Os problemas da saúde no Brasil para além da verba

O Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil foi criado em 1988 junto à elaboração da Constituição Federal, o qual buscava, em suas premissas, garantir a saúde a todos os cidadãos brasileiros de forma equitativa, gratuita, com qualidade e estabilidade. Apesar de seus ideais serem benéficos e a legislação brasileira garantir sua atuação, tal sistema passa por diversas falhas no atendimento e no provimento de saúde para  a população, como a falta de medicamentos, a falta de profissionais, anos de espera para uma cirurgia de urgência, atendimento demorado, entre outras. Diante disso, muitos apontam como o principal problema do SUS  a falta de dinheiro para investir nesse setor, o que não deixa de ser verdade… Mas será que esse é o único problema?

Como se sabe, a saúde é um dos pilares do bem-estar e segurança da população, sendo um direito de todos e dever do Estado. Quando se pensa em disponibilidade financeira, é inegável que o Sistema Público de Saúde possui um grande déficit em seus investimentos monetários para crescer, pesquisar e contratar novos profissionais e equipamentos.  Como motivação para isso, não deixemos de lado as questões políticas orçamentárias do país que não se estabilizam há mais de uma década, fora os desvios do montante destinado ao SUS. No entanto, o que impede o funcionamento eficaz do sistema se dá por diversas outras questões também.

PLANEJAMENTO

A priori, o valor orçamentário destinado ao Ministério da Saúde no ano de 2023 foi fixado em 149,9 bilhões, uma redução de 22,7 bilhões comparado ao ano de 2022. Apesar de parecer uma grande quantia, deve-se pensar nos 214,3 milhões de habitantes que o Brasil possui, tendo em média 700 reais disponíveis para cada cidadão por ano. Assim, é importante destacar que alguns tratamentos custam muito mais do que esse valor, além da manutenção das redes hospitalares, dos salários dos funcionários e das diversas outras despesas. Diante desse cenário, pensar em como manejar os recursos, mesmo que precários, é de extrema importância para se ter um bom resultado no atendimento à população. No Brasil, isso se torna um problema devido ao curto período de tempo que os governadores possuem para implementar suas propostas. Apesar de 4 anos parecer um longo período de tempo, a questão do SUS demanda um planejamento a níveis municipais, estaduais e federal, em que se conta o planejamento, estruturação do plano, levantamento de verba e atuação das propostas. Logo, 4 anos é um tempo curto para se ver os frutos positivos desses planos.

Além do planejamento, é difícil pensar em como custear os grandes investimentos em tecnologia na área da saúde dentro de um cenário financiado por impostos. Não obstante, as redes privadas de saúde conseguem um atendimento considerado melhor aos olhos da população por terem sua atuação voltada principalmente ao lucro e por conseguirem melhores investimentos para inovação. Esse problema se faz uma questão progressiva, pois os tratamentos tendem a serem mais complexos e mais caros ao longo do tempo.

O controle de gestão deve vir até mesmo dos próprios profissionais de saúde, sabendo quais exames são realmente necessários, quais medicamentos são mais assertivos e qual a melhor forma de gerenciar os protocolos de atendimento. Um exemplo de uma gestão ruim, extremamente comum no Brasil, é o caso de uma simples gripe desencadear diversos exames laboratoriais e de imagem que muitas vezes não seriam necessários de acordo com os sintomas do paciente. Contudo, esses exames são receitados para dar ao paciente a sensação  de que tudo o que podia ser feito por ele foi realizado, e ao médico, a facilidade de apenas encaminhar o paciente, não tendo uma consulta holística que analise de fato o problema daquele indivíduo.

Além disso, as grandes e demoradas filas de espera para atendimento e procedimentos no SUS poderiam ser aliviadas com uma melhor administração das UBSs (Unidades Básicas de Saúde). As UBSs deveriam ser o local de atendimento primário do paciente, no qual ele passa pela triagem e pode ser remediado ali mesmo. O que se constata na prática é um grande número de pessoas que, mesmo com sintomas leves ou moderados, dirigem-se diretamente aos hospitais e clínicas do Sistema Único de Saúde, sendo que seus problemas poderiam ter sido resolvidos em outra unidade e encaminhados aos hospitais somente em casos necessários. Entretanto, sabe-se que é responsabilidade estatal fazer esse realojamento de pacientes logo no momento de chegada ao hospital, em que são analisadas suas queixas e encaminhadas de acordo com a necessidade.

VISÃO HOLÍSTICA

Muito além do Ministério da Saúde, os problemas do SUS no Brasil são de responsabilidade governamental. Quando se fala em uma visão holística, refere-se a uma visão completa da situação que ocorre. Como exemplo, temos a grande demanda por cirurgias bariátricas e procedimentos de emagrecimento solicitados no Sistema de Saúde, o que gera um grande custo, tendo em vista que tais cirurgias demandam boa qualificação e bons aparelhos. Nesse viés, deve-se analisar o porquê desse aumento, como a questão da má alimentação brasileira, além das questões psicológicas (comparação e pressão social, falta de autoestima e aceitação)  as quais poderiam ser evitadas com programas de autoajuda vezes mais baratos do que as cirurgias de remediação desse problema. Diante disso, o viés antropológico de um profissional de saúde é extremamente necessário, visto que a empatia e o acolhimento daquele paciente podem gerar muito mais frutos positivos do que somente remediá-lo e encaminhar seu problema de forma maquinal.

MEDICINA SELETIVA

Sabe-se, por todo o país, que o Sistema Único de Saúde apresenta diversas falhas. Por outro lado, essas falhas se dão em escalas quando se analisa a quantidade de médicos e de profissionais da saúde por estado do Brasil.

No gráfico acima, é possível analisar que as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste possuem um número significativo de médicos a menos do que as regiões Sul e Sudeste, o que possui motivações que também devem ser analisadas.

Apesar das grandes e renomadas faculdades nas regiões que possuem menos profissionais, após a graduação e pós-graduação, esses médicos tendem a deslocar sua atuação para os locais com mais oportunidades de crescimento profissional e maior pagamento, como São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Não coincidentemente, essas são as áreas de maior movimentação financeira do país, as quais acabam recebendo um maior número de recursos tanto para os hospitais públicos como para os de rede privada. Essa questão deveria ser remediada por meio da atração de pessoas para atuarem nas áreas menos abastadas, não apenas pelo viés humano e solidário, mas fornecendo melhores oportunidades e salários, além de distribuir os recursos equitativamente. Isso reforça a ideia da necessidade de uma visão holística para a melhora do sistema público de saúde brasileiro.

Por fim, constata-se que o problema da Saúde no Brasil, além da verba que necessita de aumento, também se encontra na falta de logística e de administração governamental.

REFERÊNCIAS

“A Saúde Brasileira Pode Dar Certo”, Claudio Lottenberg (2007, Editora Atheneu)

CNS denuncia a organismos internacionais corte de R$ 22,7 bilhões no orçamento do SUS para 2023, Publicado pelo Conselho Nacional de Saúde, em 26 de outubro de 2022

Brasil tem 545,4 mil médicos; mais da metade está concentrada somente nas capitais, Publicado por G1, em 06 de fevereiro de 2023

Publicado por Giovanna Oliveira Cordeiro


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