Geração Z no Mercado de Trabalho

Cada geração é influenciada por seu contexto histórico, social, tecnológico e cultural, o que molda suas visões de mundo e forma como interagem com a realidade. No caso da geração Z (ou gen-z), composta pelos chamados ‘nativos digitais’, nascidos entre 1995 e 2010, essa influência se dá de maneira ainda mais marcante devido à crescente ubiquidade da tecnologia digital. Diferente das gerações antecedentes, esta cresceu imersa em dispositivos eletrônicos, mídias sociais e acesso instantâneo à informação, o que causa impacto em suas perspectivas, habilidades e comportamentos — sobretudo no mercado de trabalho.

Constantemente conectados, a gen-z se apresenta consciente e participativa das questões políticas e sociais; utiliza as redes como cenário de conciliação e (re)construção. Ora, “a capacidade de interagir com diversos assuntos ao mesmo tempo aumentou, e a vontade de mudar o mundo em que vive tem se tornado o carro chefe dessa geração. O formal não tem mais espaço, a hierarquia não faz mais muito sentido, as organizações estão sendo criticadas e questionadas sobre o seu papel na sociedade.”; discorre Bruna Faria (2016) em um trabalho da Universidade de Brasília (UnB). À vista disso, eles demonstraram uma preocupação com a igualdade de gênero, diversidade, justiça social e questões ambientais.

Por meio das mídias sociais, utilizam sua voz para promover mudanças e desafiar as normas padronizadas. Faria (2016) assevera, ainda, que “as redes sociais ganharam uma importância na vida desses jovens que antes nenhuma outra geração tinha presenciado. É tudo compartilhado no ambiente virtual, de conhecimentos científicos a postagens banais. […] a Geração Z é bombardeada por todas as formas de conteúdo o tempo todo”. Um exemplo notável desse engajamento virtual é Greta Thunberg, ativista que mobilizou seus protestos em frente ao Parlamento sueco aos oito anos de idade, exigindo ações dos políticos em prol do meio ambiente. Desde 2011, as manifestações de Greta inspiraram muitos jovens a reivindicar o combate à crise climática em seus próprios países, através das redes sociais.

Greta Thunberg reivindica o combate à crise climática. Ela exige ações imediatas e efetivas por parte dos governos e líderes mundiais para enfrentar a emergência climática.

Mais do que os aspectos tecnológicos e sociais, outras características pertinentes aos indivíduos dessa geração são discutidas, como é o caso da sua integração ao mercado de trabalho. Para a geração Z, “há um interesse mais agudo, evidentemente, em torno aos problemas das relações sociais do trabalho e das formas de regulação do emprego”, comenta Ladislau Dowbor (2012) em seu livroO que acontece com o trabalho?’, que faz uma análise do trabalho no Brasil. Logo, ingressam ao mercado de trabalho buscando um ambiente semelhante ao que estão acostumados: um mundo interconectado, receptivo a inovações, com comprometimento social, dinâmico e globalizado.

A geração mais jovem presente no mercado de trabalho na atualidade, todavia, encontra múltiplos desafios: conflitos geracionais, por exemplo. O mercado de trabalho atual é composto por diferentes gerações: os baby boomers (nascidos entre 1940 e 1960), a geração X (nascidos entre 1961 e 1977), geração Y (nascidos entre 1978 e 1992) e a supramencionada geração Z. Os baby boomers são aqueles que vieram depois da Segunda Guerra Mundial, enquanto a geração X é conhecida por não ter uma identidade clara e ser a primeira geração a vivenciar mudanças significativas no mercado de trabalho. Já a geração Y, é ambiciosa e cresceu em um ambiente tecnológico. “A realização de trabalhos em equipes compostas por membros das diferentes gerações pode gerar conflitos, haja vista as divergências de opiniões e interesses inerentes de cada geração”, é o que diz um periódico da Universidade de São Paulo (USP).

