Por Larissa de Matos Vinhado

  1. Resumo

Nos últimos dias, a internet se encontrou sobrecarregada diante do seguinte jogo: Among Us, traduzido para o português: “Entre Nós”. Essencialmente, é um jogo multijogador, ou seja, é possível que várias pessoas consigam participar, simultaneamente. Entretanto, a principal pergunta é: por que a repercussão desse jogo está tão grande? 

Vasculhando por vídeos no youtube encontrei, pelo acaso, um vídeo narrando o artigo de Mateus Dias, sobre uma analogia incrível entre o jogo Among Us e a democracia, para assistir clique AQUI.

2. Como funciona o jogo

Among Us é um jogo no qual é possível jogar de 4 a 10 pessoas, simultaneamente. Desses jogadores, de 1 a 3 são, aleatoriamente, escolhidos para serem impostores, enquanto os outros são meros jogadores com funções distribuídas ao decorrer do jogo.

 O jogo ocorre numa nave espacial na qual uma tripulação gerencia a nave e recebe tarefas para completar o mapa como: ligar luzes, consertar fios de energia, esvaziar o lixo, desviar a energia e outras tarefas simples que são a rotina dos tripulantes. Tudo na nave estaria funcionando normalmente se não fosse pelo pequeno detalhe: em meio à tripulação há um impostor e seu único objetivo é assassinar todos os outros tripulantes. Daí surge o nome do jogo: tem um impostor entre nós.

Por conseguinte, o impostor aparece para os demais participantes como um tripulante normal, embora disponha de diversas funções e aparatos para alcançar seu objetivo, podendo apagar as luzes, trancar portas, sabotar energia, esconder-se, mover-se pelos dutos de ventilação e, além disso,  apenas ele tem o poder de matar os demais participantes do jogo.

3. Por que o jogo ficou tão famoso?

Acredito que a principal questão não seja o porquê do jogo ter ficado famoso, mas sim entender o porquê de continuar tão famoso. Poucos jogos conseguem ter a habilidade de se estabelecerem por tanto tempo no mercado, como ocorreu com o Minecraft.

Entretanto, Among Us garantiu um espaço significativo nesse mundo gamer e, provavelmente, continuará por um bom tempo. Principalmente, por conta dos inúmeros influenciadores digitais, como os streamers, que passaram a jogar os jogos com o público por meio do ato de streaming, ou seja, transmissão de conteúdo em alguma plataforma. Criando laços entre influencers e público no mundo dos jogos.

Dentre outros streamers, destacam-se, no Brasil, Alan Ferreira (Alanzoka) e Rafael Lange (Cellbit) que entretêm de 50 a 100 mil pessoas, simultaneamente. Ambos produzem esses vídeos ao vivo jogando “Among Us”, contribuindo para o seu crescimento.

Um exemplo dessa influência foi na volta do Minecraft para o mercado, tornando-se um dos jogos mais vendidos, novamente. Isso ocorreu pelo o que foi nomeado de “PewDiePie Effect”, tendo em vista que, foi uma época em que PewDiePie gravava inúmeros vídeos sobre o jogo para o canal, colaborando mesmo que, indiretamente, na criação desses fãs.

Todavia, é fato que da mesma forma que os jogos virais surgem, eles também desaparecem, isto é, rapidamente e repentinamente. Isso se dá pela facilidade e acessibilidade, quando os jogos são muito repetitivos ou complexos, gera certa apatia nos jogadores, já quando há uma correlação, mesmo que indiretamente, com a realidade e ao mesmo tempo têm mecanismos simples para jogar, gera interesse na sociedade.

4. Relação Democracia X Among Us

Pessoas morrendo, todos se culpando, alegações sem embasamento, corrupção, democracia e distribuição de empregos. Por incrível que pareça não falo do Brasil, mas sim de Among Us. Logo, reitero a semelhança entre o mundo estabelecido nesse jogo com o mundo real.

O principal ponto para começar a entender a relação entre a democracia e o jogo, é que durante as tarefas que são impostas aos tripulantes, é possível recorrer a um botão de emergência para acionar uma reunião caso algo não esteja saindo como o planejado e seja necessário conversar entre os jogadores. Sendo que, durante essas reuniões todos os integrantes podem votar em quem eles desconfiam ser o impostor. 

