por Leonardo Mariz

Atualmente, viver em uma sociedade capitalista consiste em normalizar diversas coisas, haja vista que estão sempre presentes em nosso cotidiano. É comum sair de casa, entrar em um objeto metálico que transporta pessoas sobre rodas com pneus de borracha; é comum ter um “computador portátil” no bolso; é comum ouvir barulho de metal no ar transportando pessoas em velocidade absurda em relação à capacidade humana; é comum viver nesta realidade, na qual repetições diárias são naturalizadas e, por consequência, não incitam reflexão.

Outro fator comum é ter pertences próprios, ou seja, ser dono de objetos – produzidos em sociedade a partir da junção de minérios extraídos do planeta com a mão de obra humana – e espaços – ambientes do planeta que são cercados e têm sua posse atribuída a uma ou mais pessoas -, pois, no sistema de produção que criamos, isso é comum.

Dessa forma, ser dono de objetos ou espaços culmina na normalização da proteção realizada para que o outro não tome a posse, e é neste ponto em que surge o tema central deste texto: a chave.

A chave, objeto pequeno que surgiu na China há muito tempo atrás, é tão comum em nossa vida que até uma criança é capaz de identificá-la. Este utensílio serve, basicamente, para abrir fechaduras – entraves criados por nós, seres humanos, e normalizados em nosso cotidiano – que servem para impedir acessos a determinados espaços, sejam eles grandes ou pequenos.

Destarte, esta ideia acerca do que é a chave parte do sentido denotativo da palavra, porém quero apresentar uma nova concepção sobre o que é uma chave, por isso é interessante analisar a música “Chave de Ouro”, do álbum “Banheira de Espuma”, produzido pelo MC Neguinho do Kaxeta (NK) e lançado em 2017, na qual o artista traz uma metáfora aplicada de forma muito inteligente, feito absurdo e frequente no funk consciente.

NK inicia a música com a frase “vou ostentar de janeiro a janeiro, vou ser a chave que abriu a sua mente”, frase em que a palavra “chave” pode ser interpretada de diversas formas, dentre elas, como instrumento de emancipação intelectual criado pelo artista e presente em sua obra com o intuito de atingir a massa periférica.

Posteriormente, o MC aduz que será “um dos favelado que vai conquistar o mundo” e diz: “vou ser pra minha mãe motivo de tanto orgulho”. Neste verso é possível identificar o desejo de, no futuro, deixar a condição social em que vive, ou seja, o que lhe é comum no sentido de conviver cotidianamente com isso, de forma a não a naturalizar.

Ademais, o artista expõe o desejo de mudar e, por isso, no verso seguinte coloca a seguinte frase: “abrimo as caminhada com chave de ouro”. Neste momento, NK usa a palavra chave com o emprego da metáfora para afirmar que “abriu caminhadas”, ou seja, mudou a forma de vida e adentrou em contextos diversos do que lhe era comum, e que fez isso através da “chave de ouro”, passível de interpretação como riquezas materiais, úteis para permitir o acesso a determinados espaços, o que, no caso do MC, somente foi possível a partir do lucro proporcionado pelo funk.

NK se coloca como aquele que, através da riqueza, abriu a possibilidade para que outros trilhassem o mesmo caminho, pois, como ele mesmo disse no início da música, quando expôs o seu sonho para o futuro: “vou ser representante de toda a massa funkeira”.

Além disso, é interessante que na obra do Neguinho do Kaxeta há abordagem do sonho e da sua concretização com a utilização da palavra “chave” como metáfora para incitar a reflexão acerca da mudança das realidades naturalizadas na sociedade atual, uma delas, a desigualdade social.

Desse modo, retornando ao que foi exposto no início deste texto, é comum a fechadura em um portão com o intuito de impedir o acesso a espaço considerado como pertencente somente àquele que tem a chave, porém também são naturalizados os entraves que impedem que pessoas determinadas ingressem em espaços e posições privilegiadas na estrutura social.

Por consequência, é extremamente necessário o uso de chaves para a abertura desses ferrolhos que são capazes de vedar a chegada de determinadas pessoas aos espaços e posições nos quais há bonança e poder, pois, assim como naturalizamos a proteção de objetos e espaços com fechaduras, também guardamos altos postos na estrutura social com outras espécies de obstáculos.

Portanto, a realidade é normalizada em diversos sentidos, positivos e negativos, mas a arte tem a incrível capacidade de incomodar e incitar a reflexão para que o normal seja questionado, e neste caso, os entraves criados ao acesso de determinado grupo de pessoas foi indagado, pois é injusto produzir ferrolhos para garantir o livre acesso de poucos e a exclusão de muitos. Não normalizemos absurdos, precisamos de mais chaves e menos fechaduras.

Publicado por Leonardo Mariz


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