Por Leonardo Cipriano

Desde março de 2020, enfrentamos e convivemos diariamente com a Covid-19 no Brasil — e no mundo. O que se imaginou ser uma doença de hábil controle, mostra-se, até hoje, pouco conhecida e muito disseminada. Com desserviços do Governo Federal e suas reiteradas investidas em terapêuticas sem comprovação científica, temos, hoje, quase 400 mil óbitos em decorrência dessa doença.

O que não se esperava, ao menos inicialmente, é que a pandemia da Covid-19 pudesse também expor os abismos que existem entre as pessoas tanto a nível nacional, quanto regional. Pesquisas recentes demonstram que pessoas mais pobres, com menor nível de educação e, sobretudo, negras estão mais expostas ao vírus e, consequentemente, correm mais riscos de adoecer e morrer.

De acordo com dados do mercado de trabalho, pessoas de baixa renda e pouca educação estiveram bem mais expostas à Covid-19 que ricos e escolarizados no Brasil. Estudos recém publicados apontam que áreas mais pobres e bairros da periferia de São Paulo alcançaram três vezes mais mortes causadas pelo vírus do que outras regiões.

Outras pesquisas, como a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), demonstram que pobres e menos escolarizados tiveram menor oportunidade de alterar o local de trabalho durante a pandemia. Aqui, lê-se “alterar o local de trabalho” como alterar a conformação para “home office”.

Dados da PNAD, elaborada pela FGV Social, apontam que durante a pandemia, 28% dos membros da classe A/B (renda domiciliar superior a R$8.303) puderam alterar o local de trabalho, ao passo que na classe D/E (renda até R$1.926), somente 7,5% tiveram essa opção. Ainda, na — em alta — classe C, somente 10,3% fizeram tal movimento.

Fato é que algumas profissões têm maior dificuldade em alterar a conformidade de sua operacionalização. Não por acaso, entre as profissões que menos puderam alterar o local e a forma de trabalho, indo para “home office”, estão os funcionários do setor de serviço, dos quais 95% deles continuaram trabalhando no mesmo local, como frentistas de postos de gasolina, funcionários de supermercados e vendedores. Em contraposição, entre as profissões mais intelectualizadas, cerca de 44% alteraram o local de trabalho.

Com esse dado, podemos inferir que a população a qual compõe a base da pirâmide social tem que sair de casa para garantir sua subsistência, expondo-se, consequentemente, mais ao vírus.  Marcelo Neri, diretor da FGV Social, afirma que “Os trabalhadores mais pobres são os que mais precisam sair de casa para conseguir renda. Trabalhar em ‘home office’ é um privilégio das classes A e B, onde estão os empregadores, trabalhadores da ciência ou intelectuais, dirigentes e funcionários públicos”.

É o que comprova o estudo Social Inequalities and Covid-19 Mortality in the City of São Paulo (Desigualdade Social e a mortalidade pela Covid-19 na cidade de São Paulo), publicado em fevereiro deste ano no International Journal of Epidemiology, da Oxford Academic, que analisou mortes na capital paulista entre março e setembro de 2020. A pesquisa aponta que nos distritos onde mais de 10% da população apresenta renda per capita menor que R$275, morreram 70% mais pessoas em decorrência da Covid-19 do que nas regiões mais ricas. Ainda, as áreas com maior quantidade de moradias precárias tiveram 53% mais óbitos e em domicílios que possuem mais de três pessoas por cômodo, a taxa de mortalidade mais que duplica se comparado a domicílios menos densos.

No entanto, para além do dinheiro, a cor de pele é o fator mais crucial para o risco de perder a vida em decorrência do Covid-19, dado que, de acordo com o estudo publicado na Oxford Academic, entre pretos e pardos as taxas de mortalidade são 81% e 45%, respectivamente, mais altas que as de pessoas brancas.

“A desigualdade sempre existiu, a pandemia só veio para escancarar isso. E quando a gente fala da diferença racial, aí que o abismo fica ainda maior“, diz Karina Ribeiro, professora e pesquisadora do departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, que liderou o estudo, em entrevista à Revista Piauí. “A heterogeneidade em altas taxas de morbidade e mortalidade de Covid-19 está frequentemente associada à estrutura de saúde de um país e à desigualdade social, por isso esses dados repetem os abismos sociais do Brasil.”

As desigualdades apontadas são gritantes e poderiam ser ainda maiores se os indicadores utilizados tivessem sido colhidos de todas as quase 20 mil mortes ocorridas no período estudado. Apesar disso, as pesquisadoras entendem que tais conclusões podem servir de parâmetro para entender a dinâmica das mortes por Covid em todo país. “Esses resultados, ainda que sejam específicos da cidade de São Paulo, podem ser usados para se ter uma noção do que acontece em outras grandes cidades. Existe, inclusive, a possibilidade que os índices de desigualdade sejam ainda piores fora da capital paulista”, dizem. 

O Brasil é conhecido pela extrema desigualdade social e racial. Vivemos uma assimetria social explanada pelos dados. A discrepância da morte de pessoas negras por Covid-19 e desigualdades no acesso à saúde são o resultado de uma sociedade pautada em resquícios da escravidão. Juntemos o fato de que nas periferias morrem mais que nos centros e chegamos a mais uma consonância com o passado insalubre do Brasil, em que pouco se fala de acesso à saúde e condições dignas de moradia à base da sociedade.

A falta de esforços direcionados a estas parcelas da população, em conjunto com a esculhambação geral caracterizada diariamente pelo Governo Federal na pessoa de Jair Messias Bolsonaro, somado ao recrudescimento da pandemia e os recordes diários de mortes em decorrência da Covid-19, apontam, infelizmente, que até que cerca de 70% da população seja vacinada — o que, caso mantenhamos o atual ritmo de vacinação, ocorrerá somente em meados de 2024 —, a tendência de mortes deve se repetir ou mesmo acentuar. 

Que nós, como sociedade civil, façamos nossa parte. Ficar em casa, caso tenhamos tal privilégio. Incentivar nossos amigos e familiares a manter as medidas de distanciamento preconizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e, sobretudo, a se vacinar tão logo seja possível. Além disso, não esqueçamos que “tratamento precoce” para esta doença devastadora não passa de uma falácia, disseminada por entes do Governo Federal, dado que, cientificamente, não possuem nenhuma eficácia. Não obstante todas as dificuldades, temos, ainda, que lutar contra o movimento negacionista e de desinformação. Sigamos!



Referências:

“Atrás de renda e sem home office, pobres morrem mais de Covid”. Publicado na Folha de São Paulo, em 20/04/2021.

“Desigualdade que mata”. Publicado na Piauí, em 08/03/2021.

“No ritmo atual, Brasil só conseguirá vacinar 70% da população em 2024”. Publicado em O Globo, em 07/02/2021.

“Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) – COVID19: o IBGE apoiando o combate à COVID-19.” Publicado no IBGE.

“Por que falamos de 70% da população vacinada como uma ‘cifra mágica’ para acabar com a covid-19?”. Publicado em El País, em 17/04/2021.

“Social inequalities and COVID-19 mortality in the city of São Paulo, Brazil”. Publicado em Oxford Academic, em 28/03/2021.


Imagem:

Rivaldo Gomes

Publicado por Leonardo Cipriano


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