Desde 2017, a Academia de Letras dos Estudantes da Universidade Mackenzie (ALEMack), instituição fundada em 1956, passou a ter uma coluna semanal no JP3. Toda segunda-feira, um acadêmico publicará um texto abrindo os trabalhos da semana. Hoje o JP3 publica o texto de Luiza Paz (cadeira nº 26 – Patrono Cecília Meireles), aluna da Faculdade de Direito Mackenzie. Saiba mais sobre a ALEMack clicando aqui e curta a página no Facebook (aqui).

 

O Que a(mar) deixou em nós ou uma conversa sobre laços

Luiza Paz

– É isso então?

– É isso.

– Quanto tempo você acha que vai levar?

– Uma meia hora, eu acho…

– É, provavelmente.

– Você vai levar embora a cafeteira ?

– Não… pode ficar com ela.

– Hum… E  aquele cobertor vermelho, vai levar?

– Vou…

– Ok. E o abajur do escritório?

– Para…

– Com o que?

– Não é sobre as coisas… é sobre nós.

– (silêncio)

– É sobre pra onde nós vamos.

– Onde você acha que foi ?

– Não sei…

– Se eu tivesse que dar um palpite diria que foi desde do inicio.

– Como assim?

– Acho que não era pra ter dado certo.

– Mas deu certo, por um tempo, funcionou.

– Foi a tua insistência. Você pegou no pé do destino até ele abrir as mãos, uma para cada lado, e dizer “ok, você venceu”.

– A culpa foi minha, então.

– Não foi isso que eu disse… Talvez não fosse pra ser pra sempre sabe. O destino só te deu uma trégua…

– Achei que você não acreditava em destino.

– Nunca acreditei, até te conhecer.

– O que você quer disso, Nina?

– Queria só saber onde deu errado.

– (silencio)

– E aquele cactos que nós ganhamos de natal, posso ficar com ele?

– Talvez tenha sido morar junto sabe, a gente caiu na rotina e ficou chato.

– Essa é a vida, toda a humanidade cai na rotina num momento da vida.

– Talvez, nós tenhamos ido muito rápido.

– É estranho observar a gente agora né? Você mal consegue olhar pra mim.

– Dói um pouco, sabe?

– Dói muito.

 – Às vezes, acho que não deu tempo de te dizer tudo.

– (silêncio)

– Eu mantenho uma imagem na minha cabeça: era nosso primeiro mês juntos, tínhamos vindo passar o fim de semana na praia. Você, deitado nos lençóis brancos, olhando pra mim enquanto eu sentava no parapeito da janela. Sua pele estava bronzeada, o vermelho nas bochechas, bem embaixo dos olhos.

– Nós tínhamos esquecido o protetor…

– As ondas quebravam e a maresia enchia meu pulmão. E junto com um raio de luz que vinha de fora, eu te enxerguei. E tive certeza, que você era feito de areia e água salgada.

– Eu lembro das suas pernas balançando, você cantava algo baixinho… Seu cabelo grudava no rosto, você fumava um cigarro, mania idiota que eu nunca entendi.

– (ri)

– Você parecia um sonho.

– Nunca amei ninguém, como eu amei você.

– Dói pra caramba.

– (silêncio)

– Você lembra daquele bar que a gente encontrou? Na beira da praia?

– Com aquele cara que tocava reggae? A gente ficou lá a noite toda..

– Engraçado isso, né ?

– O que ?

– Terminar tudo assim, de frente pro mar. Com ninguém sabendo onde errou..

– Sempre imaginei que nós terminariamos de forma diferente.

– Não imaginei que a gente terminaria.

– Quando eu era criança meu pai me dizia que se eu nadasse com vontade, poderia chegar na África. Achava isso tão legal, ficava tentando enxergar um pedacinho de terra no horizonte…. imaginando como era a vida do outro lado.

– Quando a gente é criança tudo parece mais fácil.

– Acho que vou indo.

– Fica mais um pouco, deixa o sol sumir…

– Acho que amor é isso mesmo né? De repente acaba e a gente não sabe o que colocar no vazio que se forma aqui dentro.

–  (silêncio)

– Quero viajar, conhecer algum lugar diferente, talvez o Peru, ou a América Latina toda…

– Você ia gostar do Atacama… à noite você consegue enxergar as constelações, o céu é tão limpo…

– O que você vai fazer?

– Procurar um apartamento, comprar um cafeteira nova…

– Hum… Quanto tempo você acha que vai levar?

– O sol tá sumindo já…

– E a dor aqui dentro?

 

alemack