De quem é a América? Bad Bunny no Super Bowl

A presença de Bad Bunny no Super Bowl desencadeia reflexões que ultrapassam os limites da música e do entretenimento esportivo. Trata-se de um episódio que ilumina uma questão central da cultura contemporânea: quem pode ocupar os espaços de maior visibilidade global e sob quais critérios tal ocupação é considerada legítima. Em um espetáculo conhecido pela noção homogênea de identidade norte-americana, a atuação de um artista latino, cantando majoritariamente em espanhol, opera como ponto de tensão, ao evidenciar disputas em torno do reconhecimento simbólico.

Foi nesse contexto que a apresentação de Bad Bunny no Super Bowl LX, realizado em 8 de fevereiro de 2026, adquiriu dimensão política e cultural. Pela primeira vez, um artista latino conduziu o show do intervalo sem adaptar seu idioma ou sua estética artística às expectativas tradicionais do mercado cultural estadunidense. O repertório, a construção visual e a narrativa do espetáculo incorporaram referências explícitas à cultura latino-americana, deslocando o eixo simbólico do evento e desafiando convenções historicamente consolidadas.

Esse gesto dialoga com a trajetória de Benito Antonio Martínez Ocasio. Conhecido como Bad Bunny, o artista consolidou-se enquanto um dos principais expoentes da representação latina global justamente por rejeitar a lógica da assimilação cultural como condição para o reconhecimento internacional. Seu êxito não se construiu a partir da neutralização de suas raízes, mas da afirmação de uma matriz caribenha e periférica, que reivindica visibilidade ao trazer para o centro do debate temas marginalizados, acerca do colonialismo, imigração e desigualdade social.

Não obstante, referida postura foi mais do que expressiva durante a apresentação. Em um dos momentos mais emblemáticos, Bad Bunny ergueu uma bola de futebol americano com a inscrição “Juntos, somos a América” e, após declarar “God bless America”, passou a citar países do continente, propondo uma leitura ampliada do próprio conceito de América. O gesto foi acompanhado por um telão com a frase “A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”, reforçando o caráter simbólico de uma performance que deslocou o espetáculo do mero entretenimento para o campo da afirmação identitária.

No entanto, como era de se esperar, as reações foram imediatas e de forte polarização, com críticas ao uso do espanhol e à presença de símbolos considerados alheios à tradição do evento, sob o argumento de que a apresentação teria rompido com a suposta unidade cultural associada ao Super Bowl. Nesse contexto, parlamentares do Partido Republicano chegaram a solicitar à Comissão Federal de Comunicações (FCC) a aplicação de multas e sanções contra o artista, executivos da NFL e a emissora NBC, alegando que o show do intervalo teria incluído conteúdos considerados “obscenos” para a televisão aberta.

Esse desconforto, contudo, longe de tratar-se de um fenômeno isolado, reflete a lógica estrutural segundo a qual expressões culturais latinas são aceitas como produto de consumo, mas pouco reconhecidas como centrais ou protagonistas. Quando um artista como Bad Bunny ocupa um espaço de destaque, o debate deixa de ser estético e passa a envolver a disputa simbólica sobre quem pode representar “a América”.

.Nos Estados Unidos, onde a população latina cresce de forma contínua, mas permanece sub-representada nos espaços de poder político, a ascensão de Bad Bunny tensiona narrativas pré-estabelecidas sobre pertencimento. Nesse sentido, falar de sua presença no Super Bowl é tratar não apenas de representação, mas também de resistência. Isso implica reconhecer que a cultura latina não se encontra à margem do que se entende por América, mas integra a própria formação histórica e cultural do continente.

Por Manoela Muniz


Referências:

ALMEIDA, Alexandre. Bad Bunny no Super Bowl LX: crítica e análise do show que levou a cultura latina ao centro do palco. Omelete, 9 fev. 2026. Disponível em: https://www.omelete.com.br/musica/bad-bunny-show-super-bowl-lx-critica-analise.

G1. Bad Bunny no Super Bowl: entenda os principais momentos do show que enfureceu Trump. 9 fev. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/noticia/2026/02/09/bad-bunny-no-super-bowl-entenda-os-principais-momentos-do-show-que-enfureceu-trump.ghtml.

LUCAS, John. Republicanos pedem multas e até prisão de Bad Bunny e executivos da NFL após show do Super Bowl. Gazeta do Povo, 10 fev. 2026. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/republicanos-pedem-multas-e-ate-prisao-de-bad-bunny-e-executivos-da-nfl-apos-show-do-super-bo

LUCAS, John. Republicanos pedem multas e até prisão de Bad Bunny e executivos da NFL após show do Super Bowl. Gazeta do Povo, 10 fev. 2026. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/republicanos-pedem-multas-e-ate-prisao-de-bad-bunny-e-executivos-da-nfl-apos-show-do-super-bowl/.


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