Nos últimos anos, a inteligência artificial tem se infiltrado de forma cada vez mais profunda na rotina de milhares de pessoas. O que inicialmente era apenas um mecanismo para respostas rápidas do cotidiano, se transformou em uma ferramenta multifuncional, capaz de criar textos, imagens, vídeos e até vozes em quantidade e qualidade crescentes.
Os sistemas foram se aprimorando, e aquilo que antes era nitidamente artificial hoje se mostra quase indistinguível do que é humano. Recentemente, a Deloitte – uma das maiores empresas de auditoria do mundo – precisou se desculpar publicamente após divulgar um relatório produzido por IA. O equívoco só foi descoberto porque o documento continha informações falsas que escaparam à revisão de profissionais humanos. A repercussão foi imediata. Contudo, este caso não é isolado.
No campo jurídico, fenômenos semelhantes se repetem. Tornou-se comum a circulação de matérias jornalísticas denunciando o uso de jurisprudências inventadas por juízes, advogados e estagiários que confiaram demais nos sistemas automáticos. A pressa em delegar tarefas aos modelos de inteligência artificial também não reflete um senso de urgência insaciável na sociedade? A necessidade de produzir mais e mais rápido?

(Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Imagem disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pal%C3%A1cio_da_Justi%C3%A7a_de_S%C3%A3o_Paulo)
E então surge uma pergunta inevitável: como saber se algo foi feito por IA?
Talvez você, caro leitor, esteja desconfiado deste texto – foram os travessões, não?
A verdade é que muitas vezes já não sabemos. Ou nos sentimos traídos, ou vitoriosos quando achamos que encontramos algo que “somente” a inteligência artificial poderia escrever. Em vídeos e imagens ainda há sinais perceptíveis – manchas, proporções distorcidas, olhares artificiais, quase sombrios – mas na escrita, o limite é praticamente invisível. Pequenos detalhes de estilo, como certas construções sintáticas ou uma fluidez excessiva, despertam suspeitas, e a dúvida se instala.
Talvez o verdadeiro desafio do nosso tempo não seja distinguir o que é artificial, mas reaprender a valorizar o que é humano. Em meio ao brilho dos algoritmos e à eficiência das respostas automáticas, permanece a pergunta essencial: o que ainda nos torna autênticos?
Por Marina Bucciarelli
Referências:
Imagem em destaque gerada por inteligência artificial.
CARTACAPITAL. Consultoria admite uso de IA em relatório e devolve U$ 440 mil ao governo da Austrália. 07 out. 2025. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/mundo/consultoria-admite-uso-de-ia-em-relatorio-e-devolve-u-440-mil-ao-governo-da-australia/.
STARTSE. Deloitte devolve US$ 440 mil após usar IA em relatório. 07 out. 2025. Disponível em: https://www.startse.com/artigos/deloitte-devolve-usdollar-440-mil-apos-usar-ia-em-relatorio/.
TECMUNDO. Deloitte reembolsa governo da Austrália após erros cometidos por IA em relatório. 07 out. 2025. Disponível em: https://www.tecmundo.com.br/software/407625-deloitte-reembolsa-governo-da-australia-apos-erros-cometidos-por-ia-em-relatorio.htm.
O GLOBO. Inteligência artificial inventa jurisprudências e causa dor de cabeça a juízes e advogados. 23 jun. 2024. Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/tecnologia/noticia/2024/06/23/inteligencia-artificial-inventa-jurisprudencias-e-causa-dor-de-cabeca-a-juizes-e-advogados.ghtml.
DELOITTE. O estado da IA generativa no ambiente empresarial. 05 dez. 2024. Disponível em: https://www.deloitte.com/br/pt/Industries/technology/research/generative-ai-enterprise.html.
EXAME. Demanda por inteligência artificial cresce no Brasil e já impulsiona o mercado de trabalho. 15 mar. 2025. Disponível em: https://exame.com/negocios/demanda-por-inteligencia-artificial-cresce-no-brasil-e-ja-impulsiona-o-mercado-de-trabalho/.
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