A Universidade que Cala: A Violência Simbólica do Padrão Acadêmico Branco Elitista

“A academia continua sendo um espaço que escolhe quem pode falar e sobre o que se pode falar.” 

A frase, dita por Ana Paula Brandão, pesquisadora e professora negra da área de educação, não é apenas um desabafo: é o retrato de uma universidade que ainda opera sob a lógica da exclusão. Em pleno 2025, a estrutura do ensino superior brasileiro segue ancorada em um modelo eurocentrado, branco e elitista, que impõe barreiras invisíveis, mas potentes, aos saberes negros, indígenas, periféricos e populares.

Essa exclusão, muitas vezes, não se dá por proibições explícitas, mas por mecanismos sutis e profundamente enraizados: o que o sociólogo francês Pierre Bourdieu denominou violência simbólica. Trata-se da imposição de uma visão de mundo dominante como universal e legítima, desvalorizando e silenciando outras formas de conhecimento.

O Legado Colonial da Universidade Brasileira

A universidade no Brasil nasceu como um projeto colonial. As primeiras instituições de ensino superior, ainda no século XIX, foram formadas para educar a elite branca, masculina e proprietária. O modelo europeu foi importado sem mediações, sem levar em conta os contextos culturais e epistemológicos locais.

Embora o país tenha avançado em termos de acesso, sobretudo com políticas públicas como o Prouni, o FIES e as cotas raciais, a estrutura simbólica da universidade permanece pouco alterada. Ainda é comum que currículos sejam quase inteiramente compostos por autores europeus, que bibliografias obrigatórias excluam pensadores negros e indígenas, e que trabalhos acadêmicos que tragam perspectivas decoloniais enfrentem resistência nos comitês avaliadores.

A Linguagem como Muro

Uma das principais barreiras simbólicas está na linguagem acadêmica. O rebuscamento, os jargões técnicos, a estrutura rígida dos textos científicos e o desprezo pelo uso da oralidade ou da escrita afetiva criam um ambiente hostil para saberes que nascem de outras formas de expressão.

“Se você escreve um artigo em que se emociona, em que se coloca, dizem que não é ‘científico’. Mas o que é essa ciência que exclui a subjetividade, o corpo, a vivência?”

Questiona Juliana Nogueira, mestranda quilombola em Antropologia Social.

Além disso, muitos estudantes negros, indígenas e periféricos enfrentam julgamentos e desprezo por sua forma de falar ou escrever. O português “correto”, que reflete um padrão linguístico branco, de classe média, se torna um instrumento de exclusão.

O Tema Também É um Lugar de Poder

Outro ponto de violência simbólica está na definição dos temas de pesquisa que são considerados relevantes ou válidos pela academia. Estudos sobre saberes tradicionais, cultura popular, espiritualidades afro-brasileiras ou epistemologias indígenas são frequentemente vistos como “exóticos”, “subjetivos” ou “ativistas”, e por isso recebem menos apoio, financiamento ou reconhecimento.

“Quando uma pessoa branca estuda os povos indígenas, é vista como antropóloga. Quando um indígena estuda seu próprio povo, é visto como militante”

Diz Arissana Pataxó, doutora em Artes Visuais e professora da Universidade Federal da Bahia.

Essa diferença de tratamento revela o racismo epistêmico, termo cunhado por pensadores de-coloniais como Boaventura de Sousa Santos e Sueli Carneiro, que denuncia como os saberes do Sul global são sistematicamente deslegitimados.

Quem Está Dentro e Quem Está Fora

Apesar das cotas terem transformado o perfil das universidades públicas, ainda há uma sub-representação de pessoas negras, indígenas e periféricas nos cargos de poder: menos de 2% dos docentes universitários são indígenas, e cerca de 10% são negros, segundo dados do Censo da Educação Superior.

O impacto disso é profundo: falta representatividade nos conselhos, nas bancas avaliadoras, nos grupos de pesquisa, nos editais. A produção acadêmica continua sendo comandada, majoritariamente, por um grupo social branco, masculino e de classe média alta, que dita o que é ciência, o que é dado e o que é “opinião”.

O Custo Emocional da Permanência

Muitos estudantes cotistas relatam o sofrimento psíquico e emocional de “habitar um espaço que não foi feito para eles”. Sentem-se constantemente colocados à prova, obrigados a provar que “merecem estar ali”.

Em um estudo feito pela Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), mais de 70% dos entrevistados relataram ter sofrido discriminação simbólica no ambiente acadêmico, desde piadas até questionamentos sobre a validade de seus temas de pesquisa.

“Você sente que precisa se encaixar o tempo todo. Precisa falar como eles, escrever como eles, pensar como eles. Isso adoece a gente”

Diz Rafael Lima, doutorando em Letras e ativista.

Os Saberes que Resistiram

Apesar de todas essas barreiras, há um movimento crescente de resistência e reinvenção dentro da própria universidade. Grupos de pesquisa decoloniais, coletivos negros e indígenas, eventos acadêmicos alternativos e a inclusão de autores como Lélia Gonzalez, Abdias do Nascimento, Ailton Krenak, Djamila Ribeiro e Grada Kilomba nas bibliografias têm tensionado as estruturas tradicionais.

“Estamos reescrevendo a universidade por dentro”

Afirma Carla Akotirene, pensadora e militante.

Mas não é fácil. Cada passo é uma disputa, cada espaço é uma conquista coletiva.”

Iniciativas como a Cátedra de Saberes Indígenas, o Festival de Conhecimentos Periféricos e os programas de extensão voltados para comunidades tradicionais têm buscado criar brechas no muro da academia.

Para Além da Inclusão: É Hora de Recriar

Muitos dos entrevistados são unânimes em dizer que não basta “incluir” negros, indígenas e pobres na universidade. É preciso transformar radicalmente as estruturas do saber. A luta, dizem, não é apenas por presença, mas por poder.

Isso implica mudar os critérios de avaliação científica, reformular os currículos, diversificar os corpos docentes e, acima de tudo, valorizar outras epistemologias.

“Queremos uma universidade em que a ciência da favela, do quilombo e da aldeia tenha o mesmo valor da ciência do laboratório”

Afirma Anderson Fernandes, educador e pesquisador da Baixada Fluminense.

Caminhos Possíveis

Embora o desafio seja imenso, algumas propostas vêm sendo debatidas e experimentadas:

  • Reforma dos Currículos: inclusão obrigatória de autores negros, indígenas, periféricos e do Sul Global em todas as áreas do conhecimento.
  • Pluralização dos Métodos Científicos: aceitação de metodologias orais, afetivas, narrativas e colaborativas.
  • Formação Docente Antirracista: capacitações obrigatórias sobre racismo estrutural, epistemicídio e equidade acadêmica.
  • Valorização das Experiências Comunitárias: inserção de saberes populares e práticas territoriais nos cursos.
  • Apoio financeiro e psicológico para permanência estudantil: especialmente para estudantes cotistas e de primeira geração universitária.

O Fim da Universalidade Branca

A universidade brasileira está diante de um dilema: manter-se como um bastião do saber branco e elitista, ou se abrir de verdade para a pluralidade de vozes, corpos e mundos que formam o país.

Romper com a violência simbólica do padrão acadêmico não é apenas uma questão de justiça social. É também uma condição necessária para que o conhecimento produzido aqui seja, de fato, relevante, situado e transformador.

Enquanto isso, como afirma a escritora Conceição Evaristo: 

“Eles combinaram de nos matar. Mas a gente combinou de não morrer.”

Publicado/Editado/Escrito/Desenhado por Bruno M.Z.A.S.B.C.

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