A questão é que a expulsão de um jogador da nave se dá por meio do voto democrático, que permite os jogadores escolherem quem eles acham que é o impostor e,  aquele que tiver mais votos é ejetado da nave e morre, tornando-se um fantasma, o jogador, embora ainda consiga jogar, tem suas funções limitadas. De maneira análoga à Constituição Federal de 1988, em que os alfabetizados maiores de 18 anos e menores de 70 anos são obrigados a votar, caso contrário têm que justificar o motivo do não voto, o direito ao voto no jogo é concedido sem distinção, ainda que não seja obrigatório realizá-lo, sendo capazes de votar até mesmo os impostores.

Nesse sentido, podemos ver que há uma suposta tentativa de igualdade inserida pelo sistema. Among Us, como aponta Mateus Dias em seu artigo: “Among us: uma crítica à democracia”, nos mostra, claramente, como o sistema é utópico e, muitas vezes, não funciona pelas inúmeras falhas. 

Fato é que: a vontade popular não é, necessariamente, uma vontade democrática. Nada se sacrifica em termos de valor democrático quando a vontade popular é limitada para que se produzam os resultados que são democraticamente exigidos. Entretanto, é fato que qualquer sacrifício de poder popular constitui uma significativa perda democrática, ainda que, seja uma perda justificada pelo próprio poder democrático, a justificação, certamente, não elimina a perda.

Durante muitas partidas, na hora da votação em meio a tantos argumentos e acusações sem embasamento – porque ninguém sabe de fato quem é o impostor, são apenas especulações durante todo o jogo – as pessoas acabam votando em inocentes, ou seja, indivíduos que não eram impostores têm seu direito à vida ceifado pelo voto da maioria. Como pontuado por John Stuart Mill, é necessário educar a opinião pública para o respeito à liberdade individual, a fim de que haja permissão à democracia para dispensar as restrições do governo da maioria. Posto que, na democracia populista a voz da maioria vence, embora nem sempre ela esteja correta.

Analogamente ao hodierno cenário brasileiro, quando políticos fazem votos em senado, é necessário reiterar que a liberdade “em jogo” é a de cada cidadão que está sendo representado por eles. Paralelamente ao que ocorre no jogo, a cada votação no senado uma de suas liberdades e direitos são ejetadas para o espaço, sempre terá pessoas sendo caladas, vontades suprimidas e liberdades defenestradas, como posto por Mateus Dias. “É como diz o velho ditado, você encontra dois indivíduos num beco escuro, os dois indivíduos então decidem roubar sua carteira e sugerem uma votação para decidir se o roubo irá ocorrer ou não, você perde por 2×1 e tem sua carteira roubada democraticamente. É lógico que a ação continua sendo errada, mesmo que pelo voto da maioria eles venceram de maneira democrática.”

Além disso, as estratégias de votação para expulsar algum participante revelam os discursos que políticos dão o tempo todo, como: “não tenho nada a ver com isso”; “eu não estava ali, estava ocupado fazendo outra coisa”; “se ele está me chamando de impostor é porque ele é o impostor” “eu não sabia de nada disso que vocês estão falando”, mas diferente de Among Us, votações para delimitar normas na sociedade já acontecem há séculos. Logo, o sistema da democracia sempre terá a possibilidade de ser falho. 

De acordo com Hans-Hermann Hoppe em seu livro “Democracia, o Deus que falhou”: “Na medida em que recorram à democracia, todos podem abertamente cobiçar as propriedades de todos os outros. E, desde que se obtenha o ingresso no governo, todos podem agir movidos pelos seus desejos pelas propriedades dos demais. Assim, sob a democracia, todos se tornam uma ameaça. ” (Pág. 120) [1]. De fato, todos se tornam uma ameaça absoluta e Among Us deixa isso bem pontuado em sua crítica direta à democracia.

Dessa forma, até mesmo os impostores podem se aproveitar da inocência dos votos dos tripulantes e usá-los a seu favor para matarem os outros, uma estratégia muito comum usada por políticos. Claro que among us é apenas um jogo, contudo é possível realizar um paralelismo claro entre o sistema em que o jogo é baseado e a democracia presenciada por todos cidadãos brasileiros, diariamente. Se a democracia fosse eficaz para resolver problemas o jogo nem aconteceria, pois o impostor seria identificado de primeira, não obstante da sociedade brasileira.

REFERÊNCIAS: 

[1] HOOPE, Hens-Hermann. Democracia O Deus que Falhou, Mises Brasil, 2014. Disponível em: https://rothbardbrasil.com/wp-content/uploads/arquivos/deus-que-falhou.pdf

[2] DIAS, Mateus. Among Us e sua crítica direta à democracia, 11 de outubro de 2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3HOmIYg1kRg

Publicado por Larissa de Matos Vinhado


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