Por July Samary Araujo e Júlia Vitorino Lobo

O ano de 2020 foi atípico e desafiador em diversos aspectos para todos nós. Ocorre que, uma determinada parcela da população, além de ter de lidar com todos os obstáculos trazidos pela pandemia, também teve que enfrentar diversas brutalidades causadas pelo racismo que estrutura nossa sociedade. Propomos, a partir deste artigo, um breve apanhado dos principais casos de racismo e injúria racial noticiados que afligiram a população negra em 2020, e quais reflexões nos restaram enquanto sociedade, provenientes de tais eventos indigestos.

Logo no início do ano, nos deparamos com um caso ocorrido em um colégio particular de Maceió, em que uma diretora teria promovido um ato racista ao sugerir que alunos levassem chicote de couro para lembrar à professora negra do tempo da escravidão. Segundo relato da vítima, a diretora teria tentado se justificar afirmando que tudo não passava de brincadeira e que não seria racista, visto que havia contratado a vítima como professora, não optando por uma professora branca para a função. O referido colégio se posicionou por meio de uma nota de repúdio.

Ainda, tivemos a chocante notícia da funcionária de uma empresa do ramo automobilístico que teve seus pulsos amarrados aos de seus superiores com uma fita crepe. Eles “desfilaram” com ela pela linha de produção para demonstrar aos demais funcionários o que ocorreria com “empregados fujões”. O episódio teria ocorrido porque a funcionária saiu mais cedo no dia anterior. A 7ª Câmara do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região condenou a empresa ao pagamento de R$ 180.000,00 a título de indenização por danos morais.

No mês de maio, não podemos deixar de mencionar o caso emblemático da morte de George Floyd (“Floyd”), homem negro de 46 anos em Minnesota, nos Estados Unidos, assassinado durante uma abordagem policial. O vídeo, que viralizou nas redes, mostra um policial branco ajoelhado no pescoço de Floyd, enquanto este está algemado e de bruços no chão, dizendo repetidamente que não conseguia respirar. Os peritos, em autópsia independente, concluíram que Floyd morreu na cena do crime, por asfixia mecânica. O episódio lembra o que aconteceu com Eric Garner, um homem negro que morreu ao ser preso em 2014 em Nova York. Garner repetiu “não consigo respirar” 11 vezes. A morte de Floyd desencadeou protestos em todo o mundo contra o racismo e a violência policial.

Ainda com relação ao caso supramencionado, ressaltamos o comentário racista do fundador da marca Crossfit, Greg Glassman, em seu perfil no Twitter, por meio do qual relacionou a pandemia de coronavírus aos protestos antirracistas que ocorreram nos Estados Unidos após a morte de Floyd, por policiais brancos. O Crossfit, modalidade e marca esportiva com crescimento meteórico, entrou numa crise sem precedentes. A empresa perdeu mais de 1.000 academias afiliadas, além de patrocinadores e apoiadores.

Vale mencionar também um exemplo do impacto que a pressão social pode ter: uma fabricante de produtos de limpeza anunciou a retirada da marca de esponja de aço “Krespinha” do mercado após ser acusada de racismo nas redes sociais. Usuários afirmaram que o nome do produto remetia aos cabelos crespos, o que levou a empresa a ficar entre os tópicos mais comentados naquela data. Ocasião em que foi lembrado que, na década de 1950, a publicidade de uma esponja de aço com o mesmo nome trazia a imagem de uma criança negra e fazia alusão a seu cabelo.

No mês de agosto, um jovem de 18 anos foi abordado por policiais militares dentro de uma loja de roupas em um shopping na Ilha do Governador, RJ, ao tentar trocar um relógio. Os homens arrastaram o jovem desde a loja até uma escadaria, onde o agrediram covardemente. Segundo relatos, a vítima sequer teve a oportunidade de mostrar sua identidade ou a nota fiscal do relógio antes de ser agredida. Tanto o shopping quanto a loja de roupas se isentaram da responsabilidade pelas agressões.

O racismo atinge todas as esferas, a exemplo do dito melhor ginasta negro da história do Brasil, Ângelo, que perdeu seu emprego após denunciar casos de racismo na corporação. Segundo o ginasta, as ofensas se intensificaram nos últimos dois anos, até que decidiu procurar a comissão de esportes do Pinheiros para denunciar o caso. Essa, por sua vez, se manifestou por meio de uma nota de repúdio, mas especificamente sobre os supostos ataques racistas relatados por Ângelo nos últimos anos, disseram que “não há evidências fáticas que o referido atleta tenha sofrido qualquer ato discriminatório nas dependências do clube ou fora delas”. Segundo a reportagem, uma fonte de dentro do clube confirmou que Ângelo sofria racismo.

A reprodução do racismo se faz presente inclusive no Poder Judiciário, cabendo trazer à memória, o caso da juíza da 1ª Vara Criminal de Curitiba que citou a raça de um réu negro para proferir uma sentença de condenação por organização criminosa. Houve processo disciplinar contra a juíza, o qual foi arquivado pela Corregedoria-Geral do Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR), a decisão foi tomada pelo Órgão Especial do TJ-PR por unanimidade. Na argumentação dos votos, os desembargadores concluíram que não houve intenção discriminatória ou racista por parte da magistrada. A juíza mencionou três vezes a raça do réu em trecho da sentença. Entre as justificativas para valorar a pena do réu, a juíza afirmou que ele era seguramente integrante do grupo criminoso “em razão da sua raça”. Após repercussão, ela pediu desculpas e disse que frase foi tirada de contexto.

Em outubro, a co-fundadora de um banco digital afirmou que teria dificuldade de encontrar candidatos negros adequados para as exigências das vagas na empresa. Ela disse ainda que investe em programas de formação gratuitos, mas que não poderia “nivelar por baixo”.  Após a repercussão negativa nas redes sociais, o banco emitiu uma nota se desculpando e prometendo uma reparação histórica.

Às vésperas do dia em que é celebrado o Dia da Consciência Negra, uma data símbolo da luta contra a opressão racial em nosso país, uma pessoa negra foi vítima de homicídio qualificado nas dependências de um dos supermercados de uma grande rede na região norte de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. A morte de João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, se deu após ter sido espancado por dois seguranças, e o registro, capaz de provocar gatilhos, ocorreu por meio de um vídeo que se tornou viral nas mídias. O primeiro resultado da necropsia feita pelos peritos indicou morte por asfixia.

Já no fim de um ano tão desafiador para todos, o Tribunal Superior do Trabalho condenou uma rede de laboratórios a pagar indenização por danos morais à uma ex-funcionária após sugerir que ela fizesse escova em seu black power, prendesse os fios ou os deixasse “da forma mais discreta possível”, de modo a “manter uma aparência agradável para os clientes”. Por meio de nota, a rede disse que vai recorrer da decisão, pois a decisão não refletiria seu comportamento ético e de respeito às pessoas.

Estes são apenas alguns dos inúmeros casos de racismo ocorridos em instituições brasileiras. Conforme leciona Silvio Luiz de Almeida (2018, 27p.): “o racismo – que se materializa como discriminação racial – é definido pelo seu caráter sistêmico. Não se trata, portanto, de apenas um ato discriminatório ou mesmo de um conjunto de atos, mas de um processo em que condições de subalternidade e de privilégio que se distribuem entre grupos raciais se reproduzem nos âmbitos da política, da economia e das relações cotidianas.”

Ainda, os conflitos raciais também são parte das instituições, sendo elas de âmbito público ou privado. Sendo assim, as instituições são apenas a materialização de uma estrutura social ou de um modo de socialização que tem o racismo como um de seus componentes orgânicos. E cabe a nós, enquanto sociedade, questionar até quando essas situações serão recorrentes e até que ponto as medidas tomadas estão sendo efetivas.

Para além das notas de repúdio e comoção pública momentânea quando os escândalos surgem, são necessárias medidas institucionais a longo prazo e permanentes a fim de combater efetivamente o racismo. Contrapondo os casos expostos até o momento, podemos mencionar instituições que adotaram medidas efetivas contra o racismo em 2020, se demonstrando serem antirracistas na prática e não somente nas redes sociais.

A direção da Nascar, principal categoria de automobilismo dos Estados Unidos, por exemplo, suspendeu o piloto Kyle Larson, da Chip Ganassi, por um comentário racista durante uma transmissão ao vivo de uma corrida virtual. Pouco tempo depois, o piloto foi demitido de sua equipe.

Outro bom exemplo de medida antirracista ocorreu em uma unidade do McDonald’s na cidade de Guangzhou (ou Cantão), na China, que foi temporariamente fechada após proibir a entrada de pessoas negras. De acordo com a reportagem, relatos de racismo teriam aumentado na cidade com rumores de casos do novo coronavírus importados da África.

Aqui no Brasil, a rede Magazine Luiza se destacou por selecionar apenas candidatos negros como medida de ação afirmativa em seu programa de trainees, após constatar que de 53% da equipe composta por pretos e pardos, apenas 16% ocupavam cargos de liderança. A grande repercussão nas redes sociais, com críticas positivas e negativas, contribuiu para aumentar sensivelmente o número de inscritos, superando 22,5 mil candidatos. Com uma oferta maior, a empresa vai contratar 19 trainees, em vez de cerca de 10, como o habitual.

Também se destacou o banco Itaú ao realizar mudanças em seu processo seletivo, como adotar o “currículo às cegas” para focar apenas nas habilidades e capacidades dos candidatos. As mudanças resultaram na contratação de 50% de negros e 63% de mulheres em seu programa de trainee.

Outro caso que pode ser considerado um marco foi o Ato na Champions que uniu negros e brancos em marco da luta antirracista no futebol. No jogo entre PSG e Istanbul Basaksehir, o ato de racismo foi praticado por membro do quadro da arbitragem, algo que não é incomum. Aquele que deveria zelar pela aplicação da lei e da ordem cometeu um crime que não passou impune graças à indignação do atacante Demba Ba.

Para além das medidas imediatas de contenção de crise, esses são exemplos de posições que podem ser adotadas para um combate efetivo ao racismo em 2021. O fato é que não há volta quanto à pauta racial e não regrediremos enquanto sociedade: no âmbito tecnológico e das redes sociais, até mesmo o racismo presente nos algoritmos tem sido questionado. A tendência é que as empresas se posicionem e adotem verdadeiramente uma postura antirracista, pois é certo que haverá cobrança por parte da sociedade.

Publicado por Leonardo Mariz

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