Além dos conflitos geracionais, a geração Z assume novas acepções do trabalho e elabora, com o apoio das redes sociais, dois movimentos: quart quited [demissão silenciosa] e great resignation [a grande renúncia]. O primeiro, é um fenômeno que leva a máxima “eu trabalho para viver; não vivo para trabalhar”. Quiet quitting é um termo em inglês que descreve a recente percepção em que os colaboradores continuam entregando resultados de qualidade, mas fazendo o esforço mínimo necessário. Ou seja, o conceito envolve a prática de realizar apenas o mínimo necessário em relação às responsabilidades da função.

Já no conceito da grande renúncia [great resignation], ocorre de fato a solicitação de saída, porém torna-se um fenômeno coletivo no qual as pessoas deixam seus empregos de forma voluntária e em massa. Essa tendência apontou que, apenas em agosto de 2021, 4,3 milhões de pessoas pediram demissão nos Estados Unidos. Os pedidos de demissão em massa têm forte relação com o quiet quitting. “As pessoas passaram a procurar por mais equilíbrio na vida pessoal com a profissional”, aponta uma matéria da CNN.

Capa do álbum RENAISSANCE – Beyoncé. Novos movimentos do mundo do trabalho rebatem na cultura pop.

Ambos os movimentos são fomentados nas redes sociais e debatidos na cultura pop. Em Break My Soul, lead-single do álbum Renaissance, Beyonce, cantora americana de influência mundial, implora aos ouvintes que se libertem de suas 9-5, dizendo:

Now, I just fell in love, and I just quit my job [agora, eu acabei de me apaixonar e de largar meu emprego]

I’m gonna find new drive, damn, they work me so damn hard [vou encontrar um novo propósito, caramba, eles me fazem trabalhar tanto]

Work by nine, then off past five [começo a trabalhar às nove, e passo das cinco]

And they work my nerves, that’s why I cannot sleep at night [e eles me estressam, é por isso que não consigo dormir à noite]

A artista aborda pontos-chave que fundamentam os argumentos de muitas pessoas que optam por deixar voluntariamente seus empregos. A canção destaca questões como o burnout, que estão no cerne da mensagem. “Break My Soul”, de Beyoncé, agora está sendo reconhecida como a trilha sonora do movimento de demissões. No refrão, a cantora encoraja as pessoas a seguirem seus corações e deixarem seus empregos que não as remuneram adequadamente ou não as valorizam como deveriam.

Em resumo, a geração Z está deixando sua marca no mercado de trabalho e na sociedade como um todo, inclusive, redefinindo suas expectativas e exigências. Por meio de movimentos como o “quart quited” e “great resignation”, a gen-Z busca um equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, valorizando sua qualidade de vida e procurando trabalhos que estejam alinhados com seus valores e propósitos. Esses movimentos são impulsionados pelas redes sociais e pela cultura pop, onde figuras influentes amplificam as vozes dessa geração e inspiram outros a seguirem seu exemplo.

À medida que a geração Z continua a ingressar no mercado de trabalho, é essencial que as organizações estejam dispostas a adaptar suas estruturas e práticas para atender às expectativas dessa geração. Com suas habilidades tecnológicas, mentalidade inovadora e compromisso com questões sociais, essa geração tem o potencial de impulsionar mudanças positivas e transformadoras nos ambientes de trabalho e na sociedade em geral. “As organizações precisam compreender que, quando se trata de novas gerações ingressando no ambiente de trabalho, é necessário diminuir as incompatibilidades entre os valores pessoais e os organizacionais”, perfaz Bruna Faria (2016).

Publicado por Lucas Ramos


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Um comentário em “Geração Z no Mercado de Trabalho

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  1. Bem interessante o texto Lucas Ramos! Seria legal ler pensando numa perspetiva de Brasil, se realmente é um fato isso ser característico desta geração, a quem pertece esse direito de abandonar o trabalho? Penso eu que o estudante e o brasileiro “classe média” normalmente não tem realmente essa escolha de abandonar o trabalho. De quem esses dados estão falando? Haha quem é essa geração z que é permitida no capitalismo abrir mão do trabalho. Nada contra esses movimentos inclusive adoraria que todos pudessem ter essa escolha e é bom este tipo de movimento reverberar em grandes mídias, mas fico pensando a origem destes dados. Otimo texto!

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