Orgulho e Resistência: A Jornada do Povo Cigano no Brasil e no Mundo

Raízes Milenares: De Onde Vieram os Ciganos?

O povo cigano é originário do noroeste da Índia, região onde começaram a migrar há cerca de mil anos. A diáspora cigana atravessou séculos e continentes, espalhando-se por todo o mundo. No entanto, a palavra “cigano” não representa um grupo homogêneo: existem diversos subgrupos, com culturas e idiomas próprios.

Os principais grupos ciganos são:

  • Rom (ou Roma): o mais numeroso, presente em toda a Europa e América Latina;
  • Sinti: com presença marcante na Alemanha, França e Itália;
  • Kalé: mais comuns na Espanha e Portugal, onde são conhecidos como “gitanos”;
  • Manush, Dom, Lom: entre outros, cada qual com características culturais únicas.

Apesar das variações, todos compartilham um legado de oralidade, espiritualidade forte, apego à família, e uma tradição de resistência frente à exclusão social.

Ciganos no Brasil: Chegada e Dispersão

No Brasil, os primeiros ciganos chegaram por volta do século XVI, deportados de Portugal sob acusação de vadiagem, bruxaria e roubo. Ainda hoje, o estigma os acompanha. Estima-se que existam mais de 800 mil ciganos no país, embora o número exato seja incerto, muitos não se identificam como tal nos censos por medo de preconceito.

Estão espalhados por todos os estados, mas têm maior presença em Minas Gerais, Bahia, Goiás, Pernambuco, Maranhão e no Nordeste como um todo. Vivem tanto em acampamentos móveis quanto em áreas urbanas, muitas vezes invisíveis à sociedade.

A diversidade entre os ciganos brasileiros é grande, mas predominam dois grupos principais:

  • Calon: falam uma mistura de português com termos do dialeto caló; muitos vivem em barracas móveis ou em comunidades fixas e seguem tradições ligadas à oralidade e à arte da palavra.
  • Rom: falam o romani e preservam uma estrutura social mais rígida, com casamentos arranjados e códigos éticos internos.

Cultura Viva: Música, Dança, Religião e Sabedoria Ancestral

Ser cigano é carregar consigo uma bagagem cultural vasta. A música e a dança são elementos centrais: as palmas marcadas, os violões, os violinos e os passos vigorosos celebram a vida e a resistência. Na Espanha, o flamenco nasceu da fusão entre cultura cigana e andaluza. No Leste Europeu, os violinos ciganos encantam com melodias intensas.

A espiritualidade cigana é plural e flexível. Muitos ciganos professam religiões majoritárias, como o catolicismo, o islamismo, ou religiões evangélicas, mas sem abandonar seus santos, guias e práticas espirituais próprias. Em países como o Brasil, há forte relação com tradições afro-brasileiras, especialmente a Umbanda, onde existem linhas espirituais ciganas cultuadas com respeito e devoção.

Outra faceta importante é o saber oral. Os ciganos têm profunda sabedoria popular sobre ervas, cura, leitura de mãos, tarô e astrologia, práticas que ainda hoje os tornam conhecidos como místicos e conselheiros.

Preconceito e Invisibilidade: Uma Luta Contínua

Apesar da riqueza cultural, o povo cigano enfrenta um dos mais arraigados preconceitos do mundo. Em muitos países, são vistos como “vagabundos”, “trapaceiros”, “sujos” ou “perigosos”. Essas ideias, fruto de séculos de estigmatização, alimentam políticas discriminatórias, perseguições e até genocídios, como o Porajmos, extermínio de ciganos pelo regime nazista, que matou cerca de 500 mil pessoas.

No Brasil, o preconceito é igualmente forte. Muitas escolas recusam matrícula de crianças ciganas, e há casos de remoção forçada de acampamentos por autoridades locais. O acesso à saúde, à educação e a políticas públicas é extremamente limitado. A maioria vive na informalidade, enfrentando pobreza, insegurança alimentar e violência policial.

“Quando dizemos que somos ciganos, já nos olham diferente”

Afirma Ana Cláudia Kalon, ativista e professora. 

“As pessoas acham que vamos roubar, enganar, mas somos mães, pais, estudantes, artistas. Queremos respeito.”

Resistência e Orgulho: Um Futuro a Ser Conquistado

Apesar das dificuldades, o povo cigano segue resistindo. Em vários estados brasileiros, comunidades ciganas têm se organizado politicamente. Há ciganos: advogados, médicos, professores, lideranças comunitárias e artistas que usam a própria identidade como ferramenta de transformação.

A aprovação do Dia Nacional do Cigano foi um marco simbólico, mas ainda distante de garantir cidadania plena. Em 2021, o IBGE incluiu pela primeira vez a categoria “cigano” como autodeclaração em seus registros, um passo importante para a visibilidade. No entanto, faltam políticas públicas específicas e ações de combate ao preconceito institucional.

Na literatura, autores como Ronald Diniz, Aline Calon e Anderson Rom têm produzido obras que desconstroem os estereótipos e resgatam a memória do povo cigano no Brasil. Na arte, o protagonismo também vem crescendo, com dançarinas, cineastas e músicos usando suas criações para afirmar suas raízes.

Espiritualidade Cigana: A Ancestralidade e a Fé Afro-Brasileira

Na Umbanda, os ciganos ocupam um lugar especial como uma linha espiritual independente e profundamente respeitada, composta por entidades que representam a sabedoria, a liberdade e a ancestralidade do povo cigano. Conhecidos por sua forte ligação com a natureza, com a magia e com os mistérios da vida, os Ciganos e Ciganas da Umbanda são guias espirituais que atuam com alegria, sensualidade, firmeza e um profundo senso de justiça. 

Suas manifestações são geralmente alegres, com danças, lenços coloridos, castanholas, tarôs e perfumes, símbolos que remetem à riqueza cultural dos povos ciganos. Apesar de não representarem necessariamente espíritos de ciganos étnicos, essas entidades carregam arquétipos ligados à liberdade, à intuição e ao poder feminino e masculino equilibrados. 

Trabalham em rituais voltados à cura, à prosperidade, ao amor, à abertura de caminhos e à resolução de conflitos, sempre com profundo respeito à individualidade e ao destino de cada pessoa. Cultuar a linha dos ciganos na Umbanda é também honrar uma ancestralidade de resistência, magia e sabedoria que atravessou séculos de perseguição com a cabeça erguida e o coração em festa.

24 de Maio: Mais do que uma Data, um Chamado à Reflexão

Celebrar o Dia Nacional dos Ciganos é reconhecer a existência, a resistência e a beleza desse povo. É um convite à escuta, ao diálogo e à construção de uma sociedade mais justa. É, sobretudo, um lembrete de que os direitos humanos não podem ser seletivos.

Neste 24 de maio, que se ouçam as vozes ciganas. Que suas histórias sejam contadas por eles mesmos. Que possamos, enfim, substituir o preconceito pelo respeito. Porque, como dizem os próprios ciganos: “Enquanto houver música e memória, o povo cigano viverá.”

Fontes: Instituto Cigano do Brasil, IBGE, ONU Brasil, entrevistas com lideranças ciganas, artigos de antropologia e estudos culturais.

Publicado/Escrito/Editado/Publicado por Bruno M.Z.A.S.B de Castro


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