Por Juliana Toledo Bueno, vice-presidente e membro da ALEMack

Entre as frestas da janela entravam feixes de luz. O barulho do vento começava a se fazer perceptível entre as folhagens do quintal. O fresco odor da manhã chegava. A cama continuava macia. E o domingo começava.

Ao abrir a janela, o sol pôde entrar com força no quarto. Alguns sussurros puderam ser ouvidos da rua. O vento fez ser necessário que a porta, dura e lisa, fosse segurada por um pesinho. E logo já estava na hora do aniversário.

Há muito tempo não via o sobrinho, que viria a completar seus 3 anos. A rotina intensa de trabalho fez com que não acompanhasse tão de perto o crescimento daquele menino gordinho, de olhos castanhos e grandes bochechas rosadas, o que fez aumentar a expectativa do encontro. O amor que sentia pela família continuava imenso, apesar da distância e, por conta disso, mal podia esperar para abraçar a criança, entregar o presente e brincar. Experimentar o bolo também parecia algo atrativo, de fato.

O trânsito aumentava a expectativa, ainda contida pela distração com as músicas da rádio. Lembrava-se do bebê com carinho, figurou todas as possíveis reações do sobrinho com o presente, sentiu o sabor do bolo em sua imaginação e, em seus pensamentos, já estava de volta ao trânsito. Passava por aquela rua todos os dias a caminho do trabalho. Os mesmos radares, os mesmos semáforos, os mesmos buracos. Algumas árvores em volta, mas agora estavam floridas. Quando começaram a florir? Era lindo aquele laranja com o verde da folhagem, principalmente com a luz tão intensa do sol.

A casa, grande, abria sua porta e de dentro vinha, com pressa, o sobrinho. A alegria foi enorme e o abraço, macio. Algumas palavras foram ditas em agradecimento e a festa começou. Algumas palavras de agradecimento. Do sobrinho. Uma criança.

Engraçado isso, não? Ninguém ensinou o menino a falar. A criança só ouviu e, entre “iticoisinhafofa”, “oibebê” e “auau”, soube, sozinho, separar as palavras e usá-las para mostrar sua gratidão, um sentimento tão abstrato. Nem ele, adulto, saberia definir suficientemente o que era gratidão, mas seu sobrinho já era capaz de demonstrar em português, acertando a ordem dos elementos na sentença, a pronúncia e, na maior parte das vezes, as concordâncias. O vocabulário era ainda restrito e o menor contato com a língua ainda permitia erros considerados fofos pela família. As exceções ainda não estavam claras para a criança, mas as regras já permitiam uma comunicação compreensível. Sem ninguém ensinar. E como era falante! 

Durante toda brincadeira ficaram conversando, dentro das restrições do sobrinho, claro. Restrições ainda pequenas, dentro das circunstâncias. E assim foram matando a saudade durante esse dia tão especial. Os pais puderam também passar algum tempo brincando, embora tivessem sempre que arrumar algo aqui ou ali e tratavam com naturalidade a capacidade comunicativa do filho, claramente já esperada de todas as crianças dessa idade. Mas, ainda assim, não é surpreendente?

Chegou a hora do parabéns e foram todos para a sala, devidamente enfeitada e organizada. Era um local arejado, bem iluminado pelas grandes janelas e com quadros distribuídos pelas paredes. Eram quadros renomados, passando do Nascimento de Vênus, de Botticelli, pela Noite Estrelada, de Van Gogh, até As Maravilhas da Natureza, de Magritte. Realmente, obras belíssimas e de extrema relevância para o mundo. Mas qual mundo?

São 3 obras que parecem fantásticas e absurdas. Não seria possível uma mulher, ou mais, uma deusa, nascer da espuma do mar, com musas ao seu redor, com toda plenitude demonstrada na obra. E como era deformada! Braços longos, corpo esticado, embora ainda divina. O quadro impressionista dispensa comentários com seus fortes traços de cores intensas e movimentos circulares. Por fim, que sentido teria no casal de peixes observando o navio ao fundo?

Ora, têm todo sentido. Representam o mesmo mundo. O mundo do sobrinho, o mundo dos pais, o mundo dos semáforos e, mais ainda, o mundo das flores laranjas! Vênus, há muito, era uma realidade, uma crença comum, também tida como óbvia. Absurdo seria pensar que um morro destruiria uma cidade por inteiro, como ocorreu em Pompeia, quando ainda nem existia a palavra vulcão. Representa um pensamento que não compreendia, nem em nível vocabular, a complexidade do mundo que se entende como real, o que não tornava a vida que tinham menos real, apenas diferente e com contornos distintos. A palavra molda a realidade. No quadro de Vincent, reconhecemos a Lua, a noite, as estrelas, ainda que em muito pouco se assemelhem àquelas que são vistas no dia a dia. O ponto de vista do pintor molda a realidade.

E Magritte. Ah, Magritte. O surrealismo que inverte posições, mostrando que mais surreal que a obra é a própria realidade. O casal de peixes com pernas! Como seria possível? Mas, claro, é extremamente normal passar o homem tanto tempo no mar, flutuando sobre as águas acima de pedaços de madeira. Poucas coisas surpreendem, mas nada é óbvio ou normal. Como pode uma criança aprender sozinha a distinguir palavras e falar?

As velinhas foram apagadas e, imagina-se, um desejo feito com toda inocência infantil. Mais abraços calorosos encerraram a comemoração e logo já estavam as flores ali novamente, ao redor dos semáforos, buracos e radares. Não eram as mesmas flores, já estavam com um tom diferente, pois o sol agora caía. Fosse ele um impressionista, já tinha dois quadros à sua disposição. Não fosse ele um observador, tinha ali apenas mais um dia na vida.

Publicado por Rafael Almeida


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