Por Larissa Sousa

Qual é a imagem consolidada no imaginário popular quando pensamos em guerra? Fiz uma busca rápida com a palavra “guerra” no Google e apareceram milhares de fotos de homens fardados e equipados, formando exércitos variados, todos com armas na mão, em meio a locais assolados. É uma imagem parecida com essa que vem à minha mente quando penso em guerra e imagino que um processo semelhante deva ocorrer no imaginário popular também. Bom, pelo menos era essa a imagem que vinha à minha mente antes da leitura do livro vencedor do prêmio Nobel de 2015, “A guerra não tem rosto de mulher”, da autora Svetlana Alexijevich. 

A narrativa expõe uma face da 2ª Guerra Mundial que na grande maioria das vezes é omitida: a da participação das mulheres. A autora desmistifica a ideia de que as mulheres teriam “ficado em casa” durante a guerra enquanto os homens teriam ido para a linha de frente, mostrando um cenário muito, mas muito diferente disso. A obra coleta diversos relatos de mulheres que, de alguma maneira, participaram da guerra em suas diversas formas: o combate armado propriamente dito; a função das enfermeiras, das cozinheiras, das responsáveis pela comunicação, das motoristas dos veículos de combate; dentre tantas outras ocupações militares que são deixadas de lado quando se dá a construção das memórias relacionadas a este evento.

Mas o que quer dizer “a guerra não tem rosto de mulher”, além do fato de que a participação feminina é deixada de lado na História? Quer dizer que a guerra retirou de milhares de mulheres o mínimo do que é considerado feminino, pois, naquele cenário, apesar da imensa participação, elas nunca foram consideradas efetivamente parte dos militares, o que fica evidenciado, por exemplo, por meio da ausência de equipamentos de proteção, roupas, sapatos, dentre outros itens, voltado às participantes. Esta despreocupação com a efetiva proteção das mulheres quanto ao âmbito instrumental da guerra demonstra que, naquele contexto, a guerra “não era coisa de mulher”, apesar de grande parte dela ter se dado em função da participação feminina.

Créditos: Companhia das Letras

Ademais, não bastasse o panorama exposto acima, os relatos das sobreviventes da guerra escancaram o horror vivido em decorrência única e exclusivamente de ser mulher durante a guerra: mulheres que tiveram que escolher entre matar seus próprios filhos recém-nascidos ou deixar que o exército inimigo os matasse; mulheres que foram repetidamente estupradas, tanto pelos próprios militares aliados, quanto pelos inimigos, sendo que tal atrocidade era considerada como algo “natural”; mulheres que viram suas identidades destruídas no pós-guerra, em decorrência da não aceitação pela sociedade de uma mulher que tivera ido ao front, apesar das condecorações militares recebidas; dentre tantas outras cenas de barbárie. 

Vale um destaque especial para a contribuição das mulheres como enfermeiras e médicas durante a guerra, pois, como mencionado inúmeras vezes durante os relatos, elas foram as responsáveis por salvar milhares de pessoas e por manter a esperança na vida mesmo diante da constante presença da morte.

Aliás, o tema morte é de extrema recorrência ao longo da obra, mas não da forma como eu, leitora, esperava encontrar, e sim em um cenário repleto de reflexões existenciais e poéticas, por exemplo, mesclando o horror de ver uma pessoa pisar em uma granada e a barbárie de carregar corpos no meio de um campo de guerra com as cores do céu, as saudades dos filhos e da família e do amor que sentiam por alguém. 

Amor. Este foi um tema que eu imaginava que encontraria bem menos ao longo da obra, mas que, felizmente, é bem recorrente. Apesar da desolação vivenciada diariamente pelas militares, o amor, seja à própria pátria que estavam defendendo durante a guerra, seja pela família, pelos filhos, por pessoas que conheceram nos campos de batalha, é assunto constante nos relatos. 

Assim, “a guerra não tem rosto de mulher” é uma obra agridoce, com relatos capazes de escancarar a natureza das mulheres que participaram da guerra, evidenciando sua coragem e bravura em meio aos horrores do cotidiano, em meio à constante ameaça da morte, ao mesmo tempo em que foram capazes de manter a essência eminentemente humana, mesmo em um cenário em que tudo e todos as forçaram a abandoná-la.

Publicado por Larissa Sousa


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