Por Júlia Mayumi Oliveira

É muito difícil ser brasileira e não saber o básico sobre Jesus Cristo. O cara que abriu o mar, transformou pão em vinho e foi crucificado. Foram feitas várias igrejas em homenagem a ele, e até hoje contamos os anos a partir de seu nascimento. Convenhamos que, pelo menos como figura histórica, o cara continua sendo importantíssimo para o Ocidente.

A história de Cristo é contada de diversas formas — a esmagadora maioria delas, chatíssima. Ler direto na Bíblia? Demorado. Ouvir um padre ou um pastor falando? Monótono. Ver as novelas da Record? Socorro! Talvez seja por isso que eu tenha passado 22 anos da minha vida sem saber muita coisa além do que citei no parágrafo anterior. Mas esses dias, deparei-me com aquela que, ouso dizer, foi a maneira mais didática possível de falar sobre os últimos dias da vida de Jesus: um musical de rock.

[Atenção! A partir daqui, o texto contém spoilers. Na verdade, talvez esse aviso não seja necessário, já que, bom, é uma história que aconteceu há dois mil anos].

Jesus Christ Superstar é um musical dos anos 70 produzido por Andrew Lloyd Webber. São quase duas horas de opera rock que contam como Jesus foi traído por Judas, e então, crucificado.

A peça é um pouco confusa se você não tem conhecimentos prévios, visto que não explica muito bem as motivações de Judas, não contextualiza a parte em que Pedro nega Cristo três vezes e a Maria Madalena não tem um papel muito importante na trama (mesmo protagonizando I Don’t Know How To Love Him, uma das cenas mais tocantes do show, que você pode conferir ao final desse texto). Mas não conhecer a história tem seus benefícios: fiquei absolutamente chocada quando Judas se matou; não estava esperando por aquilo e senti o impacto. Inclusive, fica aqui uma informação importante: São Judas não é esse Judas, é outro cara. Esse aí se chama Judas Iscariote, o Santo é Judas Tadeu. Sim, eu também acho que eles poderiam ter nomes diferentes, mas fazer o quê?

Apesar da narrativa manter-se fiel ao contexto bíblico (os nomes dos personagens e das cidades se mantêm, bem como os acontecimentos), o musical tem uma linguagem visual muito moderna. Os seguidores de Cristo são manifestantes vestidos de jeans e moletom, Herodes é um apresentador de televisão e Jesus é crucificado com um uniforme laranja de presidiário. Acompanhadas de músicas muito animadas e repletas de solos de guitarra, as cenas se desenrolam de forma fluida e envolvente.

O musical apresenta Jesus como uma pessoa que defendeu os mais fracos e lutava contra a tirania. Não sei do Jesus que é citado por gente como Edir Macedo e Bolsonaro, mas o Jesus do musical certamente não seria a favor de matar pessoas ou tirar dinheiro de gente pobre. Como eu não tenho local de fala para dizer o que Jesus defenderia ou não, posto que não sou cristã, trago as palavras do Pastor Henrique Vieira em entrevista ao ECOA Uol: “Diabólico é aquilo que separa, que divide, aquilo que falsifica, que ilude, ludibria, que anestesia a consciência. Algo que nada tem a ver com Jesus faz se parecer com Jesus. Ele [Bolsonaro] usa o nome de Jesus para fazer tudo aquilo que Jesus jamais faria. É diabólico porque é baseado na mentira.”

Embora não seja seguidora de Cristo, eu vivo no Brasil, e portanto, conheço a forma como usam sua mensagem para justificar ações injustificáveis. Se você já leu a Bíblia e ainda assim defende a homofobia, o racismo e qualquer outra forma de opressão, convido-lhe a assistir Jesus Christ Superstar. Sim, o musical de rock. Às vezes, rever uma história a partir de uma linguagem diferente pode ajudar a refrescar nosso entendimento.

Referência:

“Até Jesus chorou”. Publicado no ECOA Uol, em 28 de julho de 2020.

Postado por Júlia Mayumi Oliveira


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