tipo de cabelo. São escolhidos para representar uma estética coletiva de resistência. Marcas como “À La Garçonne”, de Alexandre Herchcovitch, começam a dialogar com a estética de rua, mas é importante reconhecer que a verdadeira inovação vem de baixo, das quebradas, dos becos e vielas, onde a criatividade se reinventa todos os dias, apesar da falta de recursos.
Campanhas como a “Moda da Quebrada”, lançada em 2023, mostraram que jovens periféricos não apenas consomem moda: eles criam tendências. Segundo a CUFA, 78% dos moradores de favelas veem a forma de se vestir como um elemento de orgulho e força, e mais de 60% afirmam que gostariam de empreender na área da moda se tivessem apoio financeiro.
Conclusão: O Vestir Como Existência
No Brasil, ser negro, ser gordo, ser LGBT+, ser periférico, e ousar vestir-se de maneira afirmativa é um ato político. Cada look pensado, cada acessório usado com orgulho, cada cabelo natural exibido nas ruas é um gesto de insubordinação contra uma ordem que insiste em definir quem é ou não digno de ser visto.
O pertencimento, nesse contexto, não é dado: é conquistado. E a moda, longe de ser um luxo fútil, é uma das ferramentas mais poderosas dessa conquista. É pelas roupas, pelos estilos, pelas cores e pelas texturas que os corpos historicamente marginalizados reescrevem sua própria narrativa, em que resistir é também criar, amar, viver e florescer.
O futuro da moda brasileira passa necessariamente pela periferia. Pelos corpos que criam beleza em meio à precariedade. Pelas vozes que transformam dor em arte. Pela estética que recusa padrões, que desafia a hegemonia, que constrói novas formas de pertencer ao mundo. E nesse futuro, a moda deixa de ser um privilégio para se tornar o que sempre deveria ter sido: uma celebração radical da vida em todas as suas formas possíveis
Editado, Escrito e Publicado por Bruno Zagati A.S.B.C.
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