Por Júlia Mayumi Oliveira

Ela estava exausta quando se deitou.

Fazia tempo que ela só se deitava quando estava assim – incapaz de completar um passo, uma piscada, até mesmo um raciocínio.

Houve um tempo em que ela se deitava impreterivelmente às 22h e ficava na cama, repassando os acontecimentos do dia. Repetindo as risadas, os espantos e os apertos no estômago, com o leve distanciamento de espectadora, mas com as cores vivas da experiência.

Mas, nos últimos meses, ela não queria pensar em nada. No mundo lá fora, onde 600 mortes por dia eram chamadas de “novo normal”, onde um estado inteiro fica um mês sem energia elétrica e onde pessoas vão a bares no meio de uma pandemia. Muito menos no mundo aqui dentro, onde sorrisos viraram letras repetidas numa tela, silêncios não são mais compartilhados e momentos importantes são interrompidos por falhas no serviço de internet. 

Por isso ela ocupava a cabeça. Passava os dias ouvindo música, estudando, assistindo televisão e cozinhando. Ou melhor, fingindo estar fazendo tudo isso. Ativamente empurrando quaisquer pensamentos minimamente densos para o fundo da cabeça, fingindo para si mesma que estava abrindo massa, grifando o texto ou decorando a melodia. Ela contava com o esforço de tentar enganar a si mesma para ficar cansada o suficiente para conseguir dormir.

Mais uma noite em claro. Quando não dormia, ela tinha o hábito de listar coisas. Nunca acabava nenhuma, fosse por tédio ou por dor. Com frequência, chegava em itens sobre os quais não queria pensar.

Lista de pessoas que fazem falta. Lista de lugares para ir quando tudo isso acabar. Lista do que fazer para passar o tempo enquanto tudo isso não acaba. Lista de receitas para tentar, séries para maratonar, matérias para revisar. Os temas iam suavizando conforme a fuga se tornava mais frenética. Por fim, as últimas listas antes de cair no sono costumavam ser inúteis – lista de comidas que não combinam, lista de países que começam com a letra A, lista de tendências da moda que são feias.

E aí ela dormia. Dormia tarde, acordava tarde. Isso não era ruim. Quanto mais tarde começasse o dia, menos dele ela teria que testemunhar. E isso era bom. Eram dias muito difíceis de serem vividos. Ocupar a cabeça era cada vez mais complicado, porque, para isso, era preciso sair da cama. O quão contraditório é não querer estar deitada, pois isso a obriga a pensar, e não querer levantar, pois isso a obriga a aceitar que precisa passar por mais um dia? Mais algumas horas que serão esquecidas na grande maçaroca dos dias iguais. Dá preguiça de viver quando se está desperta sem muitos motivos além do medo de não viver. 

Eventualmente, ela levantava da cama. Fazer para não pensar no que está fazendo. Esperar o dia acabar. Dormir. Fazer tudo de novo. Sem perspectiva de melhoras.

Ela estava exausta quando se levantou.

Postado por Júlia Mayumi Oliveira