“Caju” novo álbum de Liniker: uma ode à ancestralidade e ao amor contemporâneo

Fonte: Capa do álbum “CAJU”, lançado em 2024.

A excelência de Liniker transcende o natural, ultrapassando as compreensões cotidianas. Sua obra é singular, conectando aspectos profundos da vida com nuances que muitas vezes passam despercebidas no dia a dia. Como uma artista de grande relevância para a comunidade LGBTQIAPN+, Liniker é representatividade. Ela rompe com as barreiras dos espaços musicais que historicamente foram um ambiente ocupado por artistas cisgênero, assim, sua presença e sucesso no ramo musical oferecem uma nova perspectiva para causas essenciais da sociedade, como aquelas associadas à identidade de gênero, raça e sexualidade, o que, de certo modo, inspira  muitas pessoas que se veem refletidas em suas composições.

Suas canções impactam, especialmente, mulheres trans e negras, que encontram conforto em suas produções sobre construções afetivas recíprocas e sobre a importância de amar a si mesmo, incluindo suas fraquezas, forças e sagacidades. Nessa toada, suas músicas constroem uma narrativa baseada não só no amor contemporâneo, mas também na intensidade dos sentimentos, sejam eles bons ou ruins, estruturando suas  referências ao amor livre e nos desafios do processo doloroso que é externalizado na construção do amor próprio.

Sua presença marcante na música brasileira, especialmente no cenário da MPB,  do soul e (R&b), reflete a potência que surge quando uma voz como a de Liniker se expressa, ela não apenas representa mas revoluciona o cenário cultural. Suas composições e posicionamentos humanizam e ampliam as narrativas sobre as pessoas da comunidade LGBTQIAPN+, o que recorda a canção de Lulu Santos, que, para desconstruir o pensamento heteronormativo, é necessário considerar justa ‘toda forma de amor’.

Liniker é natural de Araraquara, uma cidade do interior de São Paulo. Além de cantora e compositora, ela atua em outros ramos da arte, como em produções audiovisuais. Sua estreia como atriz foi na série Manhãs de Setembro, na qual interpretou Cassandra, sua primeira personagem protagonista. A série narra a história de uma mulher negra trans que luta constantemente para alcançar seus sonhos e enfrenta diversos desafios em sua trajetória.

No ano de 2022, a cantora Liniker tornou-se a primeira mulher transgênero brasileira a ganhar um Grammy Latino, com o disco Indigo Borboleta Anil, ganhou o prêmio na categoria de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira. Nessa linha, é válido pontuar que esse álbum é sua primeira produção solo após o encerramento de seu vínculo com o grupo musical Caramelows, em 2020, na qual era uma participante. Deste modo, o álbum conta com participações de Tássia Reis, Milton Nascimento e duas orquestras sinfônicas.

Álbum “CAJU” 

O nome do álbum “CAJU”, antes do lançamento, instigou perguntas como: “Quem é Caju ?” e “Caju é o nome do álbum ou de uma das faixas ?”, o  que posteriormente foi explicado pela cantora em entrevista ao podcast PodPah, apresentado por Igão e Mítico. Nessa linha, Liniker disse durante a entrevista que esse álbum tem uma ordem cronológica pensada exatamente para ter uma conexão entre as canções. Desde a primeira faixa, a cantora demonstra sua dedicação em contar uma história para tocar seus ouvintes com afeto, tanto presente nas letras quanto nos arranjos, melodias e parcerias. O disco conta com participações de Anavitória, Amaro Freitas, BaianaSystem, Henrique Albino, Lulu Santos, Melly, Pabllo Vittar, Priscila Senna e Tropkillaz, o que não só evidencia o cuidado de suas parcerias, mas também a diversidade do álbum. Durante a escuta, é notória a musicalidade esplêndida e marcante de sua voz e dos artistas que se aventuraram em gêneros musicais variados.

Na primeira faixa do álbum, como bem mencionado por Liniker durante a entrevista, a música “CAJU” narra a história de uma personagem que está do outro lado do mundo, mais precisamente no Japão, com um voo a caminho do Brasil. Em meio à rotina conturbada de aeroportos, a voz de Liniker surge como um som arrebatador, capturando a atenção do ouvinte com sua sensibilidade e questionamentos sobre a vida e a construção do amor. Nesse contexto, é importante destacar que Liniker deixa claro, na entrevista supracitada, que esse álbum nasce de um lugar muito íntimo e repleto de amor por si mesma. Ela menciona que se sentia, muitas vezes, a “produtora” de suas relações e que as suas construções afetivas não enxergavam Liniker enquanto pessoa física, com CPF, mas sim como  CNPJ — a produtora musical que faz as coisas acontecerem e se movimenta voluntariamente para que tudo dê certo.

