(imagem promocional do filme)
Internes Can’t Take Money (1937), dirigido por Alfred Santell, é uma obra que condensa mais ideias e emoções do que o tempo de tela parece comportar. A trama, movimentada e marcada por reviravoltas melodramáticas, carrega a energia típica dos dramas de estúdio da década de 1930, período em que o cinema norte-americano se reinventava em meio às ruínas deixadas pela Grande Depressão.
Historicamente, o cinema sempre buscou criar uma conexão emocional com o espectador. Durante os anos 1930, as produções se ancoravam em narrativas fortes, centradas em pessoas comuns que haviam perdido tudo após a Queda da Bolsa. Nos anos 1940, o foco se deslocou para os heróis de guerra: soldados que retornavam para casa e mulheres que assumiam papéis de força e certa autonomia. Já na década de 1950, em um contexto de relativa estabilidade no pós-guerra, observamos a ascensão dos romances e de histórias ambientadas em cenários mais pacíficos e idealizados. Dentro dessa trajetória, Internes Can’t Take Money busca dar conta de um país inteiro tentando se reconstruir moral e economicamente.
Portanto, situar o filme no contexto de sua produção é essencial para compreender sua força simbólica. O colapso da Bolsa de 1929 redefiniu não apenas a economia dos Estados Unidos, mas também sua cultura popular. A indústria cinematográfica, que ainda buscava se consolidar culturalmente e tecnicamente após a transição para o cinema falado, passou a enxergar valor em histórias que dialogavam diretamente com o público trabalhador: homens e mulheres marcados pelo desemprego, pela instabilidade financeira e pela perda de fé no chamado “sonho americano”. Nesse cenário, Internes Can’t Take Money se torna mais do que um simples melodrama, mas sim um retrato de solidariedade, sofrimento e tentativa de redenção em tempos de crise.
A própria narrativa do filme reflete esse espírito. O jovem médico idealista, pobre e recém-formado, enfrenta uma série de dilemas éticos e profissionais em um sistema que parece punir justamente aqueles que tentam agir com humanidade. Sua decisão de ajudar uma mulher que não pode pagar por uma consulta não é tratada como exceção moral, mas como sintoma de um contexto social cruel. Os acontecimentos do filme são consequência direta da miséria, do desemprego e da ausência de redes de apoio.
O longa também constrói um panorama duro do mercado de trabalho da época. Empregos são escassos, instáveis e frequentemente desumanizantes; personagens transitam entre funções provisórias, humilhações e concessões morais na tentativa de sobreviver. A medicina, que poderia representar ascensão social e prestígio, aparece atravessada por limitações econômicas e pressões institucionais. Assim, o médico, interpretado por Joel McCrea, luta para manter intacta a própria integridade.
Nesse sentido, ele encarna um desejo coletivo de cura, não apenas física, mas social. Além de representar a esperança de que ainda seja possível agir com empatia em um mundo organizado pela escassez. Internes Can’t Take Money captura o espírito de uma América exausta, mas ainda esperançosa, tentando reencontrar humanidade em meio às próprias contradições.
No caso da personagem de Barbara Stanwyck, Janet Haley, essa lógica se manifesta de forma particularmente cruel. Mulher pobre e solitária, que foi ao hospital cuidar de uma queimadura que ocorreu durante o trabalho, Janet vive à margem da estabilidade mínima exigida pelo mercado. Em sua tentativa desesperada de reencontrar a filha que lhe foi roubada ainda bebê, ela se atrasa duas horas para o emprego – atraso suficiente para justificar sua demissão imediata. É com a ajuda do médico, o Dr. Jimmie Kildare, que Janet eventualmente consegue encontrar a criança.
É curioso observar como esse elo entre público e cinema parece ter se rarefeito nas últimas décadas. A virada para o entretenimento industrial e o domínio do espetáculo visual substituíram, em muitos casos, a busca por reconhecimento humano pela simples evasão. O trabalhador, o cidadão anônimo, deixou de ocupar o centro das narrativas para se tornar pano de fundo de histórias cada vez mais distantes da experiência cotidiana. O que aconteceria se o cinema contemporâneo, ao invés de produzir filmes vazios, voltasse a olhar para essas figuras não como coadjuvantes, mas como razão de existir de suas histórias? Internes Can’t Take Money pode ter envelhecido em ritmo e formato, mas permanece como testemunho de um tempo em que Hollywood, mesmo em meio ao caos, acreditava que o cinema podia curar ou, ao menos, oferecer ao público a certeza de que suas dores mereciam ser vistas e contadas.
por Marina Bucciarelli
Siga o JP3!
Mais notícias e informações:
- Ingressos, taxas e o acesso à cultura no Brasil
- A Indistinguibilidade da Inteligência Artificial
- Defensoria Pública de SP abre inscrições para estágio em Direito
- Inscrições abertas – 9ª edição do Projeto Incluir Direito
- O Brasil no Globo de Ouro: O Agente Secreto
O Jornal Prédio 3 – JP3, fundado em 2017, é o periódico on-line dos alunos da Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie, organizado por alunos do curso e com contribuição de toda a comunidade acadêmica mackenzista. Participe!

Deixe um comentário