Desde 2017, a Academia de Letras dos Estudantes da Universidade Mackenzie (ALEMack), instituição fundada em 1956, passou a ter uma coluna semanal no JP3. Toda segunda-feira, um acadêmico publicará um texto abrindo os trabalhos da semana. Hoje, o JP3 publica o texto de Felipe Pereira Gallian, aluno da Faculdade de Direito do Mackenzie que ocupa a cadeira nº. 27 (Patrono Miguel de Cervantes Saavedra). Saiba mais sobre a ALEMack clicando aqui e curta a página no Facebook (aqui).

 

Os Césares de nosso tempo

Por Felipe Pereira Gallian

Em 1866, um jovem estudante russo chamado Rodion Românovitch Raskólnikov assassinou brutalmente uma velha senhora agiota, em sua própria casa, na calada da noite. Ao que tudo indicava, o delito parecia ter sido motivado por conta da negativa por parte da vítima de penhorar um certo objeto de propriedade do assassino, em troca de algumas notas de rublos, das quais o homem dizia tanto necessitar. Todavia, aqueles que tiveram a oportunidade de ler o romance Crime e Castigo, do autor russo Fiódor Dostoievski, sabem que a razão do crime foi outra, e não guardava relação alguma com questões patrimoniais. O delito fora cometido para comprovar uma complexa teoria elaborada pelo estudante durante seus anos na universidade.

Segundo o jovem Raskólnikov, a sociedade é dividida entre pessoas ordinárias e extraordinárias. O primeiro grupo pertence aos sujeitos que, incapacitados por sua condição natural de “normalidade”, estão destinados a viver a vida seguindo estritamente a lei e as normas sociais da sociedade da época. Já o segundo grupo, os sujeitos extraordinários, são aqueles os quais as normas sociais e as leis de Estado não se aplicam, aqueles que possuem a capacidade de transgredir a sociedade para um novo patamar. Dostoievski, em sua obra, cita nomes como Napoleão Bonaparte e Júlio César como exemplos da categoria extraordinária, aqueles os quais a lei não se aplica, os que estão acima de qualquer norma ou regra social, fazendo com que um assassinato, por exemplo, se torne justificável e até mesmo, em algumas situações, um mal necessário.

Se pararmos para refletir, hoje em dia esta teoria continua fazendo um enorme sentido e podemos dizer que é bastante aplicável em nossa sociedade. Quem são os Césares de nossa época? A resposta para esta pergunta pode ser identificada facilmente, basta observar quem são aqueles que estão acima da lei, aqueles os quais as normas não se aplicam, ou são redigidas em seu favor. Não precisam necessariamente carregar o título de monarca, ditador ou presidente para passarem por cima da lei. Vemos políticos, empresários poderosos e multimilionários se livrando de castigos e ocultando seus crimes, com a ajuda daqueles que supostamente trabalham para a Justiça. Estes são os intocáveis, aqueles os quais as leis não se aplicam, ou até mesmo são redigidas em seu favor.

Hoje não é necessário cometer um assassinato para comprovar a efetividade desta teoria elaborada pelo jovem Raskólnikov, basta ficar atento aos jornais e aos noticiários para ver que a prática já superou a teoria, que a impunidade e a injustiça prevalece. Todavia, ainda assim existe uma força contraria. Os que fazem parte do grupo dos “ordinários” já não podem mais ser denominados desta maneira, pois cada vez mais essas pessoas tomam consciência de tudo o que as rodeia. A blindagem dos extraordinários já é algo inaceitável e absurdo para a sociedade, que cem cada vez mais descobrindo como incomodar a cúpula cada vez mais. Porém, por mais que os esforços sejam grandes, esta revolução ainda está muito verde, pois os grupos ordinários tendem a se dividir e a brigar entre eles, esquecendo assim o real motivo da luta. Enquanto isso, os extraordinários permanecem em seus tronos, em seus palácios e templos.

Estaremos nós fadados a viver ordinariamente para o resto de nossas vidas? Haveria algum outro meio para transgredir as normas e as regras sociais para um outro nível, sem que este movimento seja direcionado por pessoas extraordinárias? Essas são perguntas difíceis de se responder. Trata-se de uma teoria que ainda não foi colocada em prática.

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