Diante dessa perspectiva, mergulhar no novo álbum de Liniker desperta muitas sensações e reflexões sobre o que é o amor próprio e como a priorização do afeto pelos outros pode, em certas ocasiões, negligenciar nossa própria experiência de vida e a construção de um olhar afetivo para si. A faixa “Caju” traz o verso: “Será que você sabe que, no fundo, eu tenho medo, de correr sozinho e nunca alcançar?”. Essa frase expressa insegurança e incerteza em relação a metas e sonhos de futuras relações, será que a outra pessoa entende que as construções afetivas — românticas ou não — precisam estar alinhadas? E que estar  disponível demais, doar-se mais do que o necessário, é como correr sozinha e nunca alcançar.

Nessa perspectiva, sentir demais, amar intensamente ou viver suas relações de forma profunda não é, necessariamente, o motivo principal para algo não dar certo. Isso reflete, na verdade, a coragem de ser vulnerável, e tal postura não significa falta de amor próprio, mas sim a expressão de que chegou o momento de comunicar ao outro que a dinâmica afetiva não pode continuar dessa forma. Toda relação deveria ser construída com base na reciprocidade; não adianta uma pessoa se dedicar 100% para que tudo funcione, enquanto a outra decide se entregar apenas 25%. Discutir esses aspectos é crucial para entender que, na vida, é preciso fazer escolhas, e se essa escolha for por você, isso não é egoísmo, mas sim amor próprio.

Além de “Caju”, o disco conta com 14 faixas, entre elas: Tudo, Veludo Marrom, Ao Teu Lado, Me Ajude a Salvar os Domingos, Negona dos Olhos Terríveis, Mayonga, Papo de Edredom, Popstar, Febre, Pote de Ouro, Deixa Estar, So Special e Take Your Time e Relaxe. A partir dessa coletânea, surge o álbum Caju, que em 2024 conta com cinco faixas que ultrapassaram 5 milhões de reproduções, sendo “Caju” com mais de 20 milhões, “Tudo” com 16 milhões e “Veludo Marrom” com mais de 10 milhões de reproduções.

O disco expõe uma criatividade sem fim, além da poesia presente em suas letras, reflete também a sensibilidade de enxergar a si, de amar além da Popstar, enxergar o veludo marrom da pele ao lado de alguém que te ajuda a salvar os domingos  e que seja o seu pote de ouro em dias de febre. A partir disso, a indicação é que, para ouvir o álbum, é preciso estar aberto para vivenciar experiências e revisitar momentos que recordam lugares de afeto e da ausência dele também.

Enaltecendo a pele negra de forma afetiva e poética, a música Veludo Marrom relembra a conexão de ser acolhido como acolhemos os outros, encontrando calor e amor na pele de seus amores e o quanto isso faz falta. A música, que conta com mais de 11 milhões de reproduções, foi gravada no escuro para manter a harmonia entre a letra e a voz da artista, cenário esse que demonstra o quanto a discografia da cantora é rica em detalhes.

Portanto, ouvir o álbum “Caju” de Liniker é se deparar com uma explosão de sentimentos. Com muita particularidade, a cantora soube expressar seus sentimentos e vulnerabilidades em todas as faixas do disco. Além disso, ela revelou que a construção do afeto não precisa ser necessariamente dolorosa; é um processo que pode ser divertido, cuidadoso e repleto de reciprocidade nas relações. Assim, ouvir “Caju” não é apenas dar o play, mas viajar pelas melodias e letras poéticas de suas 14 faixas.

Por Nathalia Souza Santos da Silva


Referências:

Lulu Santos – Toda Forma de Amor (Ao Vivo), publicado pelo Canal Lulu Santos, em 09 de novembro de 2016.

LINIKER. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira, publicado pelo Itaú Cultural, em 30 de julho de 2024. 

Liniker estreia como atriz em ‘Manhãs de setembro’, série que reflete sobre transexualidade e filhos, publicado pelo Jornal El País, em 21 de junho de 2021. 

Álbum Indigo Borboleta Anil, publicado por Liniker, em 09 de setembro de 2021.

Liniker e os Caramelows anunciam separação após cinco anos de sucesso, publicado pela Folha Uol, em fevereiro de 2020.
Álbum CAJU, publicado por Liniker, em 19 de agosto de 2024.


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