A coluna que, sem dúvida, fez mais sucesso e teve mais acessos nesse primeiro ano do JP3, a “Direito-Mack pelo Mundo“, depois de passar por Munique (aqui), NY (aqui), Haia (aqui) e Londres (aqui), fecha 2017 com uma entrevista mais do que especial.

Formada em Direito pelo Mackenzie em 2012, a advogada Adriana Ferreira Tavares, especialista em Direito Administrativo pela FGV, sempre manteve grande participação na vida acadêmica mackenzista e hoje faz LLM na pela Cornell University. Abaixo, você confere o bate-papo do JP3 com a mackenzista.

JP3 – Primeiro, conte-nos um pouco da sua experiência de estudar e viver o Mackenzie.

Adriana – Só tenho lembranças boas do Mackenzie. Foi a faculdade que escolhi desde o início, lá fiz grandes amigos e conheci meu marido, que também é advogado. Estudar no Mack sempre foi algo que almejei e por isso tentei aproveitar ao máximo cada experiência acadêmica e estudantil, fiz todas as aulas que pude, cursei matérias eletivas, fui aos jogos jurídicos e festas do Direito, interagi com outros estudantes de outros cursos e me aproximei de professores que hoje viraram meus amigos e ajudam em minha carreira acadêmica e profissional. Também tive a feliz oportunidade de estagiar desde o segundo semestre, fato que me fez ter uma visão muito ampla do que o Direito pode nos oferecer. Não tenho dúvidas que minha escolha pelo Mack foi certeira.

JP3 – Como era sua vida profissional e acadêmica no Brasil antes de viajar?

Adriana – A questão financeira sempre foi um problema para mim. Isso foi um dos motivos que me fez trabalhar desde o início da faculdade. Infelizmente eu não tive bolsa, então tanto o salário quanto a certeza de que colheria as experiências necessárias num estágio foram pontos cruciais que me fizeram trabalhar desde cedo. Sendo assim, estagiei no TRF, em escritórios grandes e pequenos, na AGU. Atualmente estou trabalhando no escritório TozziniFreire advogados, no qual atuo como advogada na equipe de direito público e infraestrutura, desde 2013.

A vida acadêmica também foi algo que sempre me trazia curiosidade. Durante a faculdade participei de vários grupos de estudo e foi num deles me despertou o interesse pela área que atuo hoje. Depois de terminar a faculdade fui convidada pela professora Lilian Pires para integrar o então recém formado Grupo de Estudos de Direito Administrativo. Minha participação no grupo começou como monitora auxiliar e depois passei a auxiliar na coordenação das aulas, chegando até a ministrar algumas aulas e coordenar debates. Participo do grupo até hoje e já conseguimos desenvolver uma diversidade de projetos paralelos, grupos de pesquisa e outros trabalhos que renderam até publicações em livros e periódicos.

JP3 – Por qual motivo decidiu ir estudar fora?

Adriana – A ligação entre Direito e estudar fora para mim inicialmente era algo que não poderia caminhar junto. Mas a vontade nunca me faltou. Tão logo eu entrei no TozziniFreire, percebi que o mundo do Direito é algo muito mais amplo, interdisciplinar e globalizado do que imaginamos quando estamos na faculdade. Descobri que é possível atuar com clientes internacionais em todas as áreas do direito e foi aí que despertou minha vontade de estudar fora do país. Felizmente meu escritório tem uma política encorajadora aos advogados que optam por isso, o que facilita a coleta de informações e a segurança da manutenção do seu emprego, já que durante minha ausência o contrato de trabalho foi suspenso. Em 2015 comecei a pesquisar sobre mestrado, especializações e LL.M. e a partir daí comecei a colocar meu plano em prática.

JP3 – Como se deu a escolha pela instituição e pelo país?

Adriana – Inicialmente pensei em locais que conseguisse atrelar minha área de atuação e o valor do curso próximo ao que eu poderia pagar e isso se resumia à Europa, especialmente região da Itália e países baixos. Porém, o foco mudou quando passei a ter uma orientação do escritório – que me patrocinaria em certa medida – e que, portanto, precisaríamos alinhar foco da universidade, do país e dos locais em que eu poderia conjugar uma boa instituição de ensino com o favorecimento de negócios relevantes ao escritório. O resultado disso foi a mudança de foco para o eixo EUA e Londres, países que falam a língua inglesa e cujo sistema jurídico é o common law. Particularmente, a escolha da instituição deve ser algo muito bem pensado e sopesado não apenas considerando questões financeiras e profissionais, mas sim considerando uma visão de longo prazo daquilo que o advogado (ou juiz, promotor, funcionário público, etc) pretende fazer nos próximos anos.

JP3 – Como foi o processo seletivo?

Adriana – Basicamente, para a grande maioria de cursos de especialização e mestrado profissionais no exterior o processo seletivo é bem parecido e se resume ao seguinte: prova de proficiência de inglês (TOEFL ou IELTS) juntamente com a coleta, organização, tradução e envio da documentação à respectiva faculdade. A prova de proficiência de inglês, no meu caso foi o TOEFL, para isso precisei reforçar minhas aulas de inglês e focar no estilo da prova. Já a questão documental, eu fiz sozinha por meio de solicitações as entidades de ensino que cursei. Normalmente os documentos consistem em: histórico escolar, certificado de aprovação, comprovação de ranking, comprovação de pratica jurídica, diploma de aprovação na OAB, elaboração de um “personal statement” por universidade, solicitação de ao menos 2 cartas de recomendação acadêmicas e 2 profissionais, tudo isso em vias originais e acompanhadas da respectiva tradução juramentada. Hoje há, inclusive, serviços de coaching e assessoria especialmente focados para isso, já que o tempo médio de preparação de tudo gira em torno de 1 ano. Especialmente para as faculdades dos Estados Unidos, há uma plataforma chamada LSAC que coordena e compila o envio da documentação e que o candidato precisa, além de pagar as taxas, estar familiarizado com ela.

JP3 – Conte-nos um pouco da Cornell Law School.

Adriana – Cornell foi fundada em 1865 e a Law School é uma faculdade que completou 130 anos de existência em 2017. Cornell faz parte das chamadas Ivy League schools, que consistem em 8 escolas muito tradicionais dos Estados Unidos conhecidas por excelência, seletividade, elitismo e extraordinário desempenho nos esportes. (mais info veja aqui) Além de Cornell ter sido pioneira na graduação do primeiro estudante negro e da primeira mulher nos Estados Unidos, como toda Ivy League, ela é reconhecida por seus suntuosos prédios e instalações que faz você se sentir em Hogwarts (fotos do campus aqui). Seu campus fica na cidade de Ithaca, no norte do estado de Nova Iorque (aqui). Cornell prega a diversidade e integração e isso é uma das coisas mais fascinantes por aqui, a política é “open door” o que faz com que os professores e todos funcionários sejam mais acessíveis, então algo que é muito contagiante logo quando se chega aqui é o clima de acolhimento que deixa qualquer estudante muito feliz. E por fim, para uma apaixonada pelo Mack, a cor do logo e mascote da faculdade não poderia ser outra senão vermelho e branco.

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JP3 – O que vem sentindo de mais diferente entre o ensino no Brasil e nos Estados Unidos?

Adriana – Nos Estados Unidos, o método de ensino é diferente do Brasil pois aqui as escolas (e principalmente as universidades) aplicam o chamado método “socrático”, que consiste basicamente no desenvolvimento do pensamento crítico provocado por meio de debates e questionamentos. Esse é um dos motivos pelos quais os professores sempre perguntam aos alunos durante as aulas (as chamadas “cold call”, que seria o equivalente a nossa chamada oral do Brasil). Em decorrência do método ser diferente, isso exige uma carga de leitura bem pesada e muita preparação antes das aulas, exige também uma postura mais proativa do aluno que deve pensar o direito de forma mais global e menos conceitual.

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JP3 – Como vem sendo a adaptação a um novo país?

Adriana – A adaptação em qualquer país é algo difícil e ao mesmo tempo desafiador. Tarefas simples como ir ao supermercado passam a ser grandes aventuras por conta do idioma e dos costumes diversos. Além disso, morar fora exige mais coragem no sentido de ser mais aberto para pedir ajuda e informações a respeito daquilo que você não sabe o que é. Diferentemente do Brasil, os norte-americanos se importam muito com detalhes, cumprimento de horários e prazos. A interação com estudantes de outros países também faz parte da adaptação e exige uma mente aberta a diversos costumes, riquezas culturais, gírias, comidas e hábitos diversos. Uma dica valiosa é pedir conselhos e ajuda para amigos ou pessoas que já vieram para o país que você está indo para que desse modo a acomodação e adaptação seja mais suave.

JP3 – Qual conselho/dica daria para quem tem interesse de estudar fora do país?

Adriana – A dica mais importante seria resumida em duas palavras: planejamento e coragem. É preciso se planejar para passar um tempo fora do país em vários sentidos: financeiramente, profissionalmente e psicologicamente. Uma vez que está escolhido o destino, é importante estudar o local, saber dos costumes, bairros, horários e o que mais a cidade tem a lhe oferecer. Se o plano é estudar fora, é importante aliar os objetivos a longo prazo e o que você pretende fazer após a conclusão dos estudos, e isso inclui atenção, por exemplo, na seleção tanto da faculdade quanto das matérias que o estudante pretende cursar. Outra dica valiosa é conhecer o clima do lugar, não são poucas as histórias de desistência e depressão por conta da mudança brusca de temperatura e mesmo que isso pareça bobagem, questões como frio e diferença do fuso horário afetam sim a rotina das pessoas. Entretanto, de um modo geral, estudar e morar fora de seu país é uma experiência enriquecedora em todos os sentidos e que deveria ser feita por todos para expandir os horizontes e aprender coisas novas através das diversas culturas do mundo.