Por Luana Monte Alves 

Ouso dizer que o observador incansável da vida é um cronista, mesmo que suas análises não venham a preencher um papel. Entendo a complexidade. Fujo dela sempre que posso. Mesmo que paradoxalmente, como um lembrete, deixo sempre ao meu lado um papel ou caderno, ali à minha disposição. Para, quando me vier alguma dose de coragem, escrever… No decorrer dos dias, percebo que esses lembretes acabam sendo acobertados por listas de supermercados, números de telefones, boletos, assinaturas, panfletos e propagandas. Uma alusão verdadeira ao retrato da vida urbana em toda a sua complexidade: muito a fazer, muito a pagar e pouco tempo para sentir. E se você não sente, você não escreve. Daí vem o sufoco. 

Bom, mas… por que crônica? 

Porque a crônica, além da conversa sincera com o leitor, é o único momento em que o cronista escuta a si mesmo, internaliza e poetiza as suas anotações, que até então, em sua cabeça, são vistas como banalidades. Afinal de contas, existe banalidade maior do que escrever sobre o desgaste do cotidiano? A fim de quebrar esse paradigma, hoje me escuto enquanto converso com você.

Existe, de fato, uma certa perseguição ao acidental… é preciso parar para escrever, mas como desacelerar sem se sentir levado pela correnteza? Um sentimento de contrafluxo é inerente a quem escreve. Não quero, com isso, tornar penoso o ato da escrita e observação cotidiana, muito pelo contrário, seu caráter desafiador aguça os aventureiros literários. 

Reside um certo conforto edificante em todo esse processo de pausar a vida e extrair histórias. Sentir o cheiro da madrugada, sentir-se perdido na imensidão de viver sufocado por prédios. A inquietude política dilui em mais uma noite vazia… cinza… com poucos carros nas ruas, janelas que colorem a cidade… vidas solitárias ou não… complexas ou banais. Mais uma luz que se apaga. Bancas de revistas, vendedores de rua… por que, então, escrever sobre a desarrumação da vida urbana?

Cabe a mim responder a essa pergunta. Entendo São Paulo como uma grande orquestra que precisa ser ouvida, apreciada… para isso, é necessário que se pause a música no celular, o rádio, as vozes. E escute… o grito de um estranho na rua, o barulho constante de ambulâncias, helicópteros, buzinas de motos e carros. Lá, bem distante, será possível escutar o barulho de uma criança, funcionários de carreta de mudanças… suspirar e entender que você precisa se ouvir também.

Hoje eu me ouvi e escrevi.

Publicado por Carlos Roberto Parra


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