Assistir a uma série hoje raramente significa prestar atenção total nela. O episódio roda na TV, enquanto o espectador responde mensagens, rola o feed, vê memes ou checa notificações no celular. Esse hábito ganhou nome: second screen — o uso de uma segunda tela enquanto se consome conteúdo audiovisual.
O problema começa quando essa distração deixa de ser um comportamento do público e passa a ditar como as séries são escritas.
Explicações demais e menos narrativa
Nos últimos anos, especialmente nas produções da Netflix, cresceu a sensação de que os personagens não confiam mais na inteligência do espectador. Eles explicam tudo. Repetem informações. Narram ações óbvias. Transformam conflitos complexos em diálogos didáticos, quase como se estivessem falando com alguém que não está realmente assistindo.
E talvez estejam.
Stranger Things 5 e o roteiro que explica demais
A quinta temporada de Stranger Things virou um exemplo simbólico desse fenômeno. Parte do público e da crítica percebeu algo estranho: cenas longas de personagens dizendo exatamente o que está acontecendo, o que vão fazer e por que aquilo importa — muitas vezes logo após o espectador já ter visto tudo isso acontecer na tela.
A crítica levantada por veículos internacionais é direta: o roteiro parece escrito para quem está olhando o celular, não para quem está realmente acompanhando a narrativa.
Segundo relatos reunidos pela imprensa estrangeira, roteiristas passaram a ouvir recomendações para tornar as histórias “mais claras”, “mais acessíveis” e “mais fáceis de acompanhar”. Na prática, isso se traduz em menos sutileza, menos silêncio, menos confiança na imagem e mais exposição verbal.
Não é que o público tenha ficado menos capaz de entender histórias. É que as plataformas parecem assumir que ele não está mais disposto a tentar.
Quando a série vira fundo de tela
A Netflix nunca confirmou oficialmente uma política de “roteiros para distraídos”. Mas a coincidência entre o comportamento do público e o estilo das produções chama atenção.
A lógica é simples: se o espectador consome séries como um som de fundo enquanto mexe no celular, o conteúdo precisa sobreviver mesmo sem atenção total. Isso favorece histórias mais lineares, diálogos explicativos e conflitos menos complexos.
O resultado? Séries que funcionam mesmo quando você perde metade das cenas, mas que raramente recompensam quem presta atenção de verdade.
A crítica mais dura é essa: o streaming estaria trocando profundidade por retenção, complexidade por acessibilidade e inteligência narrativa por métricas de engajamento.
Ilusão de estratégia ou hábito cultural?
Nem todo uso de segunda tela é negativo. Em fenômenos culturais como Stranger Things, ela também serve para expandir a experiência: playlists, redes sociais, teorias de fãs, vídeos curtos e conteúdos paralelos mantêm o público conectado ao universo da série.
O problema surge quando essa lógica sai do marketing e entra no roteiro.
Em vez de criar histórias que convidam à atenção, algumas produções parecem aceitar — e até incentivar — a distração. O espectador não precisa mais interpretar, lembrar ou conectar pontos. O personagem faz isso por ele.
Estamos ficando mais burros ou só mais distraídos?
A pergunta que fica não é apenas sobre a Netflix, mas sobre o que estamos aceitando como público.
Séries sempre refletiram seu tempo. Hoje, refletem um mundo fragmentado, acelerado e permanentemente distraído. A questão é se queremos que elas acompanhem esse ritmo ou se ainda esperamos que nos desafiem a desacelerar.
Porque quando uma série precisa explicar tudo o tempo todo, talvez o problema não seja só o espectador que olha o celular — mas a indústria que decidiu parar de exigir atenção.
E isso, para quem ainda gosta de boas histórias, é um sinal preocupante.
por Clara Neiva
Referências
- Creative Labour & Critical Futures — The second screen phenomenon and narrative exposition
https://creativelabourcriticalfutures.ca/blog/icymi-the-second-screen-phenomenon-or-why-it-feels-like-stranger-things-s5-is-just-characters-explaining-things-to-each-other-over-and-over-again/ - The Week — Netflix and the second screen phenomenon
https://theweek.com/culture-life/tv-radio/netflix-and-the-second-screen-phenomenon - The Guardian — ‘Not second screen enough’: is Netflix deliberately dumbing down TV so people can watch while scrolling? https://www.theguardian.com/tv-and-radio/2025/jan/17/not-second-screen-enough-is-netflix-deliberately-dumbing-down-tv-so-people-can-watch-while-scrolling
- National — The rise of the second screen and Stranger Things
https://www.national.ca/en/perspectives/detail/the-rise-of-the-second-screen-and-stranger-things/
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