Psicopata Americano: o reflexo invisível de Pat Bateman

por Rocco Gasparini

  1. Sobre o filme

Eu enxergo Psicopata Americano como um conflito indivíduo vs. sociedade. Ainda que seja possível fazer aquela clássica interpretação de que se trata de uma crítica assídua à sociedade estadunidense dos anos 80, marcada por uma intensa onda de pensamento essencialmente consumista, me parece ainda mais fascinante estudar as relações entre a psique deturpada do protagonista contraposta à sua relação com os colegas e o mundo ao seu redor, simultaneamente marcadas por uma inanição egocêntrica e uma indiferença constante.

O mundo é interpretado pelos olhos do protagonista Patrick Bateman. Patrick é basicamente o exemplo do homem tido como perfeito: rico, bem-sucedido em uma carreira prestigiada, bonito, em ótima forma, culto e com uma vasta rede social de amigos, contatos profissionais e amantes. O único preço a se pagar é o fato de que ele é também um serial killer com uma sede de sangue cada vez mais incontrolável.

Imagem: IMDb

Título original: American Psycho

Diretora: Marry Harron

Ano de lançamento: 2000

Duração: 102 minutos

Gênero: Terror (???)

Onde assistir: Star+

Este contraste acaba dando ao longa-metragem lançado em 2000 um tom meio absurdista, chegando ao ponto no qual você acredita que está assistindo uma comédia. A persona social de Bateman parece absolutamente ridícula aos nossos olhos. Bateman fala de um jeito artificial, se expressa com uma linguagem corporal terrivelmente exagerada e diz coisas sem sentido na expectativa de preencher o vácuo num diálogo entre colegas. 

O surrealismo e tom irônico da obra contribuíram muito para o crescimento recente de popularidade deste filme entre a cultura de memes. Não é raro encontrar edits de Bateman ao som de The Perfect Girl de Mareux, parodiando a cultura de “macho alfa”.

O personagem passa a maior parte do filme indo para baladas caras, analisando as tendências da moda dos anos 80, fazendo exercícios e perseguindo mulheres comprometidas. Longe dos olhos de seus pares, os anseios tradicionais de um executivo de Wall Street ególatra dão lugar ao seu lado criminoso e extremamente perverso. 

O elenco é notável, principalmente para uma produção com poucos recursos. Faz muito sentido o fato de que Christian Bale, o Batman da Geração Z, assuma o lugar do protagonista: Pat Bateman é Bruce Wayne se você extirpar ele de qualquer senso de moralidade, justiça e empatia pelos seus pares, deixando apenas um ego apessoado. Também vemos um jovem Jared Leto, cuja contribuição inesquecível para a trama é receber um golpe de machado na cabeça na cena mais famosa do filme. Ele interpreta Paul Allen, que serve como uma espécie de antagonista ao instalar ciúmes em Bateman pelo fato de ser levemente mais rico. 

  1. Sobre o livro
Imagem: Editora Darkside

Título original: American Psycho

Autor: Bret Easton Ellis

Editora: Darkside

Número de páginas: 432

A primeira diferença notável entre o filme e o livro que o inspirou é o tom. Se o filme poderia se passar por uma comédia absurdista com estética de filme de terror, o livro parece mais uma crítica social deprimente.

A narrativa se passa quase inteiramente em primeira pessoa. A partir disso, o leitor que assistiu o filme antes de ler o livro poderia ser induzido a pensar que, no material original, teríamos uma percepção mais aprofundada da mente do protagonista. No entanto, não é o caso.

Em todas as suas 432 páginas, existem pouquíssimos momentos do personagem no qual ele reflete sobre o peso de suas ações. A leitura é essencialmente monótona, o que não quer dizer entediante. Os momentos de introspecção são extremamente pontuais.

De fato, os únicos momentos que estimulam minimamente o leitor a continuar ouvindo as crônicas deste serial killer são quando ele deixa seu lado selvagem e cruel ser liberado. Aqui está outra grande diferença: a constante tensão lúgubre e consumação de atos horrorosos também são marcas importantes no filme, mas raramente a violência é explícita ao ponto de causar choque no telespectador. A matança no livro é bem mais gráfica, criativa e descritiva. 

Para ilustrar este ponto, o melhor exemplo deve ser o da própria cena da machadada na cabeça do Jared Leto. Enquanto no longa a cena que antecede o homicídio consiste num monólogo tragicômico no qual Patrick Bateman explica seu amor pela banda de rock pop Huey Lewis and the News antes de desferir o golpe, no livro a cena se desenrola de maneira um pouco mais sombria: Paul Allen está no apartamento de Patrick meio ébrio falando sobre as mesmas aleatoriedades superficiais de sempre. Apesar de estar literalmente na frente dele com um machado na mão, Allen não percebe a presença de Bateman. O golpe é desferido então, narrado de forma extremamente detalhista e grotesca. 

No filme, não vemos o golpe em si porque a câmera corta para outro ângulo, mostrando apenas uma poça de sangue. A brutalidade dos atos do protagonista é, na grande maioria dos casos, apenas insinuada.

Essa cena expõe aquela que é, a meu ver, a grande questão destas obras. Bateman é tão bem-sucedido e destacado em seu meio que a sua identidade se mescla com a de seus pares ao ponto de torná-lo absolutamente indistinguível. Com todas as suas conquistas, ele se torna uma figura irreconhecível. Paul Allen não consegue ver que ele está à frente de seu carrasco prestes a morrer porque Patrick é simplesmente invisível.

Isto se nota principalmente em como o livro trata da questão do nome próprio. Os personagens do romance frequentemente confundem os nomes dos seus amigos, veem pessoas na rua e lhes atribuem um nome que provavelmente não é o correto e todo personagem fora o protagonista parece ser exatamente a mesma pessoa porque ninguém tem personalidade própria. Esta última constatação é especialmente verdadeira para as personagens femininas, que servem apenas como objeto para os desejos vis de Bateman.

O próprio Bateman é frequentemente confundido com outras pessoas, fato do qual ele se aproveita para torturar e dar um fim às suas vítimas sem ser pego.

Em meio à egolatria de cada indivíduo deste mundo, não existe uma só pessoa que se destaque de verdade. Navegando neste oceano de incógnitos, nosso anti-herói mata de maneira indiscriminada e ninguém parece perceber. Não existe conquista, reconhecimento ou crime hediondo nesse mundo que o livre do mais puro anonimato, o que lhe gera um sentimento de insignificância completamente desolador.

Não quero dar spoilers, mas essa dinâmica da morte da identidade é o que vai selar o destino de Patrick Bateman. É o ostracismo existencial que marca seu trágico fim.

Publicado por Rocco Gasparini

Imagem: ABC News

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