Por Larissa Sousa 

Em 2020, a Amazon Prime lançou, como produção original, o longa intitulado “The sound of metal”, que foi traduzido para português como “O som do silêncio”. Numa primeira impressão, ao ler a sinopse, parece ser mais uma história de superação das várias já contadas por Hollywood, mas após assistir ao filme, é fácil perceber que é muito mais que isso, merecendo— e muito— a indicação ao Oscar recebida. 

“O som do silêncio” conta a história do personagem Ruben, um baterista de uma banda de rock pesado, enquadrando-se no padrão de personagem “punk” já construído no imaginário popular. As primeiras cenas o mostram tocando bateria na banda formada por ele e sua namorada, Lou, mostrando-nos, em seguida, que os dois vivem juntos em um trailer, numa espécie de vida cigana. O casal roda os Estados Unidos em uma turnê para prover a banda. Após esta introdução, a temática do filme é inserida: Ruben acorda, certo dia, e percebe que sua audição não está em perfeito funcionamento. Nesta cena, é possível perceber uma das grandes “sacadas” do filme: a perspectiva do personagem é passada para os espectadores por meio do próprio som do filme. Utilizando-se de coisas aparentemente simples, mas que conseguem passar com perfeição o sofrimento do personagem: ele não consegue ouvir os sons que estão presentes em sua rotina, como o som da máquina de café, o som do liquidificador e o som de sua bateria. 

Percebendo sua nova condição, Ruben procura ajuda médica, por meio da qual é informado de que perdeu quase totalmente sua audição e que, apesar de haver uma cirurgia para reverter seu quadro, tal procedimento não lhe devolveria sua audição como ele conhecia antes, além de ser muito caro. Ao contar para Lou, o casal discute sobre o que fazer a seguir e vai para uma espécie de centro de acolhimento para pessoas com deficiência auditiva. Entretanto, ao chegar lá, descobrem que uma das prerrogativas para participar do centro é que Ruben fique lá sozinho. Assim, Lou vai embora e Ruben, contrariado mas acalmado pela promessa de que sua namorada esperaria que ele “passasse por essa fase”, fica no centro.

É nesse local que boa parte da narrativa se desenvolve, mostrando todo o processo de aceitação do personagem com sua nova condição. Como mencionado anteriormente, a delicadeza do filme está na forma como a experiência do personagem é passada ao espectador: por meio do som, agora mostrando como Ruben lida com sua nova realidade. Ele aprende linguagem de sinais, aprende a conviver com outras pessoas com a mesma característica que a dele e acaba encontrando um momento de felicidade em meio ao caos que está vivenciando.

Entretanto, ele continua com o objetivo de retomar sua audição, de forma a assim conseguir cumprir a promessa feita a namorada e voltar a encontrá-la. Após certo tempo no centro de acolhimento, Ruben consegue juntar dinheiro para realizar o procedimento que supostamente lhe devolveria a audição, decisão que toma sem comentar com seus colegas do centro. 

Depois que os implantes foram instalados, Ruben percebe que, apesar de efetivamente conseguir ouvir de novo, sua audição não era como antes, como o primeiro médico tinha lhe dito. A perspectiva do personagem que é passada para os espectadores por meio do som agora se dá em um som estridente e inquietante, mostrando, assim, o conflito que o personagem sofre: retornar para uma vida sem som e aceitar sua nova realidade, abandonando sua paixão pela bateria, ou conviver com os sons deturpados gerados pelos implantes, que lhe permitem viver apenas parcialmente sua realidade anterior. 

Não bastasse, Ruben, após se reencontrar com Lou, percebe que, apesar de ele ter cumprido com sua parte na promessa, ela não cumpriu, já que ela não o aceita em sua nova condição, com ou sem implante, dando um gostinho para os espectadores sobre o preconceito vivido pelas pessoas com deficiência auditiva.  

“O som do silêncio” aborda um assunto de extrema importância com uma delicadeza que eu, como espectadora, encontrei poucas vezes em longas metragens, sendo assim, um grande concorrente ao prêmio de melhor filme. O ator, Riz Ahmed, também entrega uma atuação impecável, conseguindo transmitir, muitas vezes em silêncio, tudo o que o personagem está vivenciando.

Apesar de não ser meu lugar de fala, como pessoa sem deficiência, acredito que o filme aborde a temática com respeito e de forma a passar para os espectadores um pouco da experiência que muitas pessoas têm como realidade, a qual diversas vezes é alvo de preconceito. “O som do silêncio”, com certeza, é um dos meus preferidos dos filmes indicados ao Oscar e, sem dúvida,  merece todas as indicações que recebeu. Aos que ainda não assistiram, recomendo fortemente que assistam!

Publicado por Larissa Sousa


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