Por Leonardo Mariz

Neste texto há exposição acerca da ausência de racionalidade no debate público, abordagem à existência do racismo estrutural enquanto tema que somente avançará a partir do diálogo e exposição da vitimização feita por aqueles que vivem no incrível Mundo de Gumball e atacam pessoas reais que falam sobre a vida real.

No debate público infelizmente ofensas pessoais passaram a compor o novo normal, no qual alguém apresenta argumentos, mas em contrapartida tem de ouvir xingamentos, grosserias ou críticas fundadas em suposições criadas pelo ouvinte que são feitas após o enquadramento daquele que falou em uma caixa que traz consigo um nome: comunista, socialista, esquerdista, feminista etc.

Esse problema em termos sociais se apresenta enquanto fator nocivo à sociedade, visto que além de refletir o subdesenvolvimento cultural, impede o avanço de muitas pautas mediante a fuga do diálogo. A partir do momento em que as pessoas não se dão ao trabalho de refletir sobre determinada ideia, é impossível avançar e infelizmente essa é a realidade do debate público, no qual as pessoas, quando se veem sem alternativas para contra-argumentar, falam, mas não ouvem, estereotipam o outro e ofendem o sujeito que argumentou sem, contudo, abordar o assunto ou tratam a questão a partir de suposições que vão além daquilo que foi dito.

Uma pauta que exemplifica a questão, são os gritos do movimento negro que exigem melhorias para esse nicho da população. Segundo o Índice Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2019, 56,3% da população se declarou preta ou parda, ou seja, 56,3% da população se considera negra. Porém, a pesquisa indica que dentre a população abaixo da linha de pobreza, 70% desse grupo se autodeclarou preto ou pardo. A análise aponta que o número de pessoas negras é maior dentre aquelas que vivem em condições miseráveis, contudo, o debate público não avançou o suficiente ao ponto de chegar ao consenso de que isso é um reflexo do racismo estrutural e medidas são necessárias para resolver o impasse.

No Brasil, a renda é fator determinante para o sucesso ou não do indivíduo. Pesquisas do IBGE que dividem a população em cinco partes, apontam que apenas 7,6% dos jovens pertencentes ao quinto com o menor rendimento domiciliar per capita frequentam ou frequentaram o ensino superior, em 2019. Esse número é oito vezes inferior à taxa de jovens do quinto com a maior renda, no qual 61,5% frequentam ou frequentaram o ensino superior. Essas informações indicam que no Brasil a renda é fator determinante para que o indivíduo tenha oportunidades, e a população negra é a maioria dentre aqueles que vivem na miséria, o que significa menos oportunidades a essa parte do povo.

A realidade atual é fruto do passado escravocrata do nosso país, o último a abolir a escravidão e que somente o fez mediante a mobilização do povo negro. Em 1888, 132 anos atrás, a Lei Áurea foi assinada, porém nenhum auxílio foi dado pelo Estado ao povo negro, um dos fatores responsáveis pela condição de subalternidade dessa parte da população. A partir dessas informações, é necessário construir o consenso coletivo sobre a existência do racismo estrutural, que segundo o Professor Silvio Almeida, é uma forma racional pela qual a ordem social tem como normal a realidade na qual a população negra permanece em condições de subalternidade.

Trago novamente esse assunto para dizer que é absurda a realidade na qual, mesmo com todas as evidências empíricas à disposição e formulações teóricas simplificadas na frase de Ângela Davis, segundo a qual não basta não ser racista, é necessário ser antirracista, há pessoas que não concordam com a necessidade de ações positivas para diminuir os danos naturalizados pelo racismo estrutural.

Abordar a existência do racismo estrutural é descrever a realidade, dizer o óbvio, porém é comum argumentos vitimistas surgirem por pessoas que se opõe à realidade e questionam o fato de que a terra não é plana, a gravidade existe e um jovem negro é morto a cada 23 minutos no Brasil. É comum que os vitimistas ofendam pessoas com as quais eles não têm capacidade de argumentar ou digam que ações positivas que reduzem desigualdades, como o programa de trainee do Magazine Luiza por exemplo, são práticas que violam os seus direitos.

Expor dados empíricos é descrever a realidade, descrever a realidade é falar o óbvio, falar o óbvio é afirmar a existência do racismo estrutural. Uma pessoa pobre e negra, não se vitimiza, mas descreve acontecimentos que enfrenta no dia a dia, que de tão absurdos os vitimistas a acusam de se vitimizar ao retratar o que vive, porém se esquecem de que uma pessoa que enfrenta condições adversas, e ainda assim ingressa em determinados espaços não se sente vítima, pelo contrário, essa pessoa é descendente de guerreiras e guerreiros e, por consequência, também o é. Por isso não importa o tamanho do obstáculo que é posto em sua frente, ela supera, visto que não há barreiras para os descendentes de reis e rainhas.

Entretanto, para tudo há um preço. Esse guerreiro ou guerreira que não fala sobre o que vive, pois se o fizer sofrerá ataques, enfrenta violências explícitas e microagressões, além de transpor muitos obstáculos, feito que não é elogiável, visto que são fatores que retiram a humanidade de um corpo humano, condições completamente adversas que ao serem superadas não confirmam uma história bonita, mas denunciam o absurdo pelo qual uma pessoa tem que passar para atingir as mesmas coisas que outras acessam com menos dificuldade. Para exemplificar, basta ouvir a arte dos Racionais Mc’s:

“Desde cedo a mãe da gente fala assim: ‘filho, por você ser preto, você tem que ser duas vezes melhor.’ Aí passado alguns anos eu pensei: Como fazer duas vezes melhor, se você tá pelo menos cem vezes atrasado pela escravidão, pela história, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses.”

 Portanto, a realidade está posta, basta não contestar o óbvio e ouvir aqueles que a vivem cotidianamente, sem, contudo, se vitimizar ou espernear e agredir toda vez que não possuir a capacidade de contra-argumentar, pois é absurdo o mundo em que Roberto faz uso de entorpecente em via aberta próxima à sua Universidade, enquanto aprecia música com os seus amigos, mas João é criminoso por fazer o mesmo em seu bairro na periferia da cidade. Isso é a materialização do racismo estrutural através da normalização da violência contra corpos negros e periféricos, produzida a partir de uma forma racional de pensar.

Referências:

ALMEIDA, Silvio. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte: Editora Letramento, 2018.

BRASIL, IBGE. Síntese de Indicadores Sociais. 2020. Disponível em: <https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101760.pdf&gt;. Acesso em 9 nov. 2020.

WAISELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da Violência. Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO): 2016